Ditadura, mulheres, população LGBQTIA+, trabalho escravo: entenda as polêmicas na Copa do Catar

Apesar de Joseph Blatter, ex-presidente da Fifa e mandatário durante a decisão do país-sede da Copa de 2022, afirmar que a escolha do Catar como palco do Mundial era "um erro", o maior evento de futebol do país ocorrerá, em três dias, na pequena península do golfo pérsico. Desde o anúncio, muitas polêmicas têm sido levantadas, em especial sobre os direitos humanos: a exploração do trabalho dos imigrantes na construção das obras de infraestrutura e de estádios no país, a posição das mulheres — inferior a dos homens — e o fato de a homossexualidade ser considerada um pecado passível de pena de morte.

Independente da Inglaterra por apenas 51 anos — antes, era um protetorado britânico —, o novo regime adotado foi a da monarquia absolutista, com o poder do emir, principal líder, sendo passado através de dinastias, e sem precisar respeitar os limites constitucionais. Liimites estes que são estabelecidos pela dinastia da Casa Thani, que comanda o emirado desde 1825, e obedece as leis da sharia, a lei religiosa islâmica que dita os princípios econômicos, socioculturais e até de política externa. Os partidos políticos são proibidos e não há eleições parlamentares desde 1970, o que pode-se caracterizar como uma ditadura monarquista.

Algumas das leis estabelecem critérios que excluem boa parte dos turistas que visitarão o país durante o Mundial: o consumo de bebidas alcoólicas é proibido, as vestimentas devem ser modestas, sem mostrar boa parte do corpo, a prática homossexual é condenada, assim como o adultério. As penas para essas práticas vão desde o açoitamento ou apedrejamento até a punição fatal. A Fifa já garantiu, por meio de comunicados oficiais, que nos estádios e nas áreas destinadas a turistas, valerão as regras que respeitam os direitos humanos, e que todos são bem-vindos, mas ressaltou a necessidade de respeitar a cultura local.

Trabalho escravo

Em meio a tudo isso, novas denúncias surgiram. A principal delas é a de trabalho análogo à escravidão, com imigrantes do sudeste asiático vivendo em péssimas condições e recebendo um valor insuficiente para a sobrevivência — quando não pagavam para trabalhar. A população do país, que flutua em cerca de 3 milhões de habitantes dependendo da época do ano, é composta por cerca de 300 mil cataris, como são chamados os nativos, e imigrantes. Assim, o PIB per capita do país, que possui reservas petroquímicas riquíssimas, é o quarto maior do mundo, embora suas riquezas sejam concentradas nas mãos dos sheiks.

Em fevereiro de 2021, uma reportagem do jornal inglês The Guardian revelou que, desde 2010, quando o Catar foi anunciado como a sede da Copa de 2022, mais de 6.500 trabalhadores imigrantes do sudeste asiático morreram no país, 37 deles em obras para construção de estádios. Apenas três foram confirmadas pelo Catar, que afirmou que as outras mortes aconteceram em ocasiões "não relacionadas ao trabalho".

O Observatório dos Direitos Humanos (HRW, na sigla em inglês) afirma que outras irregularidades foram cometidas nas obras de infraestrutura, como o não pagamento de salários e a alta taxa cobrada para os imigrantes terem o direito de exercer sua profissão, em uma situação em que acabavam pagando para trabalhar.

Em maio, a Anistia Internacional escreveu uma carta endereçada a Gianni Infantino, presidente da Fifa, pedindo que a organização doasse os 440 milhões de dólares da premiação para financiar compensações aos trabalhadores do evento, como indenizações e a criação de um centro de apoio para os profissionais. Em resposta, Infantino afirmou que a competição gera empregos, e “quando você dá um emprego para alguém, mesmo em condições difíceis, você está dando dignidade e orgulho para aquela pessoa”.