Bolsonaro emula Alice do País das Maravilhas em discurso na ONU

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Brazil's President Jair Bolsonaro wears a protective face mask due to the coronavirus disease (COVID-19) pandemic as he arrives to addresses the 76th Session of the UN General Assembly on September 21, 2021 in New York. - The summit will feature the first speech to the world body by US President Joe Biden, who has described a rising and authoritarian China as the paramount challenge of the 21st century. (Photo by Eduardo MUNOZ ALVAREZ / POOL / AFP) (Photo by EDUARDO MUNOZ ALVAREZ/POOL/AFP via Getty Images)
Foto: Eduardo Muñoz Alvarez/AFP (via Getty Images)

No bolão de palpites antes do discurso de Jair Bolsonaro na ONU, nesta terça-feira 21, teve gente apostando alto que o presidente recém-convertido ao dom da moderação usaria a exposição midiática em Nova York para “reparar” a imagem ruim do Brasil para o público externo.

Bem que ele tentou. Abraçado à estratégia de que é possível dizer um monte de mentiras usando apenas a verdade, o chefe de Estado brasileiro recortou a realidade como pôde e como não pôde para mostrar o país como a terra da maravilha, da fantasia e das oportunidades. Parecia propaganda de parque aquático no país do volume morto.

Neste país ninguém desmata, o combate à corrupção é prioridade, índios aceitam pacificamente a passagem do agronegócio em suas terras, o contrato para investimentos é respeitado e as empresas públicas que ontem davam prejuízo agora jorram dinheiro com leite e mel. Ele também tentou mostrar que está na vanguarda da guerra sanitária em curso contra a covid e o desemprego.

Ao falar sobre a devastação florestal, por exemplo, Bolsonaro comparou números favoráveis de agosto em relação ao mesmo mês do ano passado, mas ignorou recordes de desmatamento de meses anteriores e o resultado mais óbvio de sua política de desmonte e sucateamento dos órgãos de fiscalização. Ignorou também que a Amazônia se tornou o palco das investigações envolvendo seu ex-ministro do Meio Ambiente, acusado de favorecer madeireiras ilegais —a única punição até aqui recaiu sobre o delegado que investigou o caso. Claro que isso não caberia no discurso de 12 minutos de um presidente acuado e prestes a ser indiciado por crimes de responsabilidade e charlatanismo em uma CPI aberta para investigar ações, omissões e estranhas transações durante a pandemia.

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Em tom de desafio aos chefes de Estado que o ouviam, Bolsonaro falou que a história e a ciência ainda vão julgar quem estava certo, se ele ou os demais países que logo perceberam a balela de apostas como tratamento precoce —que ele disse ter tomado e indicado como a solução adequada para evitar um morticínio que não evitou.

Na vida real, o governo se baseava em estudos de grupos privados agora acusados de omitir mortes e usar clientes como cobaias humanas, sem consentimento, para referendar a tese bolsonarista de que tratamento precoce funciona. Já são quase 600 mil mortos no país que mais investiu em cloroquina, uma tragédia que só tem desacelerado graças à pressão para que o governo federal deixasse de conversa e passasse a apostar na vacinação em massa.

Ainda assim, Bolsonaro por pouco não repetiu seu ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o quarto titular da pasta em um ano, e mostrou o dedo do meio para quem ainda exige passaporte imunológico para aceitar estrangeiros em seus países —medida rejeitada por ele, que se gaba de não ter se vacinado e agora precisa comer na área externa dos restaurantes de Nova York para não ser repreendido.

Ah, sim: como se estivesse em sua live de quinta-feira, Bolsonaro voltou a insistir que só ele, mais ninguém, se preocupou com as populações mais vulneráveis enquanto prefeitos e governadores as obrigavam a ficar trancados em casa. A realidade é que o auxílio emergencial, que a equipe econômica queria transformar em migalha, só saiu a fórceps graças à atuação da oposição no Congresso.

Outro detalhe é que poucos gestores adotaram medidas impopulares como lockdown total —quando o fizeram, foi por pouquíssimo tempo e quando os leitos de UTI já haviam entrado em colapso em algumas cidades. 

Bolsonaro não sabe disso porque nunca visitou um hospital durante as viagens pelos lugares onde promovia apenas aglomerações e torno de cavalo, moto e passeios de jet ski. Pelo contrário, ele e sua turma estimularam criminosos a entrarem em alas de unidade de terapia intensiva para supostamente “flagrar” leitos vazios e provar que o grande problema da pandemia era a supernotificação —como tentou fazer um ex-servidor que confessou ter alterado um documento oficial para atestar a lenda.

Nada disso, claro, cabia em seu discurso, que por pouco não precisou de um polígrafo instalado ao sistema de tradução.

Ao falar sobre tratamento precoce e outras fantasias, como a de que acabou com o socialismo no país onde bancos públicos e privados cansaram de obter lucros recordes em governos anteriores, Bolsonaro acabou desmentindo sua fala inicial, segundo a qual a imagem distorcida do país lá fora era resultado apenas da má vontade da imprensa e de seus inimigos. Não é. A má impressão vem de suas obsessões que ora parecem paroquiais demais para uma Assembleia da ONU, ora puro suco da fantasia povoada por suas obsessões.

Seu discurso em estado bruto, sem mediação, era a confissão em voz alta de sua prisão a um mundo paralelo onde pode finalmente escamotear os problemas reais dos brasileiros, hoje às voltas com a inflação, quase 15 milhões de desempregados e um fantasioso crescimento em V abortado pela demora na aquisição de vacinas, as constantes intervenções malfeitas na economia e no preço dos combustíveis e uma crise hídrica que só agora reconhece a gravidade.

Pesquisa Datafolha divulgada no mesmo dia mostra que 70% da população culpa Bolsonaro pela piora do cenário econômico. A estratégia de terceirizar a culpa já não cola na plateia doméstica. 

Longe dos cercadinhos de apoiadores, também não parece convencer o público de Nova York, a quem seus subordinados precisam mostrar os dedos e os dentes para não admitir que esse filme já foi queimado faz tempo.

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