Discurso de Lula é pautado por promessa de "reconstrução" e resgate da política

Brazil's President Luiz Inacio Lula da Silva gestures after receiving the presidential sash at the Planalto Palace, in Brasilia, Brazil, January 1, 2023. REUTERS/Adriano Machado
Foto: Adriano Machado/Reuters

Brasil, 27 vezes, política (12), democracia (8) e reconstrução (5) foram algumas das palavras mais usadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em seu discurso de posse no Congresso, neste domingo (1º).

Não à toa.

Em uma fala que resumiu a tônica de toda a campanha, Lula prometeu revogar não só os decretos, mas o espírito empossado com Jair Bolsonaro (PL) no Planalto entre 2018 e 2022. Um espírito sintetizado em outra das palavras mais usadas pelo petista na cerimônia: destruição (cinco vezes).

O petista prometeu tirar de cena o revanchismo, termo usado em uma única oportunidade do discurso.

No Congresso, ele preferiu não citar os tempos em que cumpriu pena por corrupção (palavra ausente do discurso) em Curitiba e não reservou qualquer menção aos termos Lava Jato ou seus atores.

Era um sinal de que não pretende remoer o que passou. Um sinal compreendido até certa página, já que ele deixou nas entrelinhas que o antecessor pode e deve se preocupar. Deixou isso claro em dois momentos. Um deles, quando prometeu enviar a cada uma das autoridades e coletivos do país um resumo dos trabalhos do grupo de transição para que todos possam conhecer o “diagnóstico estarrecedor” do orçamento legado por Bolsonaro.

O outro, quando falou em responsabilização pelas mortes evitáveis durante a pandemia da Covid-19. “Em nenhum outro país a quantidade de vítimas fatais foi tão alta proporcionalmente à população quanto no Brasil, um dos países mais preparados para enfrentar emergências sanitárias, graças à competência do nosso Sistema Único de Saúde. Este paradoxo só se explica pela atitude criminosa de um governo negacionista, obscurantista e insensível à vida. As responsabilidades por este genocídio hão de ser apuradas e não devem ficar impunes”, prometeu Lula, sem citar o antecessor.

O discurso foi feito em uma mesa na qual estavam presentes Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara que atuou em dobradinha com o governo Bolsonaro, e Augusto Aras, procurador-geral da República criticado pela subserviência em relação ao agora ex-chefe do Executivo.

Compunha a mesa também, agora como neoaliado de Lula, o deputado Luciano Bivar (União-PE), presidente do PSL quando Bolsonaro foi eleito pela sigla.

A composição dizia mais sobre o terreno perigoso com o qual o petista terá de transitar a partir de agora do que sobre uma frente ampla de fato. Os sorrisos amarelos de hoje podem em breve ser revertido por mordidas venenosas amanhã.

O petista lembrou seu discurso na cerimônia de posse de 2003, quando foi eleito pela primeira vez e prometeu esforços para que cada brasileiro tivesse a possibilidade de fazer ao menos as três refeições diárias. O fato de haver hoje 33 milhões de brasileiros sem comida na mesa explicitavam, segundo ele, o trabalho de reconstrução para o qual foi eleito novamente 20 anos depois.

Fome, aliás, foi outra das palavras mais usadas na posse. Sete vezes.

As ferramentas dessa reconstrução estão todas na política, citada em momentos diversos do discurso.

Bolsonaro, que viajou para os EUA e não passou a faixa para o sucessor, foi eleito em 2018 com forte discurso antipolítica. Em quatro anos, ele se mostrou na prática um presidente pouco afeito a buscar consensos (em tese, a essência da atividade política).

A palavra surgiu no discurso nas mais variadas acepções: “consciência política”, “política pública”, “participação política”, “política de valorização do salário-mínimo”, “política industrial”, “política cultural”, “política de cotas”.

Segundo o próprio presidente, “negar a política, desvalorizá-la e criminalizá-la é o caminho das tiranias”.

Bolsonaro, em seus primeiros dias como presidente, anunciou que não pretendia construir “muita coisa” em sua gestão, e sim “desconstruir” muita coisa. Não se pode dizer que fracassou.

Lula focou seu discurso na situação de petição de miséria do orçamento federal, sobretudo na área da saúde, da educação e do meio ambiente, para dizer que sua missão é reconstruir o que chamou de “destruição nacional”.

Em tom nada dúbio, disse que para isso será necessário revogar decretos como os que facilitaram o acesso e a posse de armas.

E botou um alvo considerável no “teto de gastos”, que chamou de “estupidez” prejudicial ao país.

Pouco depois, Lula subiu a rampa do Palácio, ao som de "Amanhã", de Guilherme Arantes, com um grupo de representantes de minorias, entre eles uma pessoa com deficiência, um menino e uma mulher negra, um rapaz com paralisia e o cacique Raoni, líder caiapó. A Amazônia e um Brasil menos capacitista, anunciou, subia a rampa com ele.

Diante de apoiadores, fez um de seus discursos mais emocionais, em que atacou o abismo entre ricos e pobres no Brasil, e (aí sim) fez referência aos dias de prisão, citados como um dos momentos mais difíceis de sua vida. Ele citou também o golpe contra Dilma Rousseff em 2016.

No simbolismo, a cerimônia não poderia ser mais diferente da de quatro anos atrás.

Em termos práticos, o trabalho de reconstrução mal começou.

A carta de compromisso está na mesa. Lula pode e deve cobrado pelo que disse e pelo que prometeu. É assim que as coisas funcionam numa democracia, que Bolsonaro tanto fez para desossar.

Lula fará História se conseguir levar intacta, ao fim da travessia, a Constituição e as instituições democráticas, tão atacadas nos últimos quatro anos e tão citadas em seu discurso de posse.

A cerimônia realizada sem que fossem cumpridas as ameaças de radicais, plantadas e alimentadas pelo presidente derrotado em outubro, é o primeiro capítulo de uma história que recomeça.