Documentário “2.000 Mules” não prova que houve fraude nas eleições norte-americanas em 2020

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Dezenas de usuários nas redes sociais asseguram que o documentário “2000 Mules”, lançado no início de maio de 2022, demonstra que houve uma operação maciça de roubo de votos durante as eleições de 2020 nos Estados Unidos, nas quais o candidato democrata Joe Biden venceu o ex-presidente Donald Trump, republicano. Mas especialistas afirmam que as provas citadas no filme não respaldam essa alegação. Além disso, dezenas de juízes descartaram a versão de fraude e existem várias evidências de que a contagem de votos foi a mais segura da história das eleições presidenciais no país.

“FRAUDE COMPROVADA Documentário ‘2.000 Mules’ revela o rastreamento de duas mil pessoas que fraudaram milhões de votos pelo correio na eleição de Joe Biden”, diz uma das publicações compartilhadas no Facebook (1, 2).

Captura de tela feita em 15 de junho de 2022 de uma publicação no Facebook ( . / )

O documentário, produzido pelo comentarista político e diretor Dinesh D'Souza, repercutiu em conteúdos similares difundidos no Instagram, Twitter e Telegram, assim como em publicações em inglês, espanhol e francês, dentre outros idiomas.

O filme estreou nos cinemas norte-americanos em 2 de maio de 2022, e ao final de um mês havia arrecadado mais de 1,2 milhão de dólares.

No último 3 de maio, o ex-presidente Donald Trump disse em um comunicado que “2.000 Mules” demonstra que houve “uma operação maciça de coleta ilegal de votos” e que “os que roubaram as eleições em 2020 tentarão fazê-lo novamente em 2022”.

O documentário

Com uma hora e meia de duração, “2.000 Mules” impulsiona uma teoria conspiratória amplamente desacreditada para reforçar a versão defendida por Donald Trump de que sua derrota para Joe Biden se deveu a uma fraude eleitoral.

Essa teoria envolve a prática eleitoral de coleta de cédulas na votação por correio, permitida no país. Essa ação permite que terceiros (trabalhadores de campanha, voluntários e outros) coletem os votos dos eleitores e os depositem nas caixas de correio ou os entreguem aos funcionários nos locais de votação para apuração.

O filme sugere que milhares de pessoas, conhecidas como “mulas”, foram pagas para colocarem votos ilegais nessas caixas de votação de estados-pêndulo como Geórgia, Pensilvânia e Wisconsin. Além disso, alega que dados de câmeras de vigilância e geolocalização de celulares recolhidos pelo True the Vote, um grupo conservador de monitoramento de votos com sede no Texas, demonstram que houve uma fraude organizada.

“Eles fraudaram e roubaram as eleições presidenciais de 2020”, disse o diretor D'Souza, que em 2014 se declarou culpado de violar a lei federal de campanhas eleitorais, ao realizar contribuições ilegais para uma campanha do Senado dos Estados Unidos em nome de outras pessoas. Por esse delito, Trump lhe outorgou o perdão presidencial em 2018.

A teoria da coleta de votos fraudulenta foi amplamente citada pelos partidários de Trump nas redes sociais após a sua derrota em 2020. Embora casos isolados de suspeita de fraude tenham sido detectados nos 18 meses após as eleições de novembro daquele ano, nenhum tribunal apoiou a alegação de que tais casos tenham afetado materialmente o resultado das eleições.

“As supostas provas do filme são meramente circunstanciais e os cineastas tiraram conclusões extravagantes sem justificativas suficientes”, disse à AFP Barry Burden, diretor do Centro de Investigação Eleitoral da Universidade de Wisconsin-Madison.

A AFP entrou em contato com D’Souza, com a True the Vote e com o escritório de Trump para solicitar comentários. Até o momento da publicação desta verificação, não obteve resposta.

Os supostos dados de celulares não provam fraude

No documentário, a presidente da True the Vote, Catherine Engelbrecht, e Gregg Phillips - que por meio do Twitter difundiu afirmações infundadas de fraude eleitoral após as eleições de 2016 -, afirmam ter obtido dados de geolocalização que respaldam a acusação de que houve uma coleta ilegal de votos em 2020.

Quando os usuários de celular habilitam o compartilhamento de localização em seus smartphones, alguns aplicativos compartilham ou vendem esses dados a outras empresas. A True the Vote e seus contratados supostamente compraram esses dados em vários estados-pêndulo antes e depois das eleições presidenciais nos Estados Unidos.

Os próprios provedores de rede também venderam dados de localização anônimos de seus clientes, o que em algumas ocasiões resultou em multas federais. Especialistas disseram à AFP que não está claro até que ponto essas vendas continuam, mas que existe um mercado legal para dados de geolocalização de usuários de telefones celulares.

“Essas empresas não vendem os dados diretamente a pessoas e sim, geralmente, a terceiros [agregadores de dados], disse Jason Hong, professor do Instituto de Interação Humano-Computador da Universidade de Carnegie Mellon. “Também existem outras empresas que coletam dados dos aplicativos de smartphone e os vendem como, por exemplo, o Grindr”.

Um trabalhador eleitoral ajuda um eleitor em Las Vegas, 3 de novembro de 2020 ( AFP / Ronda Churchill)

Engelbrecht e Phillips dizem no filme que seus dados mostram que mais de 2.000 pessoas visitaram múltiplas caixas de coleta de votos por correio e organizações sem fins lucrativos em cidades como Atlanta e Filadélfia. Se um usuário de celular se aproximava de uma caixa de votação mais de dez vezes e de uma organização sem fins lucrativos mais de cinco vezes entre 1º de outubro de 2020 e o dia das eleições, 3 de novembro, era considerado uma “mula”.

Baseando-se em uma entrevista com uma denunciante não identificada do Arizona, Engelbrecht e Phillips afirmam que as organizações sem fins lucrativos pagaram essas “mulas” para que coletassem e entregassem votos fraudulentos nas caixas de votação. Mas a suposta denunciante, identificada no filme como uma recepcionista, não diz quem pagou nem quanto, e especialistas consultados pela AFP indicaram que não há nada que sustente a afirmação.

“Os dados de rastreamento somente podem estabelecer que uma pessoa esteve a menos de 30 metros de um determinado lugar”, apontou Charles Stewart, professor de ciências políticas do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT). “Não se pode estabelecer com precisão onde estava a pessoa e nem, o que é mais importante, o que estava fazendo”.

Por exemplo, alguém que supostamente visitou várias urnas poderia ser um entregador, um taxista ou um carteiro da região. Burden disse que os funcionários eleitorais também teriam razões legítimas para visitar as caixas de votação, que contam com vários mecanismos de segurança. Além disso, as caixas de votação são intencionalmente colocadas em locais de tráfego intenso, pois isso estimula a participação eleitoral. Diversos cidadãos que se locomovem a pé, portanto, passam por elas em sua rotina diária.

“Muitos dos dados das torres de telefonia móvel não utilizam GPS”, disse Hong. “Dessa forma, você terá muitos dados falsos se está tentando fazer estimativas precisas sobre o comportamento”.

Em setembro de 2021, o Gabinete de Investigação da Geórgia disse em uma carta que os dados de geolocalização de celulares fornecidos pela True the Vote não eram evidências de coleta ilegal de votos no estado.

“Os dados, ainda que curiosos, não alcançam o nível de causa provável de que se tenha cometido um delito”, disse o diretor do GBI, Vic Reynolds, como informado pelo meio de comunicação estadual Georgia Public Broadcasting.

Duas mulheres posam junto a uma das caixas de votação oficial do condado de Orange, na Califórnia, em 13 de outubro de 2020 ( AFP / Frederic J. Brown)

A coleta de votos é legal em muitos estados

Além dos dados de geolocalização dos telefones celulares, “2.000 Mules” mostra filmagens de câmeras de vigilância das caixas de votação nos estados-pêndulo. Engelbrecht diz no filme que a True the Vote obteve as imagens por meio de solicitações de informação pública.

Os vídeos parecem mostrar pessoas que depositam vários envelopes nas caixas de votação por correio, às vezes tarde da noite. No entanto, nenhum dos registros mostra indivíduos depositando envelopes mais de uma vez e não provam que os eleitores fazem parte de um plano de coleta ilegal de votos.

Em 30 estados dos Estados Unidos, quando um eleitor não pode ir pessoalmente a um centro de votação ou ao correio, pode confiar seu voto a um terceiro. No Arizona, na Geórgia e em Michigan, estados mencionados em “2.000 Mules”, é permitido explicitamente “que alguém que não seja o eleitor deposite uma cédula de votação preenchida em nome de outro eleitor”.

Muitos desses estados permitem que isso seja feito apenas por um familiar, um membro da mesma casa ou um cuidador, ou impõem limites à quantidade de cédulas que podem ser coletadas de uma vez. No entanto, outros estados não têm restrições.

Os norte-americanos votam por correio desde a Guerra Civil, quando foi permitido que os soldados emitissem seu voto a partir do campo de batalha.

Na década de 1980, a Califórnia se tornou o primeiro estado que permitiu aos eleitores solicitar o voto por correio por qualquer motivo.

A pandemia de covid-19 deu lugar a um aumento do uso de caixas de votação, mas muitos estados já utilizavam essas caixas e permitiam a coleta de votos há anos. Quase um em cada seis eleitores de todo o país utilizou as caixas de votação nas eleições de 2016.

Eleitores chegam à Academia de Idiomas Waddell em Charlotte, na Carolina do Norte, pouco depois da abertura das urnas em 3 de novembro de 2020 ( AFP / Grant Baldwin)

“Mesmo que existam vídeos de pessoas entregando várias cédulas, todos os estados têm exceções às suas leis de entrega”, indicou Charles Stewart. "Sem provas do contrário, o vídeo não estabelece nada."

Os funcionários eleitorais da Geórgia revisaram vários vídeos incluídos em “2.000 Mules”, de acordo com o veículo local Atlanta Journal-Constitution. O secretário de Estado, Brad Raffensperger, disse que, após uma investigação, foi possível corroborar que um dos vídeos do documentário mostrava um homem depositando cinco cédulas em seu nome e em nome de seus familiares.

A Agência de Cibersegurança e Segurança de Infraestruturas informou em um comunicado com data de novembro de 2020 que as eleições foram as “mais seguras da história dos Estados Unidos”. Desde então, foram reunidas diversas provas de que não houve uma fraude eleitoral generalizada.

Dezenas de ações de Trump e de seus aliados destinadas a anular as eleições fracassaram e a Suprema Corte dos EUA rejeitou vários casos que tentaram contestar os resultados em estados-pêndulo da disputa. Diversas auditorias e recontagens nesses estados, como Arizona, Geórgia, Michigan, Pensilvânia e Wisconsin reafirmaram a vitória do presidente Joe Biden.

Funcionários de ambos os partidos, incluindo o próprio procurador-geral de Trump, William Barr, rebateram repetidamente as denúncias de fraude generalizada.

“Eles dizem que houve cerca de '2.000 'mulas' - agentes de campo pagos para encher urnas", disse Douglas Jones, professor associado emérito do Departamento de Ciência da Computação da Universidade de Iowa. “As pequenas conspirações poderiam ser mantidas em segredo, mas com tantos participantes seria extraordinariamente difícil recrutar tantas pessoas sem que algumas delas gravassem todas as conversas e vazassem todos os detalhes criminosos da trama”.

O AFP Checamos já verificou outras alegações relacionadas às eleições presidenciais dos Estados Unidos de 2020.

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