Fortes distúrbios em Paris no primeiro aniversário dos 'coletes amarelos'

Por María Elena BUCHELI
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Grupo de encapuzados vira um carro perto da place d'Italie durante manifestação dos "coletes amarelos" em Paris, 16 de novembro de 2019

Enfraquecido, mas ainda vivo, o movimento popular dos "coletes amarelos" franceses, que surgiu há exatamente um ano, mobilizou neste sábado (16) milhares de pessoas no país, sobretudo em Paris, onde foram registrados atos violentos e mais de cem detenções.

As manifestações reuniram 28 mil pessoas em toda a França, 4.700 delas na capital, segundo o ministério do Interior. A participação similar mais recente foi registrada em 9 de março, com 28.600 manifestantes em todo o país. Organizadores do movimento, por sua vez, deu uma estimativa global de 39.530 participantes neste sábado.

Um ano depois do início desta mobilização sem precedentes, a Place d'Italie, no sul de Paris, foi palco de atos violentos, com carros e latas de lixo incendiados e monumentos e mobiliário urbano destruídos, constataram jornalistas da AFP.

- Sem causa -

A tropa de choque da Polícia respondeu com bombas de gás lacrimogênio e jatos d'água para dispersar a multidão.

A Polícia proibiu uma manifestação que devia sair do local às 14h locais (10h de Brasília). Para o prefeito de Paris, Didieer Lallement, estavam na praça "indivíduos que não defendiam uma causa, mas procediam a destruições" e a "ataques sistemáticos contra as forças de segurança e contra os bombeiros".

Ao fim da tarde, também ocorreram distúrbios no bairro de Les Halles, um dos pontos centrais da capital francesa, com muitas lojas, bares e restaurantes.

À noite, a Polícia anunciou um total de 147 detenções e, segundo a promotoria de Paris, 129 pessoas foram postas em prisão provisória.

Desde a primeira hora da manhã, centenas de manifestantes se concentraram em diferentes pontos da cidade.

"Não vamos recuar! Continuamos aqui, embora [o presidente Emmanuel] Macron não queira, continuamos aqui!", repetiam, em coro, os manifestantes, em tom de desafio, na Place d'Italie.

"Continuamos mobilizados porque queremos um futuro melhor para nós e nossos filhos, a situação na França está cada vez pior", disse à AFP Rémi, um funcionário público de 39 anos, que não quis revelar o sobrenome.

"Eu ganho um pouco mais que o salário mínimo e tenho dois filhos. O dinheiro não chega até o fim do mês", acrescentou este homem que viajou da região da Borgonha, a 250 km de Paris, para o primeiro aniversário dos protestos.

Em 17 de novembro de 2018, mais de 300 mil pessoas, a maioria vestindo coletes amarelos fluorescentes, foram às ruas da França para protestar contra um imposto sobre o combustível.

Em pouco tempo, este movimento sem líderes, nem estrutura, organizado graças ao Facebook, pôs em xeque o governo Macron, revelando um profundo descontentamento nas classes mais modestas pela perda de poder aquisitivo, a elevação de impostos e as desigualdades sociais.

- "Não pensamos parar" -

No primeiro aniversário do movimento, os "coletes amarelos" tentaram dar um novo impulso à mobilização porque para muitos as causas que levaram ao início dos protestos não desapareceram.

"Estamos há um ano nas ruas e não pensamos parar. Estamos dispostos a continuar protestando até que Macron nos ouça", disse Sylvestre, um "colete amarelo" na casa dos 50 anos.

"As pessoas têm medo devido à repressão que houve em manifestações passadas. Eu mesmo proibi meus dois filhos de ir protestar hoje por medo de que percam um olho", acrescentou.

No último ano e, segundo um balanço dos manifestantes, 23 pessoas perderam um dos olhos após sofrer o impacto de projéteis de borracha e outras cinco tiveram amputada uma das mãos na explosão de bombas de gás lacrimogênio.

As autoridades francesas proibiram manifestações na Avenida Champs Elysées, cenário de distúrbios violentos no auge das manifestações, há um ano.

Em Paris, os comerciantes protegeram desde cedo suas vitrines e mercadorias por medo de incidentes violentos. O transporte público foi afetado pelas manifestações e os bombeiros tiveram que intervir em vários pontos da capital.

Outras cidades importantes da França também foram cenário de atos violentos.

As forças de segurança atiraram bombas de gás lacrimogênio em Lyon (centro-este), onde mil manifestantes se reuniram no centro da cidade. Em Nantes (oeste), houve confrontos entre a Polícia e cerca de mil manifestantes, e em Bordeaux (sudoeste), 1.800 pessoas se mobilizaram.

No auge da crise, em dezembro de 2018, Macron, que suspendeu o imposto sobre o combustível que provocou o protesto, declarou que entendia "a ira" das ruas e se disse disposto a "transformar o país".

"Macron, nosso primeiro aniversário é o seu último", clamavam os manifestantes neste sábado.