Discussão de gênero e ostentação permeiam chá de revelação, cujas buscas atingiram o ápice em 2020

Talita Duvanel
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A cena começa com dois bonecos de bebês gigantes, uma menina e um menino, pulando de um lado para o outro num quintal. De repente, inicia-se a “luta”. Um soco desengonçado daqui, uma cabeçada estranha dali, e o bebezão de babador azul leva o empurrão final e cai no chão. Acabaram a peleja e o mistério. A mais nova integrante da família de um casal de mexicanos, que viralizou na internet com seu chá revelação no fim de agosto, é uma menina. O vídeo, postado no TikTok, gerou todo tipo de reação. A mais compartilhada no Facebook (com 166 mil reposts) foi a do humorista Leandro Hassum, com a legenda: “Agora o chá revelação foi longe demais.”

Longe, porém, é uma palavra que não existe no vocabulário de muitos pais adeptos da cerimônia. Semanas depois dos mexicanos, outro vídeo chegou por aqui, causando discussões acaloradas nas redes. Um casal de youtubers de Dubai fez um show de projeções num arranha-céu da cidade, que culminou com os dizeres “é um menino” na cor azul. Houve quem se emocionasse com a alegria da dupla, embalada pela edição cinematográfica do vídeo, e quem se indignasse com a ostentação. No final, descobriu-se que se tratava de uma ação patrocinada por uma construtora local.

Em versão simples ou exibicionista, o chá revelação é, atualmente, uma das maiores polêmicas da maternidade, nas vidas real e virtual. E não tem pandemia que o faça arrefecer. Segundo dados do Google, o termo “chá revelação” nunca foi tão pesquisado como em 2020. “Desde maio, as consultas pela expressão vêm crescendo mês após mês e, em setembro, atingiu o maior ponto desde o início das medições do Google Trends, há 16 anos”, diz o relatório da empresa.

“Como tudo em maternidade, o chá é ame ou odeie, é polêmico, tipo cesariana ou parto normal”, brinca a decoradora de eventos infantis Adriana Romualdo, dona da empresa Julubeca, que viu a moda ocupar o tempo das gestantes junto com o chá de bebê e a recepção na maternidade. A empresária confirma que a pandemia não fez as mães desistirem da experiência, e muitos chás migraram para o ambiente on-line. Seja por reunião via Zoom ou vídeo gravado para os amigos, como fez a estilista de Juiz de Fora (MG) Olívia Aragão, vale tudo — e sempre acaba em postagem.

“O Instagram, o Pinterest e outros site estimulam as pessoas”, diz Olivia, de 37 anos. “É como no mercado de casamento. No começo, há coisas que a noiva acha supérfluas, depois sente ser essencial de tanto que viu na internet.” A mineira, de fato, esbarrou em muitas referências nas redes e participou de diversos eventos do tipo no ano passado, mas o isolamento social acabou obrigando-a, digamos, a lançar moda.

Os irmãos esconderam pistas pelo sítio da família, e a caça ao tesouro (o sexo biológico do bebê) foi toda filmada, com direito até a imagens de drone. No fim de outubro, o vídeo de sete minutos foi compartilhado com amigos, que viram Olívia e o noivo Igor Amadeu encontrarem um pote cheio de tinta azul. Pronto, a curiosidade estava saciada.

Se o ciclo social da estilista foi brindado com uma produção caprichada, o da professora Raquel Pontes, de Arraial do Cabo (RJ), não teve a mesma sorte. Ela até foi cobrada pelas amigas para que fizesse uma festinha, quando anunciou a gravidez, há três anos, mas a resposta veio na lata: “Chá de revelação? Jamais”. Para ela, esse tipo de evento tirou a magia de uma experiência íntima entre os pais do bebê. “Descobrir que ia ter um menino foi um momento tão meu e do meu marido. E os amigos falando: ‘Faz chá, é legal.’ Eu respondia: ‘Legal para quem? Para vocês, né?’”, brinca ela.

Por incrível que pareça, a pessoa a quem se atribui a invenção do chá de revelação está mais para Raquel do que para Olívia. A americana Jenna Karvunidis seria, até onde se tem registro, a primeira a fazer uma festa do tipo, nos idos de 2008. O esquema foi o tradicional corte do bolo: o recheio era rosa, e a família descobriu que ela teria uma menina. Jenna escreveu sobre o assunto em seu blog pessoal e, tempos depois, a revista “The Bump”, especializada em gestação, espalhou a história. Mas, em entrevista à “BBC” no ano passado, ela lamentou o ocorrido. “Adoraria que provassem que não fui eu (a inventora do chá). Já me arrependi, me senti culpada e responsável”, disse. “Hoje, as pessoas explodem coisas para revelar o sexo do bebê, tem gente morrendo por causa disso, há incêndios em florestas, estão usando animais.” Só em setembro desse ano, na Califórnia, o fogo proveniente de um balão estourado numa dessas festas destruiu 28,5 quilômetros quadrados de vegetação.Na mesma fala, Jenna também reconhece outro ponto controverso. “Há uma visão que reforça a dicotomia perigosa entre masculino e feminino e envolve uma tentativa de colocar a mulher de volta no seu lugar.”

Essa questão também é levantada pela professora Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem) da UFMG. “Estamos vivendo um processo global de neoconservadorismo, e os fenômenos relacionados à agenda de gênero vão ganhando essa matiz. Se você combina a lógica de transformar tudo em consumo e exibicionismo com o conservadorismo brasileiro, o tema ganha saliência por aqui.”

Os questionamentos de Jenna e Marlise têm surgido em algumas mães que ainda gostam da comemoração, mas pensam nos simbolismos de suas escolhas. A advogada carioca Roberta Manhães fez, há cinco anos, uma festinha “clássica” para descobrir que carregava um menino na barriga. O script seguiu a tradição: decoração e bolo recheado com a cor considerada correspondente ao sexo biológico do bebê. Roberta relembra de tudo com muita felicidade, mas, se fosse hoje, faria diferente. “Não sei como seria, mas não usaria o rosa e o azul, porque estamos vivendo um momento de vontade de derrubar barreiras”, diz a advogada, de 36 anos.

Para quem não quer abdicar do chá, há um mundo além do “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”. Malu Neri, dona da empresa de balões The Balloons, conta que já atendeu encomendas que fugiam ao usual, como, por exemplo, laranja e verde. “As pessoas ‘ensinavam’ os convidados por meio da decoração. Menina era escrito em laranja e menino em verde para mostrar, na hora em que estourasse o balão, o significado”, diz Malu. No mundo dos bolos, isso não costuma ser comum, diz a confeiteira Paola Mello, dona da Doce Mellado. “Por mais que eu sugira um verde e um vermelho, os clientes sempre vão no rosa e no azul, com passarinho ou ursinho”.

A influenciadora digital Jade Seba, mãe de um menino de 1 ano, foi dessas que apostou no clássico porque não acha que haja consequências mais profundas. “Fiz o chá um pouco antes desse boom de cancelamento (após fala da ministra Damares Alves). Mas não acho que isso determine o gênero de cada um.”

A pesquisadora Marlise concorda que, mais do que uma cor, pesa o que os pais fazem em relação às suas expectativas. “É do imaginário da maternidade o desejo de saber o sexo biológico do bebê. Isso em si não é um problema. Temos essa curiosidade”, diz Marlise. “O problema é quando um bebê vai, no futuro, desenvolver uma identidade de gênero que não se conforma com os anseios dos pais. A construção do gênero é processo complexo, envolve infinitas variáveis. Mas uma quebra de desejo pode gerar um buraquinho que, eventualmente, pode se tornar um problema mais adiante.”