Disparo de ex-ministro da Educação é a metáfora do país que trocou livros pelas armas

BRASILIA, BRAZIL - OCTOBER 14: Minister of Education, Milton Ribeiro arrives for launch Programa Genomas Brazil amidst the coronavirus (COVID-19) pandemic at the Planalto Palace on Octuber 14, 2020 in Brasilia. Brazil has over 5.140,000 confirmed positive cases of Coronavirus and has over 151,747 deaths. (Photo by Andressa Anholete/Getty Images)
O ex-ministro da Educação Milton Ribeiro. Foto: Andressa Anholete (via Getty Images)

“É esse o ensinamento que você quer dar?”, perguntou Marina Silva, no centro do palco de um estúdio da RedeTV em um dos raros debates das eleições presidenciais de 2018 que contaram com a presença do então candidato Jair Bolsonaro.

Foi a ele que a ex-senadora dirigiu a pergunta.

Pouco antes, em um evento de campanha, o futuro presidente havia segurado uma criança no colo e a ensinou a atirar.

A imagem viralizou e levou a adversária da Rede a questionar se o então candidato realmente acreditava que tudo poderia ser resolvido no grito e na violência.

“Nós somos mães, nós educamos os nossos filhos. A coisa que uma mãe mais quer é ver um filho sendo educado para ser um cidadão de bem. E você fica ensinando para os nossos jovens que têm de resolver as coisas na base do grito, Bolsonaro. Você é um deputado, você é pai de família. Você um dia desses pegou a mãozinha de uma criança e ensinou como é que se faz para atirar. Você sabe o que a Bíblia diz sobre ensinar uma criança? ‘Ensina a criança no caminho em que deve andar e até quando for grande ela não desviará do caminho”, afirmou.

A ex-ministra, que é evangélica, devolvia assim a pergunta feita por Bolsonaro sobre sua opinião a respeito do porte de armas de fogo.

Armas, educação, Bíblia.

Estava tudo ali naquele princípio de enfrentamento. Bolsonaro, como se sabe, não voltou a participar de debates na TV após ser alvo de um atentado a faca em um Juiz de Fora (MG), embora tenha se prontificado a conceder entrevistas para emissoras amigas durante sua recuperação.

As incontinências daquela campanha fizeram com que ficassem para nunca o debate iniciado naquela noite de agosto. Havia ainda dois meses para a eleição.

A resposta para os questionamentos da ex-senadora foram dadas por Bolsonaro ao longo de seu mandato. Em pouco mais de três anos, quatro ministros e meio passaram pelo Ministério da Educação.

Um deles foi demitido após ameaçar ministros do Supremo Tribunal Federal, assassinar a língua portuguesa em suas redes e publicar chacotas de teor xenofóbico contra autoridades chinesas. Abraham Weintraub hoje direciona a artilharia contra o ex-chefe.

Outro, o pastor Milton Ribeiro, saiu pela porta dos fundos ao dizer em voz alta que a pedido do presidente deveria priorizar o envio de verbas a prefeituras indicadas por dois pastores sem cargo no governo e acusados de montar um balcão de negócios à entrada do MEC. Um deles, Arilton Moura, esteve 90 vezes na sede da pasta desde o início do governo, segundo noticiou o jornal O Globo com base em um pedido via Lei de Acesso a Informações.

O outro, Gilmar dos Santos, foi recebido 13 vezes no mesmo período.

Eles são suspeitos de cobrarem propinas de prefeitos para acelerar a liberação de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Senadores articulavam a criação de uma CPI para apurar os pontos obscuros dessa história. As atenções foram pulverizadas desde que Bolsonaro decidiu conceder um indulto individual a um deputado federal condenado à prisão por ameaçar ministros do Supremo e o Estado democrático de Direito.

Na última segunda-feira (25/4), Ribeiro disparou uma arma carregada e destravada que carregava em uma pasta dentro do Aeroporto Juscelino Kubitschek, em Brasília. A bala foi disparada para baixo, atingiu o piso de granito e se estilhaçou. Dois funcionários foram atingidos pelos estilhaços, sem ferimentos graves.

Ribeiro tem porte de arma e registro como Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador. O aeroporto, como se sabe, é um dos lugares muito frequentados por animais silvestres, como ursos e onças pintadas, que precisam ser abatidos quando cruzam o caminho dos passageiros.

O disparo aconteceu acidentalmente enquanto o ex-ministro tentava abrir a sua pasta de documentos para separar a arma do carregador. Ele se atrapalhou tentando fazer isso sem expor a arma no balcão. Descumpriu, assim, uma regra básica da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e da Polícia Federal que determina uma área especifica em cada aeroporto para o desmuniciamento de armas –geralmente uma caixa cheia de metal e areia com um alvo de papel.

“Esse episódio demonstra que pessoas estão portando arma de fogo sem ter o preparo técnico adequado”, disse, ao jornal O Globo, o policial federal Roberto Uchôa, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e autor de “Armas para quem? A busca por armas de fogo”.

Para ele, “tentar descarregar uma arma de fogo numa área pública de embarque é uma demonstração de imperícia”.

O episódio, grifo meu, é praticamente uma metáfora do risco de se colocar à frente de uma pasta estratégica como o Ministério da Educação figuras como Milton Ribeiro. O tiro acidental escancara a imperícia do presidente em escolher seus ministros.

Alguém estúpido o suficiente para tentar descarregar uma arma numa área lotada de passageiros não poderia jamais estar à frente dos desafios do país na área da educação –e eles são muitos.

A pergunta de Marina Silva levantada naquele primeiro debate entre presidenciáveis segue atual, embora já respondida.

“É esse o ensinamento que você quer dar?”.

Era.

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