Diretores do sucesso ‘Intocáveis’ abordam o autismo em novo filme

Carlos Helí de Almeida, especial para O Globo
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Carole Bethuel / Divulgação
Carole Bethuel / Divulgação

Recordista de bilheteria na França, onde foi assistido por mais de 19 milhões de espectadores quando lançado, “Intocáveis” (2011) , de Eric Toledano e Olivier Nakache, provou ser possível falar de personagens estigmatizados com leveza, humor e respeito que merecem. O sucesso internacional do longa, sobre a relação entre um tetraplégico rico e um enfermeiro de métodos poucos convencionais, chegou a inspirar remakes nos Estados Unidos e na Argentina, além de adaptações para o teatro. Pois a dupla de cineastas franceses volta a testar as sensibilidades do mundo a temas polêmicos com “Mais que especiais” (2019), comédia dramática sobre dois educadores que trabalham com jovens autistas.

Protagonizado por Vincent Cassel e Reda Kateb, a produção é uma das principais atrações do Festival Varilux deste ano, que, até o dia 3 de dezembro, oferece 17 títulos franceses inéditos e uma mostra especial dedicada aos 60 anos da Nouvelle Vague, em sessões presenciais em cinemas de todo o país. Depois de amanhã, o longa terá uma exibição on-line gratuita, às 17h30, seguida de bate-papo virtual, às 20h, com as educadoras Cristiane Muñoz e Cláudia Bolshaw, que atuam com pessoas com autismo (inscrições pelo link https://bit.ly/FVCF2020MQE, limitadas a 300 espectadores).

Sessão para Macron

Para além do mérito de ter encerrado, em caráter hors concours, o Festival de Cannes de 2019, e arrastar mais de dois milhões de espectadores em sua estreia na França, “Mais que especiais” tem jogado luz sobre os problemas associados à população com essa condição, ajudando a minimizar os preconceitos que dificultam ainda mais sua integração social.

— O sucesso do filme deu visibilidade ao tema do autismo na França, em particular às iniciativas e organizações que lidam com crianças e adolescentes com esse tipo de distúrbio. Chegamos a projetá-lo na Assembleia Nacional (o parlamento francês), e fazer uma sessão para a Presidência da República, a pedido do presidente Emmanuel Macron e da primeira-dama Brigitte — informa Nakache, 47 anos, em entrevista ao GLOBO. — Estamos orgulhosos porque, depois disso, criou-se aqui na França um fundo específico de apoio ao autista.

Assim como “Intocáveis”, “Mais que especiais” é inspirado em pessoas e organizações reais. Vinte anos atrás, Nakache e Toledano conheceram a obra de Stéphane Benhamou, criador do Le Silence des Justes, e Daoud Tautou, fundador do Les Relais Île-de France, duas instituições voltadas à reintegração de crianças e adolescentes autistas. Os educadores geralmente acolhem portadores de casos mais agudos do transtorno, rejeitados por outras instituições que preconizavam o confinamento e o controle rígido dos pacientes. Em 2005, o cotidiano das duas associações inspirou um documentário dirigido pela dupla para o Canal+. Levaria mais de uma década para que voltassem ao tema, dessa vez sob o ponto de vista da ficção.

— A ideia demorou a amadurecer em nossas cabeças. Tínhamos a obrigação de respeitar a realidade, e por isso fizemos um esforço de imersão total, que nos tomou muito tempo— explica Nakache, coautor, com Toledano, de sucessos como “Samba” (2014) e “Assim é a vida” (2017). — Se não fosse por “Intocáveis”, talvez ninguém nos desse carta branca para fazer “Mais que especiais”.

O elenco de “Mais que especiais” combina atores, cuidadores profissionais e portadores de autismo, como Benjamin Lesieur, que interpreta Joseph, um dos primeiros casos de sucesso do trabalho de socialização mostrados no longa.

— Foi um set bem particular. Não dava para chegar com a equipe e sair filmando, tivemos que ganhar a confiança dos educadores e dos jovens autistas reais que trabalhariam conosco — lembra Nakache. — Os técnicos e atores profissionais passaram por um processo de imersão um ano antes das filmagens, frequentando as associações, para que todos se conhecessem e criassem uma relação de confiança com os não atores.

Métodos contrapostos

O filme contrapõe os métodos tradicionais de acolhimento do portador de autismo do governo, marcado por rígidos protocolos que não preveem acompanhamento mais próximo e individualizado, ao tratamento alternativo desenvolvido pela Le Silence des Justes e a Les Relais Île-de France.

— O título (original) “Hors normes” (“Fora das normas”, em tradução livre) vem do fato de seus personagens não se encaixarem em categorias — aponta Nakache. — Para poder inovar, é preciso abandonar regras, redefini-las. É assim que as coisas avançam.

“Mais que especial”

Festival Varilux

Sessão on-line: segunda-feira, às 17h30. Inscrição, grátis, pelo site https://bit.ly/FVCF2020MQE. Com vagas limitadas.

Sessão no cinema: Hoje,às 15h, no Estação Net Botafogo; e amanhã, às 14h45, no Estação Net Ipanema (outros dias, salas e detalhes em rioshow.com.br)

O festival segue até o dia 3/12