Do divã às videochamadas: com atendimento essencialmente online, psicanalistas reveem dogmas freudianos na pandemia

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RIO — Nas primeiras semanas da pandemia, ainda em março de 2020, a psicanalista Lívia Camello precisou improvisar em casa um consultório para atender os pacientes à distância. Ela apoiava o celular numa pilha de livros, enquanto esperava o rápido retorno a uma sala com divã.

— Mas quando percebi que a crise sanitária duraria mais do que alguns meses, precisei providenciar um consultório em casa. Uma poltrona, tripé, internet potente e um local com conforto e, principalmente, privacidade, compõem hoje meu consultório em casa — conta Camello.

Os pacientes, por sua vez, também forjaram o que se usa chamar de “setting analítico”: o espaço onde se desenrola o processo de análise. Há os que conseguiram criar em casa um ambiente dedicado para isso, mas não sem as interferências da vida cotidiana.

— Já aconteceram algumas situações inusitadas, desde acabar a luz na casa do paciente, o gato pular na frente do telefone ou eu perceber o uso de drogas durante uma sessão, até situações mais graves, envolvendo violência doméstica — lembra a psicanalista, que não entra em detalhes sobre os casos em respeito ao sigilo que envolve a relação com o paciente.

A psicanalista avalia que o formato do atendimento online “abriu muitas possibilidades, e as pessoas pararam de associar o profissional à sua localização geográfica”. Num ano que tanto demandou da saúde mental dos brasileiros, ela lembra, a procura por atendimento psicológico aumentou e, se, antes da pandemia, os pacientes tratados à distância eram exceção — os que viajavam ou mudavam de cidade e queriam seguir em análise com o mesmo profissional, por exemplo —, agora atendimentos on-line são a regra.

Segundo o Conselho Federal de Psicologia (CFP), o número de profissionais cadastrados para atender de forma digital mais que triplicou com a pandemia. Entre novembro de 2018 (quando o conselho regulamentou o atendimento on-line) até fevereiro de 2020, 30.677 psicólogos fizeram cadastro para tratar pacientes à distância.

Já entre março e dezembro de 2020, foram mais de 100 mil novos profissionais cadastrados na plataforma e-Psi, exigência do CFP para que o tratamento à distância seja realizado. Como psicanalistas não precisam de formação em Psicologia e, logo, não respondem ao CFP, estima-se que o número de profissionais de saúde mental trabalhando on-line seja ainda maior.

A função da tela

Doutora em psicanálise, formada em meados dos anos 1970, Angela Coutinho conta que, na pandemia, sua visão do atendimento clínico “mudou completamente” — e conceitos “sagrados” da psicanálise precisaram ser revistos.

— Toda a situação analítica foi posta em xeque. O que era, digamos, falsamente necessário passou a não ser. Por exemplo, a ideia de que a análise se dá só quando o analisando deita no divã. Será que é isso mesmo ou só repetimos isso porque era uma tradição desde Freud? Será que de fato o divã é condição para a análise? — questiona a psicanalista. — Na minha experiência online, tem pessoas que deitam e não me olham. Outras preferem desligar a câmera. Essas possibilidades são muito ricas para o processo. Se você escolhe não aparecer, isso revela muito sobre sua dinâmica.

Para Coutinho, a tela do computador ou do celular exerce “função fundamental no dispositivo analítico”.

— Essa tela nos afasta, mostra que estamos separados, mas também nos aproxima de uma maneira inusitada. O encontro existe, e não se pode dizer que não é presencial. Tem presença tão forte que é como se fosse um atendimento domiciliar. A tela também funciona como proteção, e isso possibilita ao analisando mergulhar mais nos seus fantasmas, porque, de alguma forma, ele se sente protegido. A intimidade do encontro e, ao mesmo tempo, a manutenção de uma certa distância abrem um caminho de possibilidades — diz a psicanalista. — Sinto que entrei na casa do paciente e que tive acesso a elementos que poderia levar anos para descobrir, ou que talvez nunca viesse a conhecer no consultório.

Ela afirma que, “se ainda não é possível medir o alcance teórico das mudanças da psicanálise na pandemia, já se pode perceber pelo atendimento remoto que muitos dogmas da psicanálise caíram por terra, desde a tradição do divã até a neutralidade do analista”. Os pacientes, lembra Coutinho, passaram a conhecer as casas, as estantes de livros e os sons ao redor do psicanalista. Ela própria deixou a capital fluminense e migrou para a região serrana:

— O paciente pergunta: está frio aí? Ele me vê de casaco e cachecol e pergunta sobre o tempo. Há certa naturalidade que alguns analistas poderiam achar imprópria antes da pandemia, mas isso mudou. Precisamos tirar proveito da nova realidade.

Mestre e doutor em filosofia e psicanálise, Rodrigo Ventura lembra que o pensamento de Freud surgiu no início do século 20 como “forma de transgredir o saber médico da época” e que, ao longo do tempo, “foram criadas ortodoxias, fundamentalismos teóricos”.

— Psicanalistas heterodoxos experimentaram alargar as fronteiras da clínica e da teoria, mas a grande maioria ainda era muito apegada à tradição, não se permitia ou não aceitava atender à distância e muito menos começar um atendimento à distância. A pandemia derrubou esse dogma. É fundamental para a psicanálise poder chegar a lugares que nunca chegou — diz Ventura.

Novas experimentações

A tecnologia, ressalta, também pode ajudar a psicanálise a sair de uma “bolha elitista”:

— A maioria dos psicanalistas ficam encastelados em seus consultórios, mas o atendimento online abre uma brecha para a psicanálise deixar esse encastelamento. Afrouxa dogmas, amplia a capilaridade e a penetração em camadas mais populares.

Ventura diz ainda que, “por mais que algumas limitações sejam evidentes, como a ausência do corpo físico, percebe-se que a presença também se dá à distância”.

— A vida privada acaba aparecendo. São situações inusitadas que não aconteciam antes e que enriquecem o processo psicanalítico. Os que eram amarrados a dogmas tiveram que dar o braço a torcer, pois funciona. E ainda bem. Não fosse isso, a saúde mental de muitas pessoas estaria em risco — afirma Ventura, que segue. — Ou a psicanálise se abre para experimentar novas formas de acolhimento do sofrimento humano, ou ficará datada, como um capítulo da história das terapêuticas.

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