Do Kuduro ao Rap: Cantores de Angola transformam linguagem social pela música

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  • Geração de jovens talentos romperam com as marcas coloniais e reorganizam o mercado musical no atual período de retomada das atividades culturais no continente africano

  • Em Angola, a música faz a sua revolução nos táxis (nome dado ao modelo de transporte que no Brasil são as vans), nas festas e nos eventos sociais

  • Conheça alguns dos artistas de sucesso no país angolano, do tradicional Kuduro ao Rap

Texto: Juca Guimarães

Há 46 anos, em 1975, Angola se tornou independente de Portugal e deu início a um processo de construção da identidade cultural de uma nação que atualmente possui uma população estimada em 34,3 milhões de pessoas. A potência da música jovem contemporânea no país é uma ferramenta importante neste movimento. Cerca de 66% dos angolanos têm até 24 anos de idade, já na faixa etária entre 25 anos e 54 anos estão aproximadamente 28%.

“A música é a arte das massas e tem uma influência tremenda no contexto social e político do país. O povo angolano é muito rítmico, nota-se isso na fala, inclusive”, afirma a produtora cultural Luana Bartholomeu, que mora em Angola desde 2016.

Para fazer sucesso em Angola, os artistas dependem das rádios e das redes de televisão aberta, porém os processos de produção musical estão mais acessíveis, o que torna plural as linguagens e temáticas. A música faz a sua revolução nos táxis (nome dado ao modelo de transporte que no Brasil são as vans), nas festas e nos eventos sociais.

“O mercado musical funciona em uma outra lógica. As pessoas precisam ser criativas para se manterem ativas na sua arte. Ainda tem obstáculos estruturais, muitos artistas não estão nas plataformas digitais ou têm poucos seguidores nas redes sociais, apesar de terem carreiras bem reconhecidas. O cenário está se reinventando e se redescobrindo sempre”, explica Luana, que é sócia do Centro Cultural Casa Rede, um hub de economia criativa e cultura criado por quatro mulheres, na cidade de Luanda, capital da Angola.

Brasileira, a produtora cultural Luana Bartholomeu vive em Angola desde 2016. (Foto: Acervo Pessoal)
Brasileira, a produtora cultural Luana Bartholomeu vive em Angola desde 2016. (Foto: Acervo Pessoal)

Segundo a produtora, a realidade pandêmica se tornou um conector de resistência cultural. “Países africanos como Angola, Cabo Verde e Moçambique têm ampliado a conversa entre si. Ficou forte a ideia de que a autossuficiência é o único caminho possível para se construir qualquer coisa em termos de mercado. Antes, existia a coisa do sonho europeu, de internacionalização, de querer ir para o Brasil ou para Portugal”, avalia Luana.

Do tradicional Kuduro ao Rap

Outra vertente musical que ganha destaque na chamada “transformação da linguagem social”, ao lado do Kuduro, é o rap angolano. A cena alternativa do hip-hop, impulsionada pela grande quantidade de estúdios caseiros e independentes, é marcada por nomes como McK, Ikonoklasta (vulgo do Luaty Beirão); Pai grande, o poeta; Kool Klever; Keita mayanda e Uncle Jay.

O Kuduro, que é o ritmo predominante nas festas populares, tem como artista referência a Titica, que fez grande sucesso no Brasil, e outros nomes como Noite e Dia, Nerú Americano e Cleyton M.

 A cantora angolana Titica em visita ao Brasil, em 2019, no Rio de Janeiro. (Foto: Divulgação)
A cantora angolana Titica em visita ao Brasil, em 2019, no Rio de Janeiro. (Foto: Divulgação)

Nas ilhas do arquipélago de Cabo Verde, onde também se fala o português, a renovação musical fica por conta das cantoras Sara Tavares e Mayra Andrade, que ganhou destaque com a música "Afeto", mesclando diversas influências e ritmos pop.

Quem faz sucesso em Angola

Os cantores populares angolanos fazem sucesso, em grande parte, pelos concursos, festivais e programas de rádios e emissoras de TV aberta. A internet e a TV a cabo ainda são muito caras.

O jovem Wilmar Nakeni participou do The Voice Angola e, em setembro deste ano, venceu a 24ª edição do Festival da Canção de Luanda, com um prêmio de três milhões de kwanzas angolanos (cerca de R$ 28 mil). Nakeni é também poeta e vem de uma tradicional família de músicos de Angola. A música de Nakeni faz uma conexão entre a cultura tradicional angolana e diversos elementos da cultura pop e do R&B internacional.

O cantor Wilmar Nakeni já participou do The Voice Angola e venceu o Festival da Canção de Luanda em 2021. (Foto: Reprodução/Instagram)
O cantor Wilmar Nakeni já participou do The Voice Angola e venceu o Festival da Canção de Luanda em 2021. (Foto: Reprodução/Instagram)

O ator e cantor Dino Ferraz, por sua vez, é um artista que se destaca também pelas composições de cunho político e de valorização da cultura negra, como a música “Careca Não”.

“É muito bonito ver os produtores musicais independentes ganhando espaço na cena. O mercado musical tem cada vez mais diversidade e transformações na linguagem social. Angola ainda é um país que tem muita referência colonial e está em um processo de transformação”, pondera Luana.

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