DJs e produtores musicais criam shows de olho na arte e na história

Lívia Neder
·3 minuto de leitura

NITERÓI — À frente da escola de produção de música eletrônica ao vivo Wave Live Act, os DJs e músicos de Niterói João Pinaud e Érica Alves lançam, nesta terça-feira, o projeto Imaginação Criativa. A dupla musicou 24 pinturas selecionadas do acervo do Museu Paulista, da USP, e mostra o resultado em uma série de seis shows inéditos e diários, transmitidos no YouTube (@wave.liveact) até domingo, sempre às 20h. O projeto tem apoio da Lei Aldir Blanc pelo governo de São Paulo, onde Érica também vive e trabalha na agência Urban Jungle, se dividindo na ponte aérea com o Rio.

Os shows são divididos em temas que remetem à história. Cada um conta com quatro pinturas, como “Eu-lírico”, em que encarnam personagens como o Cacique Tibiriçá e a Marquesa de Santos; e “Mata d’Ouro”, que interpreta a turbulenta e conflituosa história dos bandeirantes e as invasões às terras dos nativos e quilombolas através do olhar de Cunhambebe, líder tamoio que amaldiçoou o homem branco que tentasse se estabelecer na região da Costa Verde.

— Cada show tem sua identidade musical e visual, com diferentes instrumentações, sonoridades, figurinos e cores. Buscamos expressar a nossa pesquisa ao máximo. O primeiro show, por exemplo, tem uma temática mais urbana, então incorporamos as influências do R&B, da soul music e do hip-hop, gêneros musicais que expressam a voz da cidade para o imaginário. Foi muito importante a gente trazer a música eletrônica mais para perto do Brasil, criar todas as letras em português e fazer referência aos nossos ritmos folclóricos. Fizemos arranjos de forma similar à estrutura do jazz, trazendo diferentes instrumentos, improvisações e temas. Usamos e abusamos de percussão, vocais, baixo elétrico, guitarra, clarinete, sintetizadores, baterias eletrônicas e samples, para dar ambiência e profundidade à proposta de cada live — explica João, que, além de DJ e produtor, é instrumentista.

É a partir de um estúdio no Engenho do Mato, bairro da Região Oceânica de Niterói, cercado de verde, que são ministradas as aulas remotas da escola de produção musical da dupla. No ano passado, a Wave Live Act formou 95 alunos. Com perfil diverso, as turmas são compostas por pessoas que buscam mais autonomia em seus projetos. Os exemplos vão desde uma cantora que quer criar as próprias bases para seu show, passando pelo guitarrista que não quer depender da banda toda para tocar, ao videomaker que quer aprender a criar sua própria trilha sonora para compor vídeos, principalmente no cenário de guerra dos direitos autorais. Já no caso dos DJs, os professores avaliam que todos precisam se expressar de forma autoral, mais cedo ou mais tarde.

— Tenho meu histórico com oficinas de sintetizadores para mulheres, Synth Gênero. A diversidade sempre foi um pilar para nosso trabalho como artistas, produtores de eventos e, como professores, não poderia ser diferente. Sempre reservamos vagas de bolsa para quem quiser pleitear através de carta de intenção, através de autodeclaração de pessoas trans, negras, indígenas e/ou de baixa renda — destaca Érica, que, além de produtora e DJ, também é cantora.

Com saudade das pistas e turnês, a produção musical intensa nesse período de isolamento social tem sido o antídoto da dupla para manter a saúde mental durante a pandemia.

— Produzi muita coisa nesse período, e fico pensando como será a retomada do setor cultural. No dia 21, vou lançar o novo EP “Afrojazz”, pela gravadora francesa Mondo Dingo Records. Arte e ciência estão salvando vidas — pondera Pinaud.

Érica ressalta que tem sido um grande desafio:

— Mesmo estando em casa boa parte do tempo, e com acesso constante ao home studio, é necessário forjar uma rotina de autocuidado para manter a saúde mental e física, pois sem isso não consigo encontrar o clima para ter novas ideias pros projetos. Ter uma ferramenta de criação como a metodologia da Imaginação Criativa é uma tremenda mão na roda — conclui.

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