Discurso pró-vacina de Bolsonaro surte pouco efeito entre apoiadores nas redes sociais

Guilherme Caetano
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A guinada pró-vacina no discurso de Jair Bolsonaro e de seus filhos, no mesmo dia em que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva atacou a condução do governo na pandemia e defendeu a vacinação, ainda não foi completamente compreendida pelos apoiadores do presidente, segundo analistas ouvidos pelo GLOBO.

Empresas que monitoram grupos, canais e redes sociais bolsonaristas identificaram que a mudança chegou ao conteúdo replicado de mensagens nesses meios, mas com baixa intensidade.

O primeiro sinal de uma tentativa de emplacar um discurso mais favorável à vacinação na internet veio do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ). Pouco após as declarações do petista, Flávio publicou imagem de seu pai com a frase "Nossa arma é a vacina" e fez um pedido aos assinantes de seu canal oficial no Telegram: "Vamos viralizar".

— O Bolsonaro vem mudando o discurso em relação à vacina, mas isso ainda não aparecia nos grupos de WhatsApp bolsonaristas. Ontem, começou a aparecer — diz o pesquisador da Universidade da Virgínia (Estados Unidos) David Nemer, que monitora centenas de grupos bolsonaristas no WhatsApp como objeto de pesquisa.

Os temas explorados nesses grupos, segundo Nemer, no entanto, se tratam mais de uma defesa dos esforços do governo federal em garantir a imunização para a população do que a defesa do imunizante. Ele analisa qualitativamente 183 desses grupos.

— O discurso agora é que Bolsonaro está fazendo de tudo para trazer a vacina, uma tentativa de tirar a culpa do presidente. Não existe autocrítica — afirma o pesquisador.

A família Bolsonaro — o presidente Jair e os filhos Eduardo, Carlos e Flávio — publicou 21 vezes sobre vacinas desde a quarta-feira, em geral reforçando esse discurso. Essas publicações somaram 593 mil interações em redes sociais (Twitter, Facebook e Instagram), segundo dados da Agência Bites.

Enquanto Bolsonaro tentou enfatizar que o Brasil é um dos países que mais vacina no mundo, as publicações de Eduardo e Carlos, como num vídeo em que o vereador publicou na quarta-feira à noite, traziam a ideia de que o presidente nunca foi contra a vacina. Carlos chama de "canalhas" quem afirma o contrário.

Diretor adjunto da Bites, André Eler diz que a inflexão nos discursos da família Bolsonaro pôde ser sentida entre os aliados do governo, como os deputados Carla Zambelli (PSL-SP) e Carlos Jordy (PSL-RJ), o ministro das Comunicações, Fábio Faria, e a conta oficial da Secretaria de Comunicação (Secom). Mas esse "cavalo-de-pau na narrativa" ainda não foi adotado completamente pela militância.

Nas 3,5 mil contas no Twitter alinhadas ao bolsonarismo que são monitoradas pela Bites, desde quarta-feira, 193 mil tuítes foram produzidos. Desse total, apenas 8 mil (4,1%) tuítes citaram vacinas. Algumas das mensagens com mais compartilhamentos citando vacinas, no entanto, endossa de alguma forma essa tentativa de inflexão retórica da família, segundo André Eler.

Ele diz que os sites bolsonaristas, onde o conteúdo publicado nesta semana pouco trata do assunto, são um "bom sinal" para medir a repercussão do novo discurso, porque eles costumam "repetir todas as linhas que o Bolsonaro defende".

— O próprio bolsonarismo ainda não entendeu muito bem essa inflexão. Ainda tem muita gente preferindo atacar os governadores e questionando as medidas de distanciamento — diz.

Para Eler, essa mudança retórica repentina torna mais difícil a sustentação do novo discurso por parte da militância.

O programador Guilherme Felitti, da empresa de análise de dados digitais Novelo Data, afirma que há três dias o assunto "Lula" é o mais comentado entre os 182 canais bolsonaristas mais populares do YouTube, mais que o termo "Bolsonaro".

— Os ataques ao Lula não significam defesa à vacina. O Flávio pediu para viralizar essa imagem do Bolsonaro defensor da vacina, mas, pelo menos no Youtube, não colou. Depois de meses atacando a vacina, com o uso de termos como “vachina”, defender de repente a vacinação exige uma mudança radical que a base (por enquanto) não conseguiu executar — declara Felitti.

Apesar da tentativa de construir uma narrativa em defesa da vacina, Bolsonaro por diversas vezes foi contra ou colocou empecilhos para a compra de imunizantes. Em outubro, Bolsonaro chamou o imunizante de "vacina chinesa de João Doria" e afirmou que ele não seria comprado. Além disso, disseminou desinformação sobre o produto ao insinuar que poderia conter efeitos colaterais desconhecidos.

Segundo informou o colunista Lauro Jardim, o presidente está sendo aconselhado por ministros próximos a aproveitar a nova cepa mais contagiosa do vírus para mudar o discurso sobre vacinas e a campanha nacional de imunização. O Brasil vem vivenciando sucessivos recordes no número diário de mortes. No boletim divulgado na noite de quarta-feira, foram 2.300 óbitos, uma marca inédita.

Na quarta, em uma cerimônia no Palácio do Planalto, usando máscara, Bolsonaro sancionou projetos que facilitam e aceleram a compra de imunizantes.

No mesmo dia, num discurso no Sindicato dos Metalúrgicos, evento marcado pelo uso de máscara, álcool em gel e distanciamento social, Lula criticou a condução de Bolsonaro na pandemia e prometeu "fazer propaganda" da vacina à população:

— Semana que vem, se Deus quiser, eu vou tomar a minha vacina. Vou tomar a minha vacina. Não me importa de que país, não me importa se é duas ou uma só, sabe? Eu vou tomar minha vacina e quero fazer propaganda pro povo brasileiro: não siga nenhuma decisão imbecil do presidente da república ou do ministro da saúde. Tome vacina.