Discurso do governo impulsionou queimadas e desmatamento na Amazônia, aponta estudo

RIO — O avanço da fronteira do desmatamento na Amazônia, constatado pelo estudo do Arco do Desmatamento, do Instituto Socioambiental (ISA), e a explosão na derrubada de florestas no Brasil entre 2018 e 2019 guardam relação próxima com o discurso de autoridades brasileiras, incluindo o presidente Jair Bolsonaro, a favor da flexibilização da legislação ambiental.

O trabalho, lançado nesta segunda-feira, cruzou os índices do sistema Prodes, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com declarações de Bolsonaro, do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e do governador do Acre, Gladson Cameli (PP).

Após o episódio em que o presidente desautorizou uma operação de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama) em Cujubim (RO), no mês de abril, o desmatamento no município cresceu 455% em maio. Bolsonaro criticou duramente a destruição de veículos utilizados pelos desmatadores por agentes do Ibama — o que é previsto pela legislação ambiental.

Em outro caso emblemático, Gladson Cameli foi gravado em uma conversa com produtores rurais em Sena Madureira (AC) pedindo que eles o procurassem caso o Instituto do Meio Ambiente do Acre (Imac) os multasse e orientou que "não pagassem" as eventuais reparações exigidas pelas autoridades do próprio estado. Um mês depois, em julho, os índices de desmatamento subiram 5.980 km² no município acreano. Nas cidades vizinhas de Feijó e Manuel Urbano, o aumento foi de 1.514% e 826%, respectivamente.

A decisão do governo Jair Bolsonaro de anunciar operações de fiscalização do Ibama também parece ter incentivado o desmatamento ilegal: na Floresta Nacional de Jamanxim, em Novo Progresso (PA), houve um aumento de 1.145 km² nos índices regionais. Na sequência de uma reunião do ministro Ricardo Salles com produtores de madeira em Espigão d'Oeste (RO), na qual ele destacou o papel da indúistria madeireira para o estado, a derrubada de matas no município subiu 332%.

O chamado "dia do fogo", no qual produtores rurais do interior do Pará se organizaram em grupos de WhatsApp para incendiar diversas áreas da floresta, também é mencionado pelo ISA. Em mensagens divulgadas pela imprensa na ocasião do auge das queimadas, em agosto, organizadores atribuíram a mobilização a um desejo de manifestar uma "mensagem" de apoio à política ambiental do presidente Bolsonaro.

Em Altamira (PA), uma das cidades mais afetadas pelo fogo, o índice de cicatrizes de queimadas cresceu 14.384% em agosto comparado com o mês anterior. Se o parâmetro for o mesmo período em 2018, a variação foi de 82.252%. Em Novo Progresso, também no Pará, os estragos deixados pelo "dia do fogo" representaram um aumento de 3.446% em relação a julho.

"A política ambiental não se faz com desconstrução e discursos incendiários ou que exaltam os setores que mais devastam a Amazônia. Na maioria das vezes, em se tratando de exploração de madeira, os setores favorecidos por esse discurso político atuam na ilegalidade", conclui o relatório do ISA.

O GLOBO procurou o Ministério do Meio Ambiente, o Palácio do Planalto e o governo do Acre, mas não obteve retorno até a conclusão deste texto.