Disputa por eleitor de esquerda se acirra em Salvador, e PT, PC do B e PSOL sobem o tom

JOÃO PEDRO PITOMBO
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SALVADOR, BA (FOLHAPRESS) - Na eleição com o maior nível de fragmentação entre os partidos de esquerda em Salvador desde a redemocratização, os candidatos de PT, PC do B e PSOL subiram o tom na reta final da campanha e travam entre si uma batalha pela parcela do eleitorado de perfil mais progressista. As candidatas Major Denice (PT) e Olívia Santana (PC do B) têm estratégias distintas, mas um objetivo em comum: ampliar os índices de intenção de voto nas próximas duas semanas e tentar forçar um segundo turno contra Bruno Reis (DEM), candidato apoiado pelo prefeito ACM Neto (DEM). Para se contrapor à candidata do PT, a deputada estadual Olívia Santana (PC do B) tem destacado a sua experiência e sua trajetória no campo da esquerda. Na última semana, sua campanha divulgou uma peça de propaganda que afirma que a candidata do PC do B "não é uma candidata fabricada na véspera de um ano eleitoral" e que "trilhou todo o seu caminho com as próprias pernas". A peça publicitária mira a candidata Major Denice, que não tem trajetória na política e se filiou ao PT neste ano para disputar a eleição com as bênçãos do governador Rui Costa (PT). O mesmo argumento tem sido repetido em entrevistas: "Eu não sou uma candidata que chegou agora na política. Eu não me filiei ao PC do B para ser candidata. Eu tenho uma história política acumulada", disse Olívia em sabatina à Folha e ao UOL. Major Denice (PT), que vinha adotando um perfil mais suave em sua campanha, passou a fazer críticas mais incisivas. Mas ao invés de focar nos possíveis adversários da esquerda, mira no prefeito ACM Neto e no seu candidato Bruno Reis. Para isso, sua campanha passou a focar até em temas mais comumente associados à candidatos de direita. A candidata fez críticas aos reajustes do IPTU e a uma suposta "indústria da multa" que atingiria aos motoristas que cometem infrações de trânsito. A candidata petista também tem buscado ancorar-se na popularidade do governador Rui Costa e do ex-presidente Lula. O governador entrou na campanha de cabeça: está quase diariamente no horário eleitoral e participa de atos e carreatas ao lado da candidata. De acordo com pesquisa Ibope realizada no início de outubro, Major Denice e Olívia Santana estão empatadas em terceiro lugar com 6% das intenções de voto. Bruno Reis lidera com 42%, e Pastor Sargento Isidório (Avante) tem 10%. Outra candidato do campo da esquerda, o deputado estadual Hilton Coelho (PSOL), tem adotado uma estratégia criticar, sem distinções, o prefeito ACM Neto e o governador Rui Costa. No debate realizado no último sábado (24) na emissora TVE Bahia, ele chegou a ser comparado por Olívia Santana a uma metralhadora giratória. Nos embates com Bruno Reis, Hilton associou o candidato governista ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, preso em 2017, e até ao senador Chico Rodrigues (DEM-RR), flagrado em uma operação da Polícia Federal com dinheiro na cueca. Quando debateu com candidatos da esquerda, não abaixou as armas: criticou o governador Rui Costa pela reformada da Previdência estadual e por obras como o monotrilho que irá substituir do trem do Subúrbio Ferroviário de Salvador. Enquanto os candidatos da esquerda mergulham em na disputa por uma fatia do eleitorado, o candidato Bruno Reis consolida-se na liderança sem maiores percalços. Entre líderes do DEM, a avaliação interna é que Bruno Reis caminha para ter entre 45% e 55% dos votos válidos em 15 de novembro e precisa apenas não cometer erros durante a campanha para vencer a eleição, seja no primeiro ou segundo turno. Para se concretizar, contudo, este cenário depende da força de dois atores externos: o governador Rui Costa (PT) e o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). O governador petista tenta, até o momento sem muito sucesso, transformar a sua alta popularidade em votos para Major Denice. O presidente, que tem em Salvador a sua maior taxa de rejeição entre as capitais, com 62% de ruim ou péssimo, não deve declarar apoio público a nenhum candidato na eleição da capital baiana. Ainda assim, há potencial para crescimento do único candidato à prefeitura de Salvador abertamente bolsonarista, o vereador Cezar Leite (PRTB). Ele marcou apenas 3% na última pesquisa Ibope, mas ainda pode conquistar uma fatia maior do eleitorado, já que chega a 18% o percentual de eleitores que consideram boa ou ótima a gestão do presidente. Seu principal obstáculo, contudo, é o próprio partido. Sem votos mínimos na eleição de 2018 para atingir a cláusula de barreira, o PRTB não tem direito a tempo de propaganda na televisão. Já o candidato Pastor Sargento Isidório (Avante), que é do campo conservador, mas é aliado ao governador Rui Costa, desidratou nas últimas pesquisas. Deputado federal mais votado da Bahia e de Salvador em 2018, ele veio para sua segunda eleição para a prefeitura de Salvador com um novo figurino. Com mais estrutura e apoio do PSD dos senadores Otto Alencar e Angelo Coronel, deixando para trás o seu perfil folclórico. A mudança, contudo, não se traduziu em um maior patamar de intenção de votos. Também disputam a prefeitura de Salvador os candidatos Bacelar (Podemos), Celsinho Cotrim (Pros) e Rodrigo Pereira (PCO).