Do "kit gay" à fraude: Especialistas comparam estratégias e fake news de 2018 e 2022

Estudantes do CEU (Centros Educacionais Unificados) em uma aula sobre fake news e veracidade da informação em São Paulo, em 21 de junho de 2018 (AFP via Getty Images / Miguel Schincariol)
Estudantes do CEU (Centros Educacionais Unificados) em uma aula sobre fake news e veracidade da informação em São Paulo, em 21 de junho de 2018 (AFP via Getty Images / Miguel Schincariol)

Nas duas semanas que antecederam o primeiro turno, as iniciativas de checagem Comprova, Agência Lupa, Fato ou Fake e Aos Fatos verificaram 26 fake news sobre urnas eletrônicas. Em 2018, de acordo com um levantamento feito pela Revista Piauí, haviam sido publicadas 32 checagens sobre o assunto no mesmo período.

Um levantamento feito pelo Yahoo! Notícias identificou que no Facebook, menções a termos como "fraude" e "fraudadas" cresceram em comparação com 2018, mas as interações diminuíram. Em 2018, foram feitas 36 mil publicações, que tiveram 3,3 milhões de interações entre 1º e 8 de outubro. Naquele ano, o primeiro turno ocorreu em 7 de outubro. Já no pleito de 2022, foram identificadas 37 mil com 1,6 milhão de interações entre 26 de setembro e 3 de outubro, segundo dados do CrowdTangle, ferramenta de monitoramento de conteúdos nas redes sociais.

Para Sérgio Lüdtke, editor do Projeto Comprova, em entrevista ao Yahoo! Notícias, não necessariamente há mais fake news hoje em comparação a 2018: "Não é um quadro, talvez, de mais desinformação, difícil dizer isso. A gente não totalizou a desinformação naquela época e não tem a mínima condição de totalizar agora, até porque situar e delimitar desinformação é uma coisa muito difícil, cada vez mais complexa".

A situação é bastante diferente de 2018 e mais complexa em sua avaliação: "Mas o quadro atual é um quadro que está muito mais agravado pelo fato de que a desinformação não tem mais aquele papel um pouco mais ingênuo, de falsificar determinado dado ou simplesmente usar o dado inventado, editar uma imagem". Isso porque, os conteúdos se tornaram mais complexos e difíceis de serem verificados, sendo produzidos, por vezes, com o auxílio de estratégias que visam evitar o enquadramento da informação falsa ou enganosa.

"Hoje se vale até de informações verdadeiras que, dependendo da posição no texto, podem mudar todo o sentido, levar a uma interpretação equivocada. Tem se utilizado muito de humor para se escudar de certa forma, 'já não sou um disseminador de desinformação, só faço humor', mas só um humor em determinado sentido, privilegiando um determinado candidato e assim por diante. E muito conteúdo em vídeo", explicou ele.

Plataformas como TikTok, Kwai e Hello se consolidaram de 2018 para cá e popularizaram vídeos curtos. Esse tipo de conteúdo, como avaliou Lüdtke torna o trabalho dos verificadores de fatos mais complexo: "É uma das coisas mais difíceis de monitorar. O vídeo já é complexo para fazer a checagem, mas o monitoramento fica um pouco mais difícil porque tem texto, fala, tudo embutido em uma única peça, e essa peça nem sempre é rastreável".

Do kit gay à fraude eleitoral

Na última eleição geral, temas como "kit gay" e a "mamadeira de piroca" dominaram o cenário da desinformação. Já em 2022, ataques ao sistema e autoridades eleitorais, assim como a mesários e pesquisas de intenção de voto estão entre os temas mais recorrentes. Apesar disso, Wilson Gomes – professor titular da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e colunista da Folha de S. Paulo, da revista Cult e da rádio Metrópole – reconheceu uma estratégia semelhante nas duas campanhas: a criação de um "pânico moral". A diferença está apenas no público escolhido para consumir essas fake news e em quem será o inimigo da vez.

"Você identifica um grupo vulnerável, qual é o seu pavor, qual é o seu horror e aí você constrói, seja uma teoria da conspiração, seja fake news ou várias fake news para produzir [...] o pânico moral, que é decorrente do processo de satanização do inimigo", explicou Gomes ao Yahoo! Notícias. Diferentemente de 2018, em 2022 o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e o STF (Supremo Tribunal Federal) com suas decisões desfavoráveis a Jair Bolsonaro (PL) e seus apoiadores se mostraram como obstáculos ao "projeto do bolsonarismo", como explicou o professor. Assim, essas instituições também passaram a ser vistas como inimigas e, consequentemente, estão sendo satanizadas.

A estratégia se centra em mostrar o "inimigo" como "muito poderoso, muito ameaçador e muito maligno" por meio de "fake news diferentes dizendo coisas diferentes, mas com o mesmo ponto, mostrando como o adversário é mau, como ele é perverso", explicou ele. É um é um discurso "claramente" ordenado, completou.

Menções aos termos "fraude" e "fraudadas" cresceram no Facebook depois o primeiro turno. No dia seguinte ao pleito, na segunda-feira (3), foram feitas cerca de nove mil postagens com mais de 390 mil interações. Na segunda-feira anterior (26), foram pouco mais de três mil, com quase 137 mil interações, conforme observado pelo Yahoo! Notícias no CrowdTangle. Gomes destacou que na semana antecedente ao primeiro turno, o alvo foi a credibilidade das urnas: "Tudo aquilo que possa produzir nas pessoas a convicção de que a eleição, que provavelmente será perdida, foi uma eleição fraudada, vai ser usado". O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ficou na frente no primeiro turno com 48,43% dos votos, seguido por Jair Bolsonaro, com 43,2%.

Sérgio Lüdtke destacou que os ataques direcionados às urnas já se apresentavam como um problema em 2018: "Acho que a sociedade não tratou com a devida atenção, não estancou as dúvidas", observou. "Isso não termina por aqui, dependendo do resultado da eleição, a gente vai continuar tendo esse tipo de questionamento e é importante dar atenção para isso", alertou.