Discurso do Estado da União de Trump expõe as amargas divisões dos EUA

Por Jerome CARTILLIER y Alina DIESTE
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante seu discurso sobre o Estado da União, em Washington, em 4 de fevereiro de 2020

O discurso do Estado da União do presidente Donald Trump, nesta terça-feira, deixou clara a forte polarização política nos Estados Unidos, simbolizada na recusa do republicano em cumprimentar a presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, e no ato da líder democrata ao rasgar uma cópia do pronunciamento diante do Congresso.

Nove meses antes das eleições nas quais busca a reeleição, Trump ostentou uma economia "estrondosa" diante dos legisladores, sem dizer uma palavra sobre sua quase certa absolvição no processo de impeachment que corre no Senado, de maioria republicana, nesta quarta-feira.

"Diferente de tantos que vieram antes de mim, mantenho minhas promessas", afirmou Trump, interrompido várias vezes por aplausos de pé e gritos de "Mais quatro anos!" dos republicanos, enquanto os membros da oposição democrata permaneceram sentados e com os semblantes sérios.

O chefe de Estado republicano encontra-se em um bom momento: a praticamente certa absolvição no julgamento do impeachment vai marcar o fim de um processo de cinco meses que não enfraqueceu sua base eleitoral, além de ter agora um índice de aprovação de 49%, sua melhor avaliação desde que assumiu o cargo em janeiro de 2017.

Como se isso não bastasse, o início caótico em Iowa, na segunda-feira, das primárias democratas para definir seu adversário nas eleições de novembro permitiu que ele se gabasse da "incompetência" de seus oponentes.

- Esmagar a "tirania" de Maduro -

Na mesma Câmara de Representantes que o acusou de "abuso de poder" e "obstrução do Congresso", Trump misturou todas as questões da campanha: seu "poderoso muro" contra a imigração do México, sua intenção de proibir o "aborto tardio" e as acusações contra os candidatos democratas que, segundo ele, querem estabelecer um projeto "socialista para o nosso sistema de saúde".

Mas, acima de tudo, ele enfatizou "o grande sucesso econômico" dos Estados Unidos.

"Nossa estratégia funcionou", disse, referindo-se a seus acordos comerciais com a China, México e Canadá.

Ao defender sua política externa, a Venezuela ganhou destaque.

"(Nicolás) Maduro é um governante ilegítimo, um tirano que brutaliza seu povo. Mas o domínio da tirania de Maduro será esmagado e quebrado", disse Trump ao apresentar Juan Guaidó, líder da oposição venezuelana e autoproclamado presidente do país, reconhecido no cargo pelos Estados Unidos e cerca de 60 países, que estava presente no Congresso americano como "convidado especial" do presidente republicano.

Suas palavras foram um estímulo para Guaidó, que considera fraudulenta a reeleição de Maduro em 2018 e trabalha desde janeiro de 2019 para liderar um governo de transição e organizar novas eleições. Mas seus esforços, que foram apoiados por Washington desde o primeiro dia, não deram frutos, apesar da pressão americana e de sua bateria de sanções.

Trump ignorou seu confronto com o Irã e seu plano de paz para resolver o conflito entre israelenses e palestinos, antes de reafirmar sua intenção de "trazer de volta para casa" os soldados americanos no Afeganistão.

"Não é nossa função ser a agência de segurança de outros países", afirmou.

- Boicote e resposta em espanhol -

Falando diretamente para sua base eleitoral, como se estivesse num comício, Trump tinha entre seus convidados presentes um oficial da patrulha de fronteiras e uma mulher cujo irmão foi assassinado por um imigrante ilegal em 2018.

O presidente também condecorou o locutor de rádio conservador Rush Limbaugh, que acaba de revelar que está com câncer de pulmão, que recebeu a "Medalha da Liberdade" das mãos da primeira-dama.

Apesar de não falar sobre o impeachment, a sombra deste processo esteve presente durante todo discurso.

Alexandria Ocasio-Cortez, figura em ascensão na esquerda democrata, não compareceu à cerimônia para não "legitimar" um presidente que, segundo ela, não respeita as leis ou a Constituição.

Outros opositores abandonaram o plenário durante o pronunciamento, denunciando suas "mentiras".

Os democratas querem o impeachment de Trump por ele tentar forçar a Ucrânia a investigar seu possível oponente presidencial Joe Biden, com ameaças de bloqueio da ajuda militar crucial para este país em guerra.

Na réplica democrática em espanhol ao discurso de Trump, a congressista do Texas Veronica Escobar acusou o presidente de alimentar o ódio contra os latinos depois que o autor do massacre de El Paso no ano passado disse que seu alvo era os mexicanos.

"Ele usou as mesmas palavras de ódio usadas pelo presidente Trump para descrever imigrantes e latinos", afirmou Escobar.