As divergências políticas da América Latina se instalam nas redes e interferem nos laços pessonales

Por María Paz SALAS, Luján SCARPINELLI
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Um jovem faz uma selfie enquanto um manifestante se prepra para para lançar uma pedra com um estilingue num protesto em Santiago, em 6 de novembro de 2019

Farto do barulho, Fernando reclamou no grupo do WhatsApp do qual participa com seus vizinhos no bairro de Las Condes, em Santiago: "Alguém está batendo na panela há muito tempo", escreveu em referência à forma de protesto que há quase dois meses é a "trilha sonora" para a crise social no Chile.

Sua vizinha, Catalina, gritou do outro lado do muro que separa suas casas. "Sim, sou eu", respondeu, e acabou sendo excluída da comunidade virtual.

Este tipo de cena não é exclusiva do Chile. A polarização política em diferentes países da América Latina contaminou as relações sociais.

Na Argentina, Brasil, Bolívia ou Colômbia, se instala no almoço da família, nos grupos de amigos e no ambiente de trabalho, e se radicaliza na arena das redes sociais.

"Todos ficamos de algum lado da discussão", diz Natalia Aruguete, pesquisadora do organismo científico argentino Conicet.

A divergência viraliza com memes, gifs e stickers que podem ser interpretados como uma piada ou insulto, dependendo do receptor.

Para Aruguete, a polarização gerada pelas políticas sociais estava instalada, mas "os protestos levaram os habitantes a uma consciência desses processos, gerando uma maior consolidação da identidade, não apenas política, mas também religiosa e étnica ", explica.

- Branco ou Preto -

Na Colômbia, o descontentamento contra o governo de Iván Duque explodiu no final de novembro. Nas redes sociais, o país se dividiu entre aqueles que apoiaram ou não as manifestações. Essa divisão fez Yurany Arciniegas, 35, lembrar da atmosfera vivida durante o processo de paz de 2016.

"Quando a divisão era entre o Sim ou Não, muitas famílias brigavam. Agora isso é visto nos protestos: vi amigos bloqueando outros amigos nas redes sociais", comenta.

Nos aplicativos de troca de mensagens ou nas redes sociais, o fogo cruzado de ironias é constante. Uma imagem mostra o presidente Jair Bolsonaro preso numa camisa de força. Outra compara os simpatizantes do PT com um grupo de burros. O boliviano Evo Morales aparece disfarçado de Darth Vader ou a argentina Cristina Kirchner vestida como Malévola.

- Isolados em bolhas -

Ciro Moraes, de 29 anos, nasceu na Bahia e e vive em São Paulo, onde trabalha numa fundação. Se define como "antibolsonaro", ao falar sobre política nacional.

Para evitar discussões, ele adotou uma medida preventiva: "Minha estratégia foi criar uma lista no Facebook e tudo o que eu compartilho é bloqueado para quem discorda de mim". Isso permite que você 'observe' o resto e também que se 'proteja' daqueles que não compartilham as mesmas ideias", afirma.

Com mensagens radicais, contatos eliminados e baixa tolerância, as redes auxiliam na formação de bolhas que, segundo Aruguete, alimentam a divisão de duas formas: "Por um lado, há uma reação subjetiva, de se identificar com os membros de uma bolha, e um menor alcance da mensagem que circula do outro lado da divergência; por outro lado, existe uma lógica algorítmica e orgânica das redes sociais para levar nossas mensagens para mais pessoas, e essa lógica aprofunda as diferenças e consolida a polarização".