Discuti com ela como um cidadão negro, diz homem perseguido por Carla Zambelli

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O jornalista Luan Araújo, 32, contra quem a deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) apontou uma arma na tarde deste sábado (29), em São Paulo, diz que não empurrou a bolsonarista, como ela alega.

Ele conta que voltava de um chá de bebê com amigos quando viu a deputada pedir voto no candidato ao Governo de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao recepcionista de um bar e reagiu com um xingamento a ela.

Os seguranças de Zambelli, então, começaram a filmá-lo, e a briga escalou quando ele disse "te amo, espanhola", em uma referência à fala do senador e presidente da CPI da Covid Omar Aziz (PSD-AM).

Em 2019, na CPI das Fake News, a também deputada Joice Hasselmann (PSDB-SP) disse que já havia sido questionada pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre o período em que Zambelli esteve na Espanha. A desconfiança do mandatário, segundo Hasselmann, é que a aliada havia sido prostituta no país europeu.

Nesse momento, de acordo com Araújo, a deputada começou a correr atrás dele e um tiro foi disparado. Zambelli disse que atirou para o alto antes de entrar armada no bar.

"Eu fiquei realmente assustado e comecei a sair correndo porque eu comecei a temer —não ser preso, porque eles não são policiais, mas pela minha vida", diz o jornalista. "Eu ouvi um tiro e não sei se passou perto da minha perna, mas eu senti a bala chegando perto. E saí correndo do bar. Eles tentaram me colocar no chão, como se fossem policiais mesmo."

Além dela, outros dois seguranças estavam armados, e um deles apontou a arma no rosto de um colega de Araújo, segundo relatam.

Quando entraram no bar, a deputada pediu que o jornalista deitasse no chão e pedisse desculpas.

"Eu falei: 'você não é policial, eu não vou ficar no chão para você'. Aí começou um bate-boca muito grande e ela disse que ia chamar a polícia", diz ele que, por fim, pediu desculpas para ir embora.

"O susto que eu passei hoje foi enorme. Eu pensei na minha mãe, que é sozinha. Eu sou preto, eu sou periférico, da zona leste de São Paulo. Eu pensei muito na minha namorada. Eu pensei muito na minha vida e eu acho que a gente está em uma situação extrema, não é uma situação normal. Não é uma situação saudável."

Em sua página no Instagram, a deputada aparece ofegante ao lado de um policial e afirma que registrou boletim de ocorrência. "Fui agredida agora pouco, me empurraram no chão. Eram vários. Eles usaram um homem negro para vir para cima de mim", disse Zambelli. No vídeo, ela tropeça quando começa a correr.

"Fui eu como um cidadão negro que discuti com ela. Não foi ninguém, não foi PT. Fui eu, um cidadão comum", afirmou Araújo, que vai fazer um boletim de ocorrência.

Segundo legislação eleitoral, o porte de arma e de munição é proibido por colecionadores, atiradores desportivos e caçadores nas 24 horas que antecedem e sucedem o dia de votação. Uma resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) aprovada em setembro determina que o descumprimento da regra pode acarretar prisão em flagrante por porte ilegal.

Zambelli afirma ter o porte de arma federal para defesa pessoal e patrimonial, que é expedido por um delegado da Polícia Federal, diferentemente dos CACs, cuja autorização de porte é concedida pelo Exército.

Em entrevista após o caso, a deputada afirmou que a resolução, no seu ponto de vista, é ilegal, e "ordens ilegais não se cumprem". "Eu conscientemente estava ignorando a resolução e continuarei ignorando a resolução do senhor Alexandre de Moraes [presidente do TSE]", afirma.

À Folha de S.Paulo a deputada disse que Araújo a ofendeu com palavrões. "Eu estava almoçando com meu filho no bar, um homem começou a me xingar e falar que o Lula iria ganhar. Eu tenho porte federal de armas, [mostrei] até para ele parar", disse.