Dissidentes do Tigré lançam foguetes contra região vizinha na Etiópia

Robbie COREY-BOULET
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Milicianos da Al Amura lutam ao lado do exército etíope contra as forças de segurança de Tigré (norte), na cidade etíope de Gondar, em 8 de novembro de 2020
Milicianos da Al Amura lutam ao lado do exército etíope contra as forças de segurança de Tigré (norte), na cidade etíope de Gondar, em 8 de novembro de 2020

As forças da região etíope dissidente do Tigré, que enfrentam o Exército federal, voltaram a lançar foguetes contra a região vizinha de Amhara, enquanto o governo central afirma que suas tropas se aproximam de Mekele, capital do Tigré.

Segundo informou o oficial de comunicação de Amhara, Gizachew Muluneh, à AFP nesta sexta-feira, três foguetes foram lançados do Tigre em direção à cidade de Bahir Dar, mas sem atingir nenhum objetivo.

A agência Amhara Mass Media atribuiu o tiroteio ao "conselho ilegal da TPLF", a Frente Popular de Libertação do Tigré, que comanda esta região norte e que há vários meses desafia a autoridade do governo federal.

Antigas disputas territoriais impuseram-se aos habitantes de Amhara e Tigré, e as tensões entre as duas comunidades às vezes degeneraram em violência. Agora, os combatentes Amhara juntaram-se ao exército federal no conflito do Tigré.

As autoridades do Tigré disseram em um comunicado que a aviação da "gangue fascista" do primeiro-ministro etíope Abiy Ahmed havia bombardeado Mekele na quinta-feira, ferindo "estudantes universitários".

Abiy Ahmed, primeiro-ministro desde 2018 e 2019 ganhador do Prêmio Nobel da Paz, lançou uma operação militar em Tigré em 4 de novembro contra a TPLF, a qual acusa de tentar desestabilizar o governo federal e de atacar duas bases militares etíopes na região, o que os dissidentes negam.

O governo etíope afirma que os bombardeios evitam causar vítimas civis.

Não existe um balanço preciso da ofensiva militar, e as reivindicações de um ou de outro beligerante não podem ser verificadas de forma independente, já que a região está virtualmente isolada do mundo.

- Crianças isoladas -

As autoridades do Tigré reconheceram ter lançado foguetes esta semana contra Asmara, capital da vizinha Eritreia, que faz fronteira com a fronteira norte do Tigre, acusando as autoridades da Eritreia de conluio com o exército etíope.

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres, pediu nesta sexta-feira "a abertura de corredores humanitários" para ajudar a população presa pelos combates na região etíope de Tigré, lamentando que as autoridades rejeitem qualquer tipo de mediação.

"Estamos muito preocupados com a situação na Etiópia" e com "o dramático impacto humanitário" que causa, inclusive no Sudão, disse Guterres à mídia em Nova York.

No âmbito regional, a União Africana (UA) nomeou três ex-presidentes como enviados especiais para tentar mediar entre as partes em conflito, anunciou o chefe de estado sul-africano Cyril Ramaphosa nesta sexta-feira.

Ramaphosa anunciou em nota a nomeação de Joaquim Chissano, de Moçambique, Ellen Johnson-Sirleaf, da Libéria, e Kgalema Motlanthe, da África do Sul.

Os três nomeados viajarão para a Etiópia para "criar as condições para um diálogo nacional aberto para resolver as questões que deram origem ao conflito", acrescentou, sem especificar um calendário.

O Unicef indicou nesta sexta-feira que o conflito na região do Tigré deixou 2,3 milhões de crianças necessitadas de ajuda emergencial em situação precária e outras milhares se refugiaram em campos no Sudão. Centenas de pessoas morreram e, segundo as autoridades sudanesas, 36.000 cruzaram a fronteira com o Sudão.

"O apagão nas comunicações e as restrições de movimento na região do Tigré estão impedindo o acesso a cerca de 2,3 milhões de crianças que precisam de ajuda humanitária", disse a diretora-executiva do Unicef, Henrietta Fore, em um comunicado sexta-feira.

A agência das Nações Unidas estima que cerca de "12.000 crianças, algumas sem pais ou família, estão em campos de refugiados e centros de registro e correm risco".

Muitos dos campos improvisados montados no Sudão estão superlotados e os refugiados vivem em condições insalubres, com acesso limitado a água e alimentos.

A ONU informou nesta sexta-feira que cerca de 200 milhões de dólares são necessários para atender às necessidades de milhares de etíopes que se refugiam no Sudão.

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