O amor do PSL e Bolsonaro durou 18 meses e muitos "contos de réis"

Jair Bolsonaro e Luciano Bivar, presidente do PSL (Reprodução/Facebook)


No dia 6 de janeiro de 2018, o presidente do PEN-Patriota comunicou que estava aliviado. Após meses de namoro, o então deputado Jair Bolsonaro acabava de desistir de concorrer à Presidência pela legenda.

“Fiz das tripas coração para tê-lo com a gente, mudei o nome do partido, mexi no nosso estatuto, dei mais de 20 diretórios para o grupo dele. Mas você não pode ser convidado para entrar em uma casa e depois querer tomar ela inteira para você, expulsando seus moradores originais”, afirmou Adilson Barroso.

O dirigente atribuía o “envenenamento” de sua relação com o capitão ao então pouco conhecido Gustavo Bebianno.

O resto é história.

Após passagens por sete partidos, entre eles o insuspeito Partido Progressista de Paulo Maluf, Bolsonaro disputou (e ganhou) a campanha pelo PSL, sigla nanica presidida por Luciano Bivar, ex-dirigente do Sport-PE que, entre outras condições, emprestou o comando da sigla, durante a campanha, a Bebianno.

Quem concorreu à Presidência pelo Patriota foi o Cabo Daciolo. Teve 1,26% dos votos no primeiro turno.

Bebianno, como combinado, deixou o comando da legenda após a campanha, foi nomeado secretário-geral da Presidência e foi exonerado logo depois, quando as primeiras suspeitas de uso de candidatos-laranja pelo PSL vieram à tona.

Bolsonarista arrependido, o ex-ministro diz agora que o presidente parece fazer questão de ficar cada vez mais sozinho.

Na esteira da vitória eleitoral de Bolsonaro, o PSL tomou forma e elegeu uma bancada de 53 deputados, além de três governadores e três senadores.

Para Bivar, até então um insignificante líder de partido nanico, foi como ganhar na Mega Sena.

Naquele ano, a sigla recebeu cerca de R$ 9 milhões do fundo partidário.

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Com o desempenho eleitoral daquele ano, a receita saltou para algo em torno de R$ 110 milhões - e, se o fundo for ampliado, pode se multiplicar ao longo das campanhas dos próximos anos. Apesar do dinheiro, o PSL nunca deixou de ser um partido nanico - da mesma forma como Bolsonaro jamais deixou de pensar como baixo clero. Como a personagem Marcela e o protagonista das “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, o amor durou alguns meses (18, no total) e uns bons contos de réis.

A briga pelo fundo público está no cerne das cotoveladas entre dirigentes do partido e o clã Bolsonaro, instalado nos diretórios mais ricos, no Rio e em São Paulo.

Uma das primeiras baixas do partido após a eleição foi o deputado Alexandre Frota, apoiador de primeira hora do presidente que agora ataca diariamente. Após os primeiros atritos, ele se filiou ao PSDB.

Nas últimas semanas, cresceram os rumores de que o casamento por conveniência entre Bolsonaro e o PSL estava por um fio. Tudo se agravou quando a Polícia Federal passou a suspeitar que o uso de candidatas-laranja em Minas Gerais, comandado pelo atual ministro do Turismo Marcelo Álvaro Antônio, abasteceram também o caixa da campanha nacional. Diante da revelação, Bolsonaro decidiu atacar o mensageiro (no caso, o jornal que publicou a notícia) e bancou a manutenção de seu ministro.

Mas os rumores contornos reais quando, na terça-feira, em uma conversa gravada pelas câmeras, o próprio presidente pediu para um apoiador “esquecer o PSL” e disse que o Bivar estava “queimado pra caramba”.

O apoiador, que é pré-candidato em Pernambuco, dizia no vídeo que estava com Bolsonaro e Bivar “juntos por um novo Recife”.

“Ah, cara, não divulga isso não, pô”, pediu Bolsonaro, expondo de vez a tensão.

Nem parece que falava do mesmo dirigente que, após a eleição, escreveu no site da legenda que Bolsonaro era considerado o “patinho feio do Congresso” por preservar “a alma íntegra” e dizer o que pensa. “O capitão representa o que há de mais verdadeiro e contundente contra o status quo, contra o politicamente correto”, escreveu.

No mesmo artigo, Bivar ironizava, colocando entre aspas, a “grande conquista” dos “novos” tempos (sic) representados pela Constituição de 1988. Defendia que era hora de “passar uma borracha no passado” e lamentava que, após a redemocratização, “escolas, universidades, imprensa e classe artística passaram a tocar uma nota só, transformando o país em um lugar avesso ao debate, onde se cultiva o inverso de qualquer sociedade civilizada”. “Perdemos o senso de autoridade, de justiça, de trabalho, de limites, de ordem e progresso. Hoje, sofremos com a relativização dos valores sociais, morais e éticos”, cravou o dirigente “queimado” pelo capitão.

A dúvida, agora, é para onde vão PSL e Bolsonaro a partir de agora. Adilson Barroso, o dirigente do Patriota que há um ano e meio estava “aliviado” com o fim do namoro com Bolsonaro, anunciou que o partido agora está de portas abertas ao capitão.

Se ocorrer a migração, ou mesmo a criação de um novo partido, como ficará a segunda maior bancada da Câmara?

Seguirá o líder ou ficará com o dinheiro?

O líder do PSL na Casa, Delegado Waldir (GO), já mostrou a disposição de cair atirando. “Como você fala do quintal alheio se o seu quintal está sujo? As candidaturas em Minas Gerais e Pernambuco estão sendo investigadas. Mas o filho do presidente também”, reagiu.

Em entrevista à Folha, ele resumiu o dilema dos colegas eleitos pela onda bolsonarista: “Não tem janela partidária, novas eleições vão vir. Vão disputar sem dinheiro? Vão deixar o partido que tem o maior fundo eleitoral? Bolsonaro pode não precisar, mas e eles? Esse negócio não vai durar quatro anos”.

O casamento do ano em 2018 tem tudo para ser o grande divórcio da nova temporada. House of Cards virou gibi.