Disputa comercial com China e futuro do Brasil marcam início do fórum de Davos

A rivalidade comercial do Ocidente com a China pelas energias verdes e o futuro do Brasil, que prometeu fortalecer a democracia depois do ataque aos Três Poderes e equilibrar suas contas públicas, concentraram as atenções na abertura do fórum econômico de Davos nesta terça-feira (17), que a cada ano reúne a elite econômica e política mundial nos Alpes suíços.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, criticou hoje os esforços para atrair para a China as indústrias europeias de tecnologia limpa, mediante subsídios que, segundo ela, "distorcem" o mercado.

"Quando o comércio não é justo, nossas reações devem ser mais enérgicas", afirmou, apontando para a China, mas também aos Estados Unidos, onde o presidente Joe Biden pôs em curso um grande plano de investimento climático.

"Nosso objetivo deve ser evitar qualquer perturbação no comércio e nos investimentos transatlânticos", frisou Von der Leyen.

O plano de Biden, chamado Inflation Reduction Act (IRA), prevê subsídios substanciais para as empresas americanas do setor de veículos elétricos e de energias renováveis.

Por sua vez, o vice-primeiro-ministro chinês Liu He pediu o fim do que chamou de "mentalidade da Guerra Fria" e reiterou a rejeição de Pequim ao "unilateralismo e ao protecionismo".

O fórum acontece este ano em um mundo marcado pela guerra da Ucrânia e sob o lema "cooperação em um mundo fragmentado".

Nesse sentido, o novo governo brasileiro, chefiado por Luiz Inácio Lula da Silva, também reivindica o multilateralismo e esteve representado em Davos por dois ministros, que prometeram fortalecer a democracia depois dos ataques de 8 de janeiro em Brasília e equilibrar as contas públicas após a "herança" deixada por Jair Bolsonaro.

"Não é confortável você ter uma oposição extremista" reconheceu o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que participou junto com a ministra de Meio Ambiente, Marina Silva, do painel "Brasil: um novo roteiro".

- Desmatamento na mira -

O ataque de milhares de pessoas às sedes dos Três Poderes em Brasília surpreendeu e comoveu o mundo, e levou o governo Lula a fortalecer a segurança.

"Tivemos capacidade de resposta em poucas horas, isso demostra que as instituições estão fortalecidas", disse Marina Silva.

O ataque foi realizado por simpatizantes de Bolsonaro e terminou com mais de 2.000 detidos.

Na frente econômica, Haddad mencionou as "medidas de dispêndio" do governo Bolsonaro e a "renúncia de receita" - que ele avaliou em 1,5% do PIB - como as principais causas "de um desequilíbrio nas nossas contas, que precisa ser resolvido". O ministro prometeu zerar o déficit em dois anos, o que, segundo ele, seria facilitado por uma reforma tributária.

A América Latina volta a ter protagonismo em Davos com a presença dos presidentes de Colômbia, Equador e Costa Rica, além de representantes do Peru e da República Dominicana, entre outros países da região.

Nesse sentido, Helena Gualinga, uma jovem ativista indígena equatoriana, pediu o fim da exploração de combustíveis fósseis.

Junto das militantes Greta Thunberg (Suécia), Vanessa Nakate (Uganda) e Luisa Neubauer (Alemanha), a equatoriana da comunidade kichwa de Sarayaku, na Amazônia, lançou esta semana um abaixo-assinado reivindicando que as grandes companhias deixem de explorar os combustíveis fósseis.

Em poucos dias, a petição já recebeu mais de 800.000 assinaturas.

"É um chamado para dizer 'Já chega!', porque já fizemos isso muitas vezes, necessitamos de ação urgente", disse, em entrevista à AFP.

O Fórum Econômico Mundial, que acontece desde 1971 e simboliza para muitos os excessos do capitalismo globalizado, mobilizou aviões militares e cerca de 5.000 soldados para a segurança dos cerca de 2.500 participantes, segundo dados do governo suíço.

Mais uma vez, o Greenpeace denunciou a "hipocrisia" das elites mundiais, que vão a Davos para falar sobre o clima em seus jatos particulares. Na edição do ano passado, foram registrados até 500 voos em aviões particulares com partida de, ou chegada a aeroportos próximos à estação de esqui, segundo um estudo encomendado pela entidade à consultoria holandesa CE Delft.

E a ONG Oxfam pediu não apenas a redução do número de bilionários pela metade até 2030, mas até mesmo "aboli-los completamente".

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