O que explica divórcio entre os 'gêmeos' Bolsonaro e Witzel no Rio?

Jair Bolsonaro e o governador Wilson Witzel durante cerimônia de entrega da Medalha do Mérito Industrial do Estado do Rio de Janeiro (Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)


Alexandre Frota, João Doria, Carlos Alberto Santa Cruz, Gustavo Bebbiano, Lobão, MBL.

É extensa a lista de divórcios assinados pelo bolsonarismo-raiz e antigos apoiadores em quase nove meses de governo.

De todos, poucos parecem fazer menos sentido ao eleitor que votou e é fã de ambos do que a disputa entre o clã Bolsonaro e o governador Wilson Witzel (PSC).

Em 2018, o ex-juiz federal foi um dos maiores beneficiários da onda bolsonarista, na qual soube surfar para derrotar Eduardo Paes (DEM) no segundo turno da disputa pelo governo do Rio.

Em seu mandato, converteu-se numa espécie de cosplay marombado do capitão. A começar pela defesa de uma política de tolerância zero com a criminalidade. Como se competisse em decibéis, ele resumiu sua política de segurança como uma frase: “a polícia vai mirar a cabecinha e...fogo”.

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Desde então, Witzel já desfilou com a faixa de governador em cima de um tanque de guerra, já vibrou com a morte do sequestrador de um ônibus abatido por um sniper, já chamou um crítico de maconheiro e vira e mexe aparece fazendo flexões em eventos com militares – nessa, aliás, deixa o protótipo original no chinelo, com quem compete para mostrar que tem menos pena de “bandido morto”.

O problema é justamente esse: o figurino não comporta dois personagens.

Na quarta-feira, dia 18, o senador Flávio Bolsonaro, presidente do diretório fluminense do PSL, determinou que os filiados do partido desembarcassem do governo Witzel ou pedissem desfiliação da legenda. Não é pouca gente. Segundo um levantamento do RJ1, ao menos 135 pessoas foram indicadas pelo PSL para cargos comissionados no governo estadual.

O casamento, que tinha tudo para ser duradouro, esbarra nas pretensões eleitorais do ano que vem.

De acordo com o jornal O Globo, o rompimento é movido pela disputa do apoio de prefeitos de cidades-chaves do estado, reduto dos Bolsonaro. A ideia, no PSL, é fazer um mutirão de filiações de políticos com chance de reeleição e costurar alianças com vistas para a disputa de 2022 – sim, a corrida teve início com oito meses de gestão, como as cotoveladas trocadas entre Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria, já demonstravam.

Ainda segundo O Globo, o ex-juiz saiu na frente da disputa e já convenceu sete prefeitos a migrarem para o PSC. Para isso conta com a lábia do Pastor Everaldo, presidente nacional da legenda. O PSL, por sua vez, não comanda nenhuma prefeitura no estado.

Ao forçar o divórcio, Bolsonaro pode largar desfalcado na eleição. Boa parte dos filiados do PSL reluta em abandonar o governo Witzel, que já acena dizendo que eles serão bem-vindos no Partido Social Cristão, legenda à qual, vale lembrar, Bolsonaro era filiado até 2017. Flávio Bolsonaro, por exemplo, concorreu à Prefeitura do Rio, em 2016, pelo PSC. Teve 14% dos votos.

O racha reforça o isolamento dos Bolsonaro no momento em que a família começa a se distanciar também dos grupos apoiadores da Lava Jato, tendência que pode se agravar com uma eventual saída de Sergio Moro (Justiça) do governo. Mas isso não parece ser um incômodo para o presidente.

Como escreveu recentemente o sociólogo Demétrio Magnoli, o Brasil tem muitos candidatos a Putin, numa referência ao presidente centralizador e autocrata da Rússia. Mas só há lugar para um, e isso explica a guerra em curso contra tantos aliados e ex-aliados. Witzel acaba de entrar no alvo.