Vitória de bolsonaristas no Congresso revela limites da frente ampla para 2022

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Brazil's President Jair Bolsonaro, President of Brazil's Senate Rodrigo Pacheco and President of Brazil's Lower House Arthur Lira attend an opening session of the Year of the Legislative in Brasilia, Brazil February 3, 2021. REUTERS/Adriano Machado
Jair Bolsonaro com os aliados Rodrigo Pacheco e Arthur Lira, novos presidentes do Senado e da Câmara. Adriano Machado/Reuters

A derrota da oposição ao governo nas eleições para o comando do Congresso, nesta semana, expôs o grau de dificuldade para a construção de uma frente de fato ampla contra Jair Bolsonaro até a próxima eleição. Não é por acaso que, ao ser fustigado e chamado de fascista em sua fala no Senado, o presidente tenha marcado a hora, o local e a razão do duelo. “Nos vemos em 22”.

Em conversa com a coluna no dia em que chegou ao fim a força-tarefa da Lava Jato em Curitiba, o professor de Direito Constitucional e de Teoria Geral do Estado da Faculdade de Direito da PUC-SP Luiz Guilherme Arcaro Conci afirmou que um dos legados das operações lideradas a partir de Curitiba (PR) foi a ascensão da extrema direita, catapultada pela demonização da política e a fragmentação partidária.

Essa fragmentação beneficia quem já está em campo e não dá sinais de que perderá a base de 30% dos eleitores mais fiéis. É o suficiente para atravessar o rubicão em direção a 2026.

Uma breve reconstituição histórica ajuda a perceber o fenômeno.

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Em 2010, os três principais candidatos a presidente --Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV) --receberam quase 99% dos votos no primeiro turno. Na ocasião havia um total de nove postulantes, seis deles de partidos nanicos, verdadeiros traços de audiência e pouco competitivos.

Quatro anos depois, a disputa contou com 11 candidatos, mas os três primeiros obtiveram mais de 96% dos votos. Dilma e Marina seguiam disputando os votos da esquerda e centro esquerda, e Aécio Neves (PSDB) era o candidato da direita e centro direita. Havia um equilíbrio naquele tripé que poderia eleger qualquer um deles e quase ninguém fora dali.

Naquele ano a Lava Jato tomou corpo e passou a moldar as disputas eleitorais.

Na corrida presidencial de 2018, o total de votos dos três primeiros colocados --Jair Bolsonaro (PSL), Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT)-- caiu para 88%, o menor na década. Os demais foram pulverizados em outros dez candidatos, entre eles Geraldo Alckmin (PSDB) e Amoêdo (Novo).

Deles, Alckmin era quem tinha a maior aliança. E não decolou.

Aquela disputa mostrou como o eleitor passou a ser disputado por um modelo de conquistas segmentado. Tinha candidatura à esquerda, mais à esquerda, à direita, direita liberal, direita chucra, centro, centro animado, centro insosso. O cardápio se expandiu.

Não só porque novos partidos se formaram ao longo da última década, como o Novo, que se reinvindica uma direita modernizante, e a Rede, uma resposta ao debate ambientalista que perdia terreno no campo da esquerda neodesenvolvimentista.

Mas também porque partidos antes satélites no entorno de PT e PSDB viram a crise de protagonismo em curso e passaram a se posicionar como alternativa viável no tabuleiro. O PSB da família Campos e o PDT dos Gomes são os exemplos à esquerda. O iminente divórcio entre PSDB e DEM, que já tinham a concorrência de partidos como o Novo, Avante, Patriota, Cidadania e até o PSL, sinaliza a fragmentação à direita.

As peças volantes do velho PMDB, acopladas a qualquer governo, à esquerda ou à direita, também têm hoje a concorrência de PSD e PP, partido que se fortaleceu no governo Bolsonaro, seu ex-filiado, apesar de ser o partido com mais investigados na Lava Jato.

Sem partido, mas com a máquina na mão, Bolsonaro produziu na disputa pelo Congresso um campo gravitacional ao seu redor. A consequência foi a decantação forçada das peças que tentam consertar as avarias resultantes da disputa para se reorganizar até 2022.

Hoje quase todos estão mancos.

Rodrigo Maia (DEM-RJ) já não é garantia de equilíbrio e aliança de seu partido atual com o PSDB de João Doria. Deve mudar de partido em breve, sinalizando que democratas e tucanos não estarão na mesma trincheira daqui a dois anos.

Ciro e os petistas não dão sinais de que até 2022 falarão, em algum momento, a mesma língua. O mesmo se pode dizer em relação ao PSB. Nas eleições municipais de 2020, os então principais partidos de esquerda estiveram em barcos diferentes nas disputas em São Paulo e Rio de Janeiro. Ficaram de fora até mesmo do segundo turno.

A fragmentação tem fomentado impasses peculiares. Ex-partido de Bolsonaro, o PSL entrou na fase de testes para medir a musculatura para receber os deputados da base do governo hoje descontentes para se posicionar como um reduto de oposição ao governo que ajudou a eleger.

Tantas alternativas equivalem a alternativa alguma frente a um adversário que se fortalece sem precisar ampliar o leque de eleitores.

Para reunir opositores e arrependidos, uma ainda virtual frente ampla terá de quebrar uma tendência já apontada em 2018 e que pode se acentuar em 2022: a dispersão dos votos resultante da fragmentação partidária.

Neste ritmo, quem esperava uma reedição do embate entre Joe Biden e Donald Trump, só possível em um país de sistema bipartidário, pode esperar sentado até 2026.

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