'DNA Tricolor': conheça a metodologia do Fluminense que transformou Xerém em uma fábrica de craques

Marcello Neves
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Ao chegar no Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras, um imponente outdoor dá as boas-vindas. A música “vem que tem” cantada pela torcida, aliada às fotos de astros como o zagueiro Thiago Silva, o lateral-esquerdo Marcelo e o volante Fabinho, é uma mensagem clara do porquê Xerém é respeitada. Mais do que revelar jogadores, o Fluminense transformou a sua base em exemplo esportivo e de metodologia. É daí onde começa o sucesso.

Marcelo Veiga é coordenador técnico em Xerém e acredita que o “DNA Tricolor” é o que diferencia o Fluminense de outros clubes. Mas não é da boca para fora. É o nome dado para o livro de quase 200 páginas que as categorias usam para planejar o processo de captação, formação, desenvolvimento e profissionalização dos atletas. Os segredos são guardados a sete chaves.

— Temos uma reunião de formação continuada que fazemos quinzenalmente, que é melhor que muitos cursos pagos por aí. Trazemos convidados de peso para palestrar e buscamos conhecimento todos os dias. Nosso caderno metodológico foi construído coletivamente, não é um livro que fica na estante, nós tentamos colocá-lo em campo todos os dias — afirma Veiga.

O orçamento anual destinado para as categorias de base varia entre R$ 12 e R$ 14 milhões atualmente. Dos seis aos dez anos, todos iniciam no futsal. Aos 13, vão para o campo para a fase de transição. Então, vão subindo de categoria até chegar ao sub-23, projeto recente coordenado pelo diretor de futebol Paulo Angioni, que semanalmente realiza reuniões com os coordenadores de Xerém — o sub-23 treina na Barra da Tijuca junto aos profissionais.

Estruturalmente, o CT Vale das Laranjeiras é considerado um dos mais modernos da América do Sul por especialistas. Dividido em 120 mil m², tem cinco campos de tamanho oficial, um reduzido e outro de grama sintética. A infraestrutura passou por forte revitalização na última década, com melhorias sendo feitas até hoje. Xerém tem 30 dormitórios, salas de psicologia, auditório e outros ambientes. Em 2019, o futebol feminino ganhou vestiário exclusivo.

— Tenho orgulho de dizer que sou um moleque de Xerém. É diferente. É uma fábrica que revela jogadores— conta o atacante Miguel Vinícius, de 19 anos, que está no sub-20.

Análise individual

A metodologia aplicada em Xerém passa pelos treinadores. Veiga conta que é importante não avaliar jogadores como se fossem máquinas, com cada um tendo uma análise individualizada de desempenho. Técnico do sub-20, Eduardo Oliveira vê esta processo como um diferencial em Xerém.

— Exemplo é o João Pedro [atacante do Watford]. Ele na sub-16 não era destaque, na sub-17 deu o salto e pulou para os profissionais. Já o Evanilson era destaque no sub-15, mas teve dificuldade nos últimos anos de juniores e despontou. Nos trabalhamos para entender que o ser humano não é um igual ao outro e por isso temos planos de ação individual — conta. Os técnicos tricolores do sub-20 e 17 têm licença Pro da CBF. Nas categorias inferiores, todos tem a licença B, no mínimo.

Eduardo dá o exemplo de uma reunião individual feita pelo clube. A comissão técnica se reúne com um jogador e propõe três meses de avaliação. Pede para o atleta entregar uma característica técnica, tática e física onde gostaria de melhorar. Caso tenha algum problema em campo, soluções serão procuradas. Caso esteja tendo alguma questão familiar atrapalhando, o setor de psicologia será acionado.

Por sinal, um representante do setor psicossocial do Fluminense sempre acompanha os treinamentos ao redor do gramado e faz anotações. Tudo isso se transformar em um grande documento compartilhado com a comissão técnica.

Todos os treinos são filmados, analisados e enviados por Whatsapp para os jogadores com orientações. Também há uma reunião após as atividades onde os jogadores são convidados a reassistir seus movimentos.

— Nós criamos um planejamento individual. Indicadores de desempenho de nível estatístico e qualitativo. Conseguimos didaticamente e pedagogicamente fazer os jogadores avaliarem o próprio desempenho. Nós identificamos o que é o futebol do Fluminense e o que a torcida quer que a gente faça para ela sentir orgulho — completa Eduardo.

Futuro de Xerém

No orçamento do Fluminense, estão previstos mais R$ 6 milhões em reformas para Xerém. Os planos são de construir um prédio para levar para perto dos campos as partes de fisiologia, fisioterapia, academia, piscina e a pasta administrativa. O Fluminense também deseja que todos os profissionais se aperfeiçoem em espanhol e para acompanhar mais torneios espalhados pela América da Sul. A ideia é se tornar um exemplo para o futebol sul-americano.

— As pessoas perguntam “o que tem na água de Xerém?”. Nós temos que purificar ela cada vez mais para ter maior excelência. Nós queremos ser uma referência em formação sul-americana até 2025. No ambiente nacional, já conseguimos. Agora queremos dar um passo maior e continuar atento ao mercado pois não podemos não nos fecharmos. Há outros clubes que trabalham muito bem — afirma Marcelo Veiga.

O Fluminense também lançará o livro “Xerém - Guerreiros nascem aqui”, que conta a história da base tricolor. A previsão de lançamento é para o segundo semestre.