Quase com tanta gente quanto o Brasil e vacinando em massa: entenda como a Rússia está fazendo

Redação Notícias
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(Alexander Shcherbak\TASS via Getty Images)
(Alexander Shcherbak\TASS via Getty Images)

Por Fábio Paine, de Moscou

Primeiro país a registrar uma vacina contra o coronavírus, a Sputnik V, a Rússia chega à segunda quinzena de janeiro com mais de 1,5 milhão de vacinados – segundo dados oficiais divulgados pelo governo – e com a expectativa de que até o início do outono no Hemisfério Norte, em outubro, já haja uma imunidade coletiva.

Até o fim de 2021, o objetivo é que ao menos 60% de sua população de 144,4 milhões de pessoas esteja imunizada.

Para alcançar esta meta, desde segunda-feira, por ordem do presidente Vladimir Putin, teve início a vacinação massiva em todas as regiões do país. Isso significa que agora já não há mais grupos prioritários e qualquer cidadão acima de 18 anos pode receber as duas doses do fármaco distribuído pelo Centro Gamaleia.

Em Moscou, inclusive, numa ação da prefeitura para ampliar o processo e atrair as pessoas – a vacinação na Rússia não é obrigatória – postos de vacinação foram abertos em alguns shoppings centers e mercados do município. Esta estrutura se soma à rede de 100 hospitais e policlínicas que estão realizando a imunização. Tudo de forma gratuita.

Entre estes postos nos quais não é necessário nem fazer um pré-cadastro e apenas entrar na fila está a famosa loja de departamentos GUM, localizada na Praça Vermelha, e um dos cartões postais e pontos turísticos mais famosos da capital russa. Nestes postos avançados, inclusive, estrangeiros em posse do passaporte terão direito a ser vacinados como qualquer cidadão russo.

Brasileiro que vive há 20 anos na capital moscovita, o representante comercial João Santos Lima, fez sua vacinação em uma das diversas clínicas da cidade. O processo foi simples. A vacinação aconteceu na última sexta-feira (15).

“Fui na policlínica aqui perto de casa onde sempre costumo ir porque não estava conseguindo fazer o agendamento pela internet ou pelo telefone. Me ofereceram agendar para outro dia ou receber a vacina na hora. Fiz na hora mesmo. Foi tudo muito tranquilo”, disse o catarinense natural da cidade de Curitibanos.

Em breve, a esposa de João também receberá a primeira dose da Sputnik V. Suas duas filhas por terem menos de 18 anos não poderão ser vacinadas neste momento. Mulheres grávidas também estão excluídas do processo.

“Eu acho que a Rússia está dando ao mundo um exemplo de como gerenciar a crise da Covid. E eu achei excelente esta iniciativa de abrir estes pontos populares” afirmou João.

A vacina Sputnik V é uma vacina baseada em adenovírus humano aplicada em duas doses, com intervalo de 21 dias entre as duas. Ao fim de 42 dias, o paciente pode se considerar imunizado contra a doença com a produção suficiente de anticorpos.

Na primeira injeção é aplicado o adenovírus AD 26, e na segunda o AD 5. Combinados, aumentam a produção do sistema de anticorpos. Segundo o Centro Gamaleia, esta é a grande vantagem e diferença de sua vacina em relação às outras que estão no mercado.

Isso, inclusive, tem sido sempre ressaltado pelo Fundo de Investimento Direto Russo (RDIF), o responsável pela comercialização da vacina a nível mundial e criação de parcerias globais para distribuição e produção do fármaco.

Os cientistas russos e dirigentes do Fundo também já deixaram claro que a vacinação não representa nenhum risco para pessoas com mais de 60 anos. No começo de dezembro, quando a vacinação iniciou na Rússia fora da fase de testes idosos ainda não estavam liberados para receber a Sputnik V, uma vez que ainda não se tinham dados finais dos estudos.

Porém, já na segunda quinzena de dezembro, foi dada a liberação e muitas pessoas desta faixa etária estão se vacinando.

Em Moscou, o processo de vacinação no início priorizou o pessoal sanitário e de forças de segurança. Depois, com o passar das semanas abriu-se novas categorias, como jornalistas, esportistas, funcionários de bares, restaurantes, agências de turismo, entre outros, até abrir de maneira geral.

Em breve, além da Sputnik V, outras duas vacinas russas deverão estar disponíveis para a população.

Uma delas, inclusive, já teve o registro aceito pelo Ministério de Saúde do país e irá para a fase 3 de testes clínicos. Trata-se da EpiVacCorona, elaborada pelo Centro Vektor. Nos estudos de fase 1 e 2, registrou 100% de eficiência. Ela é baseada numa tecnologia que usa pequenos fragmentos de proteínas virais sintetizadas.

Em breve, outra vacina pedirá o registro. Esta feita pelo Centro Nacional de Pesquisas Chumakova.

No país, por enquanto, não há a previsão de chegada de nenhuma vacina fabricada em outro país.

Porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov afirmou nesta quarta-feira que algumas regiões podem em algum momento ter escassez de vacinas, mas nada que preocupe. Em nenhum momento, a vacinação será interrompida.

“Estamos falando do processo crescente de produção dos dois componentes da vacina. Uma tarefa muito ambiciosa. E, claro, não se pode descartar que algures, dada a procura crescente desta vacina, possa haver dificuldades temporárias”, afirmou.

Até esta quarta-feira (20), a Rússia registrou um total de 3.027.316 casos de coronavírus e um total de 21.152 mortes. Foram realizados mais de 97,6 milhões de testes.

Com um total de 900.894 casos, a capital Moscou é a mais afetada. Porém, é a que iniciou a vacinação antes de todas.