Do 'kit Covid' à fila de transplante de fígado: entenda intoxicação desenvolvida por paciente em SP

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Ilka Boin, médica da unidade de transplante hepático do HC da Unicamp (Foto: Reprodução/EPTV)
Ilka Boin, médica da unidade de transplante hepático do HC da Unicamp (Foto: Reprodução/EPTV)
  • Paciente vai à fila de transplante de fígado após usar 'kit Covid', a combinação de azitromicina, hidroxicloroquina e invermectina no tratamento da Covid-19 e desenvolver hepatite medicamentosa

  • Medicamentos são defendidos pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido)

  • Entenda como intoxicação acontece em casos assim; médica alerta que irão aparecer mais casos

Um paciente diagnosticado com a Covid-19 que se tratou com medicamentos ineficazes contra a doença, as drogas do chamado 'kit Covid' defendido pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido), acabou na fila do transplante de fígado na última quarta-feira (24), em Campinas, interior de São Paulo, por desenvovler intoxicação chamada hepatite medicamentosa.

De acordo com o HC (Hospital das Clínicas) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o uso prolongado de remédios, ejoo, cansaço, confusão mental, olhos e pele amarelados são o histórico que levou ao diagnóstico da doença. Esse tipo de hepatite é uma intoxicação provocada pelo uso da azitromicina, hidroxicloroquina e ivermectina no tratamento da Covid-19.

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A seguir, o HC explica como se dá a evolução do fígado em casos assim. A médica da unidade de transplante hepático, Ilka Boin, afirmou ao G1 que se trata do efeito da "exposição contínua a nível populacional" e ela avaliou que "com certeza vão começar a aparecer casos".

"O paciente vem com sintomas de fadiga, cansaço, às vezes febre e até confusão mental, podendo ser leve até um estado de coma. O quadro pode levar horas ou dias na fase aguda. Não deve ser uma ideologia política, mas um alerta técnico", concluiu ao jornal.

  1. Quem é o paciente de Campinas que adquiriu hepatite após 'kit Covid'?

  2. O que pode causar a hepatite medicamentosa?

  3. Quais os sintomas da hepatite medicamentosa?

  4. Como é feito o diagnóstico pelo médico?

  5. Quais as alterações que ocorrem no fígado?

  6. A hepatite medicamentosa tem tratamento?

1- Quem é o paciente de Campinas que adquiriu hepatite após 'kit Covid'?

O paciente diagnosticado pela Unicamp com a hepatite medicamentosa tem cerca de 50 anos, é morador de Indaiatuba (SP), e não possui histórico de outras doenças ou comorbidades. Três meses após ser infectado pelo novo coronavírus, o paciente começou a apresentar coloração amarela na pele e nos olhos. Ele assumiu que além da cloroquina, azitromicina e ivermectina, utilizava também zinco e vitamina D.

No início desta semana, em São Paulo, cinco pacientes esperam na fila de transplante de fígado pelo uso dos remédios que compõe o “kit Covid". Médicos relatam que três pessoas morreram com hepatite causada pelos medicamentos.

"Em março do ano passado, a gente observou a cloroquina, depois a Annita [vermífugo], a ivermectina. Hoje tem dez medicamentos. Começou a haver um uso indiscriminado e contínuo de medicações, às vezes sozinhas ou acompanhadas, e não havia relatos desses casos antes", completou Ilka Boin.

2 - O que pode causar a hepatite medicamentosa?

De acordo com especialistas, é o efeito tóxico no organismo a partir da ingestão de medicamentos em altas doses. 

No entanto, o quadro vai depender do medicamento ingerido, do tempo de exposição a ele, da condição de cada organismo e da idade do paciente.

A ingestão de remédios por tempos prolongados pode levar a uma descompensação do fígado. Em outras palavras, uma mudança na forma de ele trabalhar que é prejudicial ao organismo (Foto: Agência Brasil)
A ingestão de remédios por tempos prolongados pode levar a uma descompensação do fígado. Em outras palavras, uma mudança na forma de ele trabalhar que é prejudicial ao organismo (Foto: Agência Brasil)

A maioria dos medicamentos que consumimos é metabolizada, ou seja processada, no fígado. Um remédio popular que age dessa forma é paracetamol, por exemplo.

A ingestão de remédios por tempos prolongados pode levar a uma descompensação do fígado. Em outras palavras, uma mudança na forma de ele trabalhar que é prejudicial ao organismo.

Essa descompensação pode ser aguda, a forma mais grave.

3 - Quais os sintomas da hepatite medicamentosa?

Os sinais no corpo podem aparecer após 24 horas de ingestão dos medicamentos ou até um mês depois.

Podem ocorrer: cansaço, dor de cabeça, mal-estar, fadiga, febre, náusea, desmaio, vômito, confusão mental.

Com o passar do tempo, a pessoa pode começar a perceber olhos e pele amarelados, sinais de icterícia (coloração amarela da pele e/ou olhos, causada por um aumento da bilirrubina na corrente sanguínea). Também podem ocorrer episódios de urina escura, coceira e dor na área hepática.

Nos casos graves, o paciente precisa de transplante de fígado. O fígado é um órgão vital, portanto, não sobrevivemos sem ele.

Além disso, o paciente pode entrar em coma subitamente.

Os pacientes devem procurar um hospital, contar sobre a ingestão de remédios e relatar os sintomas ao médico.

4 - Como é feito o diagnóstico pelo médico?

O médico colhe informações do histórico do paciente, sobre quadro de saúde e medicamentos ingeridos recentemente, por exemplo. Por este motivo, é importante procurar um hospital e informar sobre a ingestão dos remédios.

A partir disso, é feito um exame de sangue para verificar a quantidade de bile eliminada no sangue, a bilirrubina, responsável pelo aspecto amarelado da pele e/ou olhos.

O diagnóstico completo depende da biópsia do fígado.

5 - Quais as alterações que ocorrem no fígado?

Segundo a médica ouvida pelo G1, o fígado transforma o medicamento ingerido quando é processado, para que as substâncias que compõem a medicação sejam absorvidas pelo organismo.

Quando o fígado identifica uma sobrecarga de medicamento, o hepatócito, que é a célula-mãe do fígado, é destruído. São essas as células que formam e excretam a bile no organismo.

O excesso de bile também pode ocasionar a doença colestase hepática, um entupimento dos canais que excretam a bile. Quadro pode levar horas ou dias na fase aguda (Foto: Agência Brasil)
O excesso de bile também pode ocasionar a doença colestase hepática, um entupimento dos canais que excretam a bile. Quadro pode levar horas ou dias na fase aguda (Foto: Agência Brasil)

Com a produção de bile desregulada, o fígado fica descompensado e a bile vai em excesso para o sangue, gerando níveis até 40 vezes maiores do que o normal. Isso resulta no amarelado dos olhos e da pele.

O excesso de bile também pode ocasionar a doença colestase hepática, um entupimento dos canais que excretam a bile. Quadro pode levar horas ou dias na fase aguda.

6 - A hepatite medicamentosa tem tratamento?

Sim, mas depende do estágio da doença. Há casos de melhora no quadro quando é feita a suspensão imediata dos medicamentos. Há também tratamento com medicação específica para poucos casos.

Na maioria deles, a indicação é de transplante de fígado para os casos de hepatite medicamentosa aguda, como a do paciente de Campinas. O quadro também pode afetar o funcionamento dos rins com a ocorrência da síndrome hepatorrenal.

Bolsonaro e o tratamento precoce

Bolsonaro defendeu o uso de cloroquina desde o início da pandemia, mesmo sem qualquer comprovação de que era eficaz no tratamento. Com o tempo, estudos mostraram a ineficácia do remédio.

Em 4 de fevereiro, durante uma live, o presidente comentou o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. Segundo Bolsonaro, caso ficasse comprovado que o medicamento não funciona, ele pediria desculpas. “Pelo menos eu não matei ninguém”, completou.

"Pode ser que, lá na frente, falem que a chance é zero, que era um placebo. Tudo bem, me desculpe, tchau. Pelo menos não matei ninguém", afirmou o presidente. "Agora, se porventura mostrar eficácia, você que criticou, parte da imprensa, vai ser responsabilizada. Pelo menos moralmente. E aí? Vão continuar me chamando de genocida?", atacou em 4 de fevereiro.

Criação do Comitê Anti-Covid

Segundo dados do Conselho Federal de Farmácia, o aumento na venda de unidades de ivermectina de 2019 para 2020 foi de 557%. O mês com mais compras do remédio foi dezembro. Na realidade, o medicamento é indicado para o tratamento de sarna e piolho. O uso no tratamento para a covid foi desaconselhado pela Agênica Europeia de Medicamentos e pela própria farmacêutica, a MSD.

Nesta quarta-feira (24), Bolsonaro anunciou a criação de um Comitê Anti-Covid após encontro com governadores e chefes de Poderes. Ele reforçou a necessidade de vacinação, mas voltou a insistir no tratamento precoce. 

O encontro aconteceu após o Brasil registrar na terça-feira novo recorde de mortes pela covid-19: 3.251 em 24 horas.

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