Docentes dos 'Jardins' expõem contraste da pandemia e desencanto com a eleição

THAIZA PAULUZE E FÁBIO ZANINI
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - As aulas de capoeira e psicomotricidade do professor Nagem Figueiredo, 40, precisaram se adaptar ao online com o coronavírus. Agora, o exercício físico em grupo deu lugar às experimentações com itens que os alunos da educação infantil têm em casa, como uma colher ou um cadarço. Um pregador e uma sacolinha de plástico, por exemplo, podem virar um paraquedas. O educador, que trabalha em uma escola particular, defendia um retorno das aulas presenciais pós-férias de julho, mas mudou de ideia. "Agora já acho que não tem mais necessidade de voltar em novembro, porque está tudo remoto o ano inteiro", diz. Se há uma área da cidade em que a Covid-19 reforçou a desigualdade foi a educação. Para debater os efeitos no ensino e o que esperar do próximo prefeito, a Folha reuniu seis pessoas diretamente impactadas pela pandemia, de duas regiões bem distintas. Participaram da conversa por videochamada, realizada no último dia 16, 6 moradores dos "Jardins" --só que 3 deles de um Jardim localizado no extremo sul da cidade, o Jardim Ângela, e outros 3 do nobre Jardim Paulista. Eles relataram experiências bastante diferentes, especialmente quanto ao acesso à tecnologia, mas concordaram no ponto externado por Nagem: não é hora de voltar às aulas. Bianca Torres, 39, é diretora de uma escola da rede municipal e professora em um colégio estadual, ambos no Jardim Ângela. Ela diz que não houve quarentena para a maior parte dos pais de alunos. "Só parou nos bairros que tinham condição de parar. A gente percebeu o desespero de algumas mães, que não sabiam o que fazer", conta. Bianca diz que a volta é difícil na escola, que tem 1.091 alunos de 6 a 14 anos e EJA (Educação de Jovens e Adultos). "O retorno sempre foi muito complicado, mesmo a gente sabendo o prejuízo que nossos alunos tiveram, sem um pacote de NET, Vivo fibra ótica... Aqui não chega 'n' serviços", diz. Agora, se a prefeitura suspende as aulas por decreto, afirma, "também tem que ter peito de baixar decreto dizendo se volta ou não. Ao invés de jogar para as escolas e para os pais essa responsabilidade". Elaine dos Santos, 43, é mãe de um aluno de 15 anos de uma escola municipal, também no Jardim Ângela, e acompanha o outro lado da tela. "A criança não fica muito motivada. Como ele está no nono ano, a gente não sabe o que vai acontecer depois. Se ele vai ficar, para fazer direitinho, ou se vai para o primeiro ano [do ensino médio] sem saber quase nada", diz. Ela, que é autônoma, precisou contratar um pacote maior de internet. "Eu tinha uma internet de 15 megas, caía sempre. Agora, tenho de 300 [megas]. Passou de R$ 120 para R$ 160". A escola onde trabalha Nicole Viscaino, 34, uma particular no bairro da periferia, também não pretende abrir as portas antes da vacina. "Eu tive casos de crianças que pegaram Covid-19. Tem uma que está internada." "Agora em novembro que eles [a prefeitura] vão se posicionar, que é quando chegam as eleições. Querendo ou não, isso aí tem a ver", diz ela, que é da área administrativa. Do lado mais abastado da cidade, Nagem conta que seus alunos não tiveram dificuldade com conexão e que a escola em que trabalha voltou a ter atividades extracurriculares presenciais em 7 de outubro. "Minha realidade é outra, são alunos que têm condições. Eu entro aqui no aplicativo, mando e eles pegam os materiais", diz. Em casa, a esposa sai para trabalhar, ele dá aulas pelo computador, o filho mais velho também estuda online e o menor "fica nas mãos de Deus e do [youtuber] Lucas Netto". Nicole também diz que o berçário fechou de vez durante a pandemia, e os profissionais foram dispensados. "Os pais diziam que ou eles pagavam uma pessoa para cuidar, ou pagavam a escola. E todos estão voltando a trabalhar", diz. Moradora do Jardim Paulista, Milana Lima dos Santos, 45, que leciona na graduação de engenharia da USP, conta que a instituição forneceu notebooks e modens para alunos com dificuldade de acesso --uma minoria. "A gente está se programando para terminar, entre aspas, o semestre o mais normal possível, do jeito que a gente começou", diz ela. A professora Maria Inês, 62, moradora da avenida Paulista, ensina Libras para alunos surdos há quatro décadas. E a distância também foi o que mais pesou. Ela mora na avenida Paulista e dá aulas em uma escola filantrópica na Vila Mariana, que recebe crianças e adolescentes de toda a capital e da Grande São Paulo. "É uma população carente, de vulnerabilidade. Muitos deles não têm conseguido acesso às atividades. Mas também é um risco pegar condução. Eles vêm de muito longe. Então só depois da vacina", afirma. Um tema comum no grupo é a sensação de angústia em não saber se os alunos estão aprendendo. Também há incômodo com o aumento da carga de trabalho e perda de renda. Bianca diz que professores tiveram de tirar do bolso recursos para conseguir dar as aulas online, como comprar notebook, impressora ou contratar internet mais rápida. Mas incomodam também as críticas ao trabalho das escolas públicas e à formação dos educadores da rede. "Você não entra no pronto socorro e fala pro médico como trabalhar. Mas todo mundo entra na escola e diz como a gente tem que trabalhar", conta. A carga horária também é o que mais aflige Nagem. "Para conseguir ter uma boa renda no fim do mês, a gente precisa sobrecarregar. Uma escola não supre. Saio de uma e vou para outra", conta ele, que ainda faz trabalho voluntário ensinando a arte marcial a jovens de uma comunidade próxima de onde vive. As professoras da escola onde Nicole trabalha tiveram crises de ansiedade. "Uma foi até parar no hospital, está tomando medicação porque acha que não está chegando o conteúdo que ela gostaria de passar." Elaine critica os políticos. "Eles não ouvem os pais, não ouvem os professores, as pessoas que estão na linha de frente. Só querem fazer o que acham que é bom para eles, para a prefeitura, para o governador." Já Inês se preocupa com os alunos de Libras em casa. "Por vídeo você não vê a reação do aluno, não sei se ele está entendendo, se tem dúvida. A gente não sabe de que jeito essas crianças vão voltar", conta. Outro ponto une o grupo: a maioria ainda não sabe em quem vai votar para prefeito e critica os candidatos por não colocarem a educação como prioridade. "Ainda estou tomando minha decisão", diz Milana, para quem vai ser difícil usar a educação como parâmetro para a escolha. "Espero que os educadores sejam ouvidos e as particularidades de cada região possam ser escutadas pelos gestores para que o trabalho sério, de quem quer fazer, não seja atrapalhado", afirma a professora universitária. Elaine pelo menos sabe em quem não vai votar: o atual prefeito, Bruno Covas (PSDB). "Só fez atrapalhar e confundir a mente de todo mundo. [No meio da pandemia] tirou recursos das escolas. Está difícil para os pais ver uma luz no fim do túnel para a educação municipal", queixa-se. Nicole também está na dúvida e "tomando cuidado, porque a maioria fala e depois não cumpre". Ela critica o vai e vem das decisões do tucano para a volta às aulas na capital. "Ninguém pensou na escola, na família, no profissional atrás da tela. Foi um 'se vira'. [E agora] é um retorna, não retorna, mexendo com a cabeça dos pais e das crianças, que já ficam atentam às sextas-feiras para saber se volta ou não", diz ela, que também se preocupa com inclusão. "Tenho uma criança de sete anos autista e um de seis meses com síndrome de Down. Sei que quando for procurar escola, vou ter dificuldades". Maria Inês vai apostar na familiaridade. "Escolhi o candidato que já conheço há muito tempo, porque era subprefeito da Sé e vizinho nosso, ele não deixou o poder subir à cabeça e atendeu várias das nossas reivindicações", conta, referindo-se a Andrea Matarazzo (PSD). Para a Câmara Municipal, é a cunhada a escolhida. Bianca prefere não divulgar seu voto. "Acho que ela [Maria Inês] está certa, tem que pensar num candidato que olhe pras especificidades dela, como a gente [deve escolher alguém] que olhe para nossa região, conheça o que é o Ângela. A realidade do Bexiga, da Vila Clementino, da Vila Mariana é outra." "A gente precisa de um [candidato] que conheça a zona sul, que venha aqui, que seja educador. Não dá para votar em empresário que não entende nada de educação." Já Nagem prefere se abster da responsabilidade e até se negou a divulgar a candidatura de um colega, professor de capoeira, que está na disputa para vereador. "Há quatro eleições não voto em nenhum candidato. Para nada. Vou e dou branco em tudo", diz. "Alguns até entram por uma boa causa, mas, chegando lá, todo mundo é corrompido." Independente do número a apertar, todos devem ir às urnas, mesmo com os riscos da pandemia. "Eu, como sou senhora, vou bem cedo", ri a veterana do grupo, Maria Inês.