Doc "Escola Base" liberta culpa de Valmir Salaro com aval de injustiçados

Valmir Salaro em reportagem da Escola Base em 1994 e de frente com injustiçada atualmente. Foto: Divulgação/Globoplay
Valmir Salaro em reportagem da Escola Base em 1994 e de frente com injustiçada atualmente. Foto: Divulgação/Globoplay

Resumo da notícia:

  • Doc "Escola Base" liberta culpa de repórter cara a cara com injustiçados

  • Produção revisita caso polêmico de 1994 com foco em jornalista da Globo

  • Repórter enfrenta erros do passado 28 anos depois do ocorrido

“Escola Base - Um Repórter Enfrenta o Passado” é a libertação que Valmir Salaro precisava após 28 anos engasgado com um erro. Precursor da mídia nas acusações errôneas de abuso sexual infantil contra donos de uma escola primária na capital paulista, o jornalista revisita os próprios demônios do caso da década de 1990. É o enfrentamento nu e cru de uma culpa carregada por dezenas de profissionais que agiram de forma incorreta.

Ele finalmente ouve, cara a cara, injustiçados de seu passado, engole as consequências drásticas na vida dos acusados e confessa se arrepender por não ter insistido em dar voz a eles. Ao longo do documentário, vemos como a visibilidade estrondosa do caso atropelou financeira e moralmente a vida dos dois casais, sócios do colégio, vítimas de falsos testemunhos. Mas não pense que encontrará uma narrativa com tom de vingança por parte dos prejudicados.

Imagem da Escola Base em 1994. Foto: Divulgação/Globoplay
Imagem da Escola Base em 1994. Foto: Divulgação/Globoplay

Embora mostre como a mídia foi longe com as reportagens que alimentavam a ideia de que eles seriam culpados, a produção busca ressaltar que Salaro foi o único até hoje a se desculpar e demonstrar publicamente arrependimento pela abordagem. Isso porque ele foi a ponta do grande iceberg que virou essa polêmica ao pontuar que agiu com base nas informações que a polícia e a Justiça entregavam - infelizmente muito equivocadas.

Logo, Paula Alvarenga, uma das donas da escola, e Ricardo, filho do casal Icushiro e Maria Aparecida Shimada, donos falecidos da escola, reconhecem a atitude e se mostram em paz em relação a qualquer sentimento de culpa sobre ele. Maurício Alvarenga, ex-marido de Paula e quarto injustiçado, também participou da produção e demonstrou o mesmo respeito pela figura humana e jornalística de Salaro mesmo machucado pelos traumas.

Valmir Salaro e Paula Alvarenga em
Valmir Salaro e Paula Alvarenga em "Escola Base - Um Repórter Enfrenta o Passado". Foto: Divulgação/Globo

"Valmir Salaro é um grande homem. Ele chegou num determinado momento, viu que estava errado, não conseguiu falar, foi se culpando cada vez mais e teve a coragem de chamar todo mundo, frente a frente, e pedir perdão”, reflete Ricardo Shimada em conversa com o Yahoo. "Senti muito que ele não quer morrer com essa culpa. Não quero que ele tenha essa culpa sem o meu perdão. Não vejo ele culpado. Para mim, é uma sucessão de erros", avalia Paula.

Focada na rendição de Salaro ao enfrentar o passado que o assombrou por tanto tempo, "Escola Base" ainda reserva espaço para uma homenagem póstuma ao casal Icushiro Shimada, que morreu em 2014, e Maria Aparecida Shimada, falecida em 2007. Com narrações do único herdeiro deles, a produção passa pela história de amor dos dois e não deixa de reforçar o quanto a condenação midiática foi traumatizante para os acusados.

Uma cena final deixa um recado extremamente valioso, mandado por quem teria mais motivos para condenar a imprensa e jamais perdoar os equívocos. Numa carta escrita em 1997, Maria Aparecida acalenta o coração de Salaro, que só tomou coragem de ler o texto nos dias de hoje. “O erro ou o engano dos outros talvez fossem nossos se estivéssemos nas circunstâncias dos outros”, pontua a injustiçada com uma reflexão que marca a complexidade do caso.

Valmir Salaro em
Valmir Salaro em "Escola Base - Um Repórter Enfrenta o Passado". Foto: Divulgação/Globoplay

Fica o vazio das vozes que todos mais queriam ouvir: das mães Lúcia Eiko Tanoue e Cléa Parente de Carvalho, que iniciaram as denúncias e persistiram nas falsas acusações, do delegado Edélcio Lemos, que insistiu na culpa dos acusados sem provas concretas, e dos médicos legistas que apontaram violência sexual na criança. "Acho que as pessoas realmente culpadas não quiseram falar pela consciência", aposta Ricardo Shimada.