O discurso de procurador que reclamou de ganhar R$ 24 mil é sintoma de nosso "miserê" existencial


Quadro de Jean-Baptiste Debret sobre as origens do nosso fosso social (Reprodução)


Eu adoraria começar este texto dizendo o procurador do Ministério Público de Minas Gerais que reclamou de ganhar “apenas” R$ 24 mil é só um pobre menino rico que, como ele mesmo disse, no áudio que se tornou a notícia da semana, “infelizmente”, não tem origem humilde.

Poderia dizer que, se tivesse de fato outra origem que não à que, “infelizmente”, ele pertence, talvez conhecesse também a benção de encontrar, na vida familiar, social, profissional e afetiva, algum sentido que não fosse mediado por dinheiro. Afinal, bem-aventurados, afinal, os pobres de espírito, pois deles é a noção do valor às melhores coisas da vida – que não são coisas.

Eu poderia lembrar do filme “Onde os fracos não tem vez”, a metáfora perfeita dos irmãos Coen sobre a maldição da riqueza, na qual o personagem interpretado por Josh Brolin tira a sorte grande ao encontrar uma mala de dinheiro e, em troca, passa a ser perseguido por um lunático e perde a paz.

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Poderia dizer que alguma justiça, humana ou divina, acontece quando, num desses acasos da vida, vemos na cara dos bem nascidos o azedume de quem pode comprar muita coisa na vida, menos o gosto da simplicidade dos pequenos gestos.

Poderia ainda lembrar que ter muito nos leva a temer a perda de tudo, mesmo que nada disso se leve para outros planos, se é que existem, quando os corpos apodrecem. E que esse medo de tudo e todos que nos subtraem é também a condenação de quem está fadado a viver preso, na defensiva, encastelado entre iguais, em territórios fechados, amedrontados, super-vigiados, mofados – e longe da liberdade das crianças que, ainda sem saber nada disso, correm descalças pelas ruas e pelas praias com o peito aberto à amizade e aos grandes encontros.

Poderia, mas seria ingênuo.

Origem humilde, no Brasil, é sinônimo, muitas vezes, de um destino desenhado antes do nascimento. É ouvir, como um deboche, a lição de quem conseguiu furar o teto das expectativas e voltou, para delírio dos bem-nascidos, para contar a história das próprias vitórias, frutos de seus próprios esforços que não reivindicaram a ajuda, a bolsa ou o apoio de ninguém – muito menos das revoluções.

Não, o procurador que não sabe viver como R$ 24 mil, que está deixando de gastar R$ 20 mil de cartão de crédito para gastar só R$ 8 mil, e que por esse motivo está vivendo à base de comprimidos e antidepressivos, não é só um pobre menino rico. Dele não quero citar o nome, porque o problema não é ele; o problema é o discurso.

Esse discurso é engendrado por uma casta que não reconhece o próprio privilégio, mesmo que no escopo de seu trabalho como representante do Estado tenha a atribuição justamente de compreender privilégios e defender os que, esses sim infelizmente, nasceram com origem humilde.

A média salarial do brasileiro é de R$ 2.340.

Enquanto ele se queixa da vidinha miserável, provavelmente cercada por outros miseráveis que “infelizmente” não têm origem humilde e passam a vida a fritar as pestanas para manter o patrimônio que também um dia apodrecerá, o Brasil real - que acorda cedo, pega ônibus, junta o trocado, ouve desaforo no trabalho e vive atormentado pela realidade que a casta privilegiada não reconhece - tem a vida interrompida e atravessada por balas perdidas, por escolas cravejadas no tiroteio, pela ausência de quem deixa a casa de manhã para trazer o jantar na madrugada, ou saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou.

Romper esse ciclo de abandono é dever de quem tem na vida algo mais a fazer do que sentar no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar (desculpa, Raul).

Um país que não reconhece os próprios privilégios é um país fadado a colocar no funil a sua própria noção de direito. Compreender isso exige a retirada de uma trava dos olhos para poder enxergar além do próprio umbigo.

Parece fácil, mas isso exige um sentido um pouco maior da própria experiência humana para compreender noções básicas de solidariedade e generosidade com quem realmente morre nos escombros de um país que tem abolido, aos poucos, seu tecido de proteção social.

Quebrar esse ciclo exige consciência. Mas não há dinheiro do mundo que dê conta do nosso miserê existencial.