Djamila Ribeiro ferveu Belo Horizonte

Foto: Luciano Viana/SESC (instagram: @eulucianoviana)

Djamila Ribeiro parou São Paulo, parou a Lapa, no Rio de Janeiro, e, nessa semana, parou Belo Horizonte. De manhã, pessoas começaram a chegar em frente à bilheteria do Sesc Palladium, na região central da cidade, no que foi, provavelmente, o maior e mais bonito evento da história daquele local. Formou-se um quilombo no coração da cidade, onde se ouviu e celebrou-se uma grande mulher, inspiradora de uma geração de leitoras e leitores a pensarem de forma altiva, descolonizada e comprometida com a população negra, como também, e consequentemente, com esse país.

A capital das Gerais era um destino necessário, pois, de certa forma, foi onde a coleção Feminismos Plurais, organizada pela filósofa e que conta com selo e apoio na organização do Justificando, começou. Nessa cidade fica a sede da pequena e gigante – ao mesmo tempo – editora Letramento, capitaneada pelo querido, editor, empresário de eventos nas horas vagas Gustavo Abreu, um presente em nossas vidas. Foi Gustavo que organizou, lutou com unhas e dentes por cada detalhe do evento e pavimentou a estrada para fazer de Belo Horizonte capital do mundo por um dia. Na madrugada, depois do sucesso do evento, entre um chopp e outro, o sorriso não saía de seu rosto. “Em Belo Horizonte vendemos muito mais que em São PauloAmo minha cidade”, gabou-se, enquanto ríamos da esnobada na capital paulista. De fato, mais de 780 livros vendidos numa única noite é um sucesso absoluto. Pelo Sesc, coube a Lídia Mendes a organização do evento.

Atrás das cortinas, funcionários banhavam-se com a euforia típica de quem coloca a cabeça pela primeira vez debaixo de cachoeira. Não era à toa, pois pela tarde, a fila dobrava quarteirões inteiros apinhados de pessoas que queriam participar desse grande encontro. Pelo cálculo de próprios funcionários do local, havia mais de 3000 pessoas na porta para ingressar no belo teatro com capacidade para 1,4 mil pessoas. Veja só quantas não conseguiram entrar. Para se ter uma dimensão do que significa, o recorde de público em um evento como esse havia sido do moçambicano Mia Couto, que ostentava a até então proeza de reunir pouco mais de 1,3 mil pessoas no local. Não havia script pronto para reações, tudo era inédito. A energia, a sede do público por conhecimento, por reconhecimento. Digo pelo que vi com meus olhos atrás das cortinas: pessoas trabalhadoras no local inebriadas, em êxtase pela catarse em curso no local. 

No camarim, minutos antes da entrada, aumentou-se o volume para Change is Gonna Come, na voz de Ottis Redding, clássica música por direitos civis que tem a cadência, persistência e aspirações revolucionárias próprias da trajetória, prática e fala de Djamila Ribeiro. Change is gonna come, yes it will. Quando ouço Djamila e outras mulheres negras reunidas à vontade com suas ideias e sentimentos, sinto a transformação como possível e à vista. Finda a música, a filósofa vai em direção à plateia, enquanto a mestre de cerimônia traz uma pequena apresentação sua e anuncia seu nome, para, então, a febre toma conta do lugar, que vem abaixo com a entrada dessa grande mulher, ovacionada como merece ser. 

De início, a filósofa começou com agradecimentos e láureas ás mulheres que lutam muito por dignidade e direitos no Estado. Áurea Carolina Macaé Evaristo subiram ao palco para efusivos aplausos da plateia. Ambas são lideranças políticas regionais – Áurea foi a vereadora mais votada da cidade nas últimas eleições, enquanto Macaé trabalha no governo estadual e é colunista na Carta Capital – e possivelmente se lançarão, como muitas outras mulheres negras, nas próximas eleições. A efervescência e leque de vários quadros que, assim seja, serão votados por mineiros e mineiras nas urnas impressionou toda a equipe desde a visita pela tarde no salão de cabelo Todo Black é Power, onde Djamila foi antes do evento principal e se encontrou com várias pessoas e lideranças. O local é candente e me lembrou as mais apaixonadas descrições dos salões do Harlem, onde pulsa o orgulho e a cultura negra.

Após os merecidos reconhecimentos, a palestrante inicia contando como foi sua trajetória na vida acadêmica; como foi a importante a luta de seus ancestrais que resultou, dentre outras vitórias, na primeira da família a fazer Faculdade – “Sou filha e neta de empregada doméstica. Sou bisneta de pessoas escravizadas”. A quem veio antes e lutou para ela estar onde está, Djamila honrou o início de sua fala. Além disso, teve fala sobre a importância de redes de apoio, de pessoas que se ajudam mutuamente a seguir; sobre seu pai e a insistência no estudo; sobre o orientador Edson Telles que a ajudou a romper limites. Destaco o relato de Pâmela Guimarães, em sua página pessoal nas redes sociais.

Durante a palestra, o público de BH pode conhecer outra grande pessoa que volta e meia atravessava o palco para trazer perguntas da plateia, mas que longe dos holofotes é a primeira ministra que toca o barco navegando de vento em popa. Na produção e assistência pessoal de Djamila, Ísis Vergílio comanda e encanta a todos e todas. A construção de sucessos como o de Belo Horizonte é coletiva, mas vale dizer que Ísis segura todas as pontas, o ambiente fica leve e todos ficam seguros para trabalhar. Deve-se aproveitar ainda para agradecer a Lola Cosmetics por oferecer à população de Belo Horizonte 100 livros que foram distribuídos gratuitamente. A empresa, liderada por Dione Vasconcelos, uma querida parceira, contribui em iniciativas como essa para a democratização do acesso à leitura, principalmente para a quem R$ 19,90 faz sensível diferença – embora, o preço em si seja acessível e uma das maiores conquistas da história do mercado editorial, fruto de esforços de Djamila, Gustavo, entre outras pessoas.

Ao passo que a fala se desenrolava, o público mergulhava no Lugar de Fala, tema de seu livro que enseja reflexões a partir de pensadoras negras sobre existir no mundo como sujeito, sobre invisibilidade de saberes do Sul do Mundo e hegemonia do pensamento e modo de vida patriarcal, branco, europeu, cristão. A partir da reafirmação de existência de pessoas silenciadas, Djamila teoriza e coloca em prática um mundo com novas possibilidades. Um outro mundo. A efusividade do início, então, dá lugar ao compenetrado silêncio, interrompido apenas por risadas diante do bom humor da palestrante. 

Ao final, pessoas puderam mandar perguntas e uma, em especial, a endeusava. Djamila responde sobre suas aflições comuns, como a reunião de pais, boletos para pagar, pegar ônibus como qualquer pessoa trabalhadora. Do lado de Ísis, discordamos e cochichamos um ao outro: “É Deusa Sim!”, ao que rimos de nossa própria palhaçada, que tem um fundo de verdade. Djamila é a caçadora filha do Rei, é a princesa que traz a caça farta para seu povo e avança levando inúmeras pessoas consigo. Quando ela dá um passo e quebra paradigma atrás de paradigma abre uma trilha para que muitas outras pessoas possam nela percorrer. 

Como a caçadora de seu povo, é generosa e depois da palestra desceu para autógrafos onde ficou por mais de uma hora, ouvindo, tirando fotos, dando conselhos a pessoas que viam nela um mundo possível. Mulheres mais velhas orgulhosas da mais nova, mulheres mais novas fascinadas com a mais velha. Cenários diversos. Chegando perto da meia noite, a fila de autógrafos passava das centenas. Foi a entrada, em grande estilo, no Dia Internacional das Mulheres. 

Sendo alguém que acompanha os passos como amante e amado, registro noites memoráveis como essa na certeza de que são degraus que marcam a vida e história de uma mulher transcendental e também para que futuras gerações saibam do que as mulheres negras são capazes em transformação de mundo. É uma alegria viver na mesma época que Djamila Ribeiro.

Brenno Tardelli é diretor de redação no Justificando.