Disposta a discutir a floresta, Flip confirma edição virtual anuncia autores: 'Nosso lugar de fala é vegetal'

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A Festa Literária Internacional deParaty (Flip) já se prepara para voltar à cidade histórica fluminense. Oretorno, por enquanto, será mais virtual do que presencial. Este ano, a 19ª Flip será realizada de 25 de novembro a5 de dezembro em formato virtual. Além de serem transmitidas pelo canal dafesta literária no YouTube, a mesas da programação principal serão exibidas emtelões espalhados por Paraty e região — não apenas no centro histórico, onde a festa literária tradicionalmente ocorre. Em cadaum desses pontos, haverá moderadores interagindo com o público. Quem assistir àprogramação pelo YouTube, poderá interagir com os autores convidados por meiodo chat.

Em nota divulgada nesta quinta-feira(21), o diretor artístico da Flip, Mauro Munhoz, justificou a decisão derealizar a festa literária virtualmente pelo segundo ano seguido. “Não édesejável, diante da imensa tragédia causada pela pandemia, almejar uma volta ànormalidade”, afirmou. “Mas teremos muitas novidades relacionadas ao territórioe interatividade com nossos públicos.”

A Flip anunciou ainda os nomes demais três autores convidados. Nas últimas semanas, foram divulgadas asparticipações do escritor chileno Alejandro Zambra e do botânico StefanoMancuso. Completam a lista o filósofo italiano Emanuele Coccia e as escritorasDjaimilia Pereira de Almeida (Portugal) e Elif Shafak (Turquia). Até o inícioda festa, mais nomes devem ser anunciados. Ao todo, serão 19 mesas.

Este ano, pela primeira vez, a Fliptem curadoria coletiva (uma "floresta curatorial", nas palavras da direção da festa literária), formada pelos antropólogos Hermano Vianna e João Paulo Lima Barreto, pelo escritorEvando Nascimento, pela editora Anna Dantes e pelo crítico literário PedroMeira Monteiro. Em agosto, foi divulgado o manifesto “Nhe’éry, plantas e literatura” paraexplica a opção da festa por levar o mundo vegetal para o centro do palco.“Nhé’ery” (pronuncia-se “nheeri”) quer dizer “onde as almas se banham e é comoo povo Guarani chama a Mata Atlântica Conforme divulgado em agosto, em vez de um único autor homenageado, a festa serádedicada a pensadores indígenas mortos pela Covid-19, como o escritor HiginoTenório, o artista plástico Feliciano Lana, o líder guarani Domingos Venite, ea guardiã das plantas de cura do povo Mura, Maria de Lurdes.

— O Brasil não sabe o que perdeu com essas as mortes dessas pessoas, que eram guardiães de saberes ancestrais —diz

Os autores já anunciados, dois sededicam a reflexões sobre o mundo vegetal. Autor dos livros “A planta do mundo”e “Revolução das plantas”, publicados pela Ubu, Mancuso estuda os modos decomunicação e organização das plantas. Já Coccia, professor de filosofia naÉcole de Hautes Études em Science Sociales (Escola de Altos Estudos em CiênciasSociais), em Paris, propõe que a reflexão filosofia inclua também as plantas.Entre seus livros estão “A vida das plantas” e “A vida sensível”, editados pelaCultura e Barbárie.

Em coletiva realizada nesta quinta,Coordenador do coletivo curatorial, Hermano Vianna lembrou que, recentemente,teve início a chamada “virada vegetal”, que começou na filosofia, seexpandiu para as artes visuais, mas ainda não chegou de vez para na literatura.Evando Nascimento lembrou que, desde as fábulas de Esopo, as plantas estãopresentes na literatura, ainda que a crítica literária pouco se atentado para isso.

— Escritores como Fernando Pessoa,Guimarães Rosa e Clarice Lispector colocaram a planta em um lugar fundamental.Na contemporaneidade, poetas como Adriana Lisboa e Leonardo Fróes trabalham asplantas em sua vivacidade máxima — disse. — No romance “Água viva”, apersonagem fala muito das flores, se identifica com uma árvore. No conto“Amor”, a personagem vai ao Jardim Botânico e tem uma experiência de êxtase.

Pedro Meira Monteiro completou:

— Estamos buscando o êxtase e aestaticidade, no sentido de velocidade diminuída, que as plantas têm a nosensinar. O barato desse conto da Clarice é que acontece uma perda dos limitesdo sujeito cartesiano, que se esparrama numa floresta. Se Margaret Thatcherdisse que não existia mais a sociedade, apenas o indivíduo, agora não existemais o indivíduo, apenas a floresta — afirmou.

Os curadores confirmaram ainda que a política, que pautou boa parte das discussões das últimas edições da Flip, estará presente de maneira explícita em várias mesas:

— O nosso lugar de fala é vegetal. Falamos a partir da floresta, que é um lugar que acolhe. Discutir a floresta, as plantas a a literatura tem uma importância imensa porque tem a ver coma preservação da vida humana — explicou Nascimento. — Nada pode ser mais político do que isso.

'Queda significativade receita'

Entre os dias 25 e 29 de outubro, aFlip realizada, em parceira com o Centro de Pesquisa e Formação do SESC SãoPaulo, o Ciclo de Homenagem 2021. Nas edições anteriores, o Ciclo promoviadiscussões sobre a obra do autor homenageado. Este ano, será debatida a relaçãoentre a literatura e as plantas. Ao todo, serão cinco mesas, uma por dia. Entreos debatedores, estão os cineasta Carlos Papas e Sueli Maxakali e os artistas pplásticos Denilson Baniwa e Jaider Esbell. As mesas serão transmitidas pelocanal do Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo no YouTube.

Promovida pela Associação Casa Azule apoiada pelo Ministério do Turismo, a Flip conta com recursos captados viaLei Federal de Incentivo à Cultura e patrocínio oficial do Itaú e do InstitutoCultural Vale. No entanto, a direção da festa literária “estima uma queda significativade receita” e afirma ainda estar em busca de “apoios e interlocuções com acomunidade local”.

Confira quem são os autores jáconfirmados para a Flip 2021

Alejandro Zambra

Nascido em Santiago, no Chile, em1975, Alejandro Zambra é um dos principais nomes mais elogiados da novaliteratura latino-americana e participou da Flip em 2012. Autor de títulos como“Bonsai”, “Formas de voltar para casa” e “Meus documentos”, é parte de umageração de escritores latino-americanos que chegou à maturidade após o fim dasditaduras no continente e se dedicou a trabalhar as memórias dos regimesmilitares em seus livros, muitas vezes fazendo uso de recursos com aautoficção. No Brasil, já foi publicado pela extinta Cosac Naify e pelaPlaneta. Este mês, a Companhia das Letras lançou o volume “Ficção”, que reúne aprosa escrita pelo autor entre 2006 e 2014, e o romance “Poeta chileno”.

Djaimilia Pereira de Almeida

Vencedora do Prêmio Oceanos, em2019, com o romance “Luanda, Lisboa, Paraíso”, a portuguesa Djamilia Pereira deAlmeida nasceu em Angola, em 1982. Em 2017, veio a Flip e lançou o romance“Esse Cabelo” (Leya), que acompanha a tempestuosa relação de uma “rapariga” comsua cabeleira crespa. Em entrevista ao O GLOBO, em 2019, ela disse que “Luanda,Lisboa, Paraíso” (lançado no Brasil pela Companhia das Letras) foi escrito aosom de Cartola: “ouvi continuamente ‘O mundo é um moinho’, para mim uma peçafilosófica, mais do que uma canção”. O protagonista do livro se chama Cartola.Este ano, a Todavia lançou o terceiro romance da autora, “A visão das plantas”,sobre um ex-pirata que a todos assusta com suas histórias e encanta com abeleza de seu jardim. Djaimilia é colunista da revista “Quatro Cinco Um”.

Emanuele Coccia

Italiano, Emanuele Coccia éprofessor de filosofia na École de Hautes Études em Science Sociales (Escola deAltos Estudos em Ciências Sociais), em Paris. Autor de livros como “A vida dasplantas” (Cultura e Barbárie) e “Metamorfoses” (Dantes), Coccia é especialistapensamento medieval propõe que a reflexão filosofia inclua também as plantas.

Elif Shafak

Escritora turca nascida na França,em 1971, Elif Shafak escreve em turco e em inglês. É autora de 12 romances, dosquais apenas um foi publicado no Brasil: “10 minutos e 38 segundos neste mundoestranho” (HarperCollins), que foi finalista do Booker Prize, um dos maisprestigiosos prêmios da literatura em língua inglesa. Militantes dos direitosdas mulheres e das população LGBTQIAP+, Shafak é doutora em ciência política jálecionou em universidades nos Estados Unidos, no Reino Unido e na Turquia.

Stefano Mancuso

Nascido na Itália, em 1965, StefanoMancuso é botânico. Em 2005, fundou o International Laboratory of Plant Neurobiology(LINV), um laboratório de neurobiologia vegetal ao estudo dos modos deorganização e comunicação das plantas. Em 2012, apresentou um robô capaz deagir como uma planta. Publicado no Brasil pela Ubu, é autor de “A planta domundo” e a “Revolução das plantas”.

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