Documentário destrincha importantes feitos da seleção feminina de basquete do Brasil

Eduardo Vanini
As diretoras Silvia e Helen

Há um provérbio árabe que diz: “Quem planta tâmaras não colhe tâmaras”. E o que isso tem a ver a com a história do basquete feminino brasileiro? Tudo. A atuação dos primeiros times da modalidade em jogos internacionais, a partir da década de 1960, enfrentou preconceitos de gênero e preparou o terreno para que o esporte rendesse frutos anos à frente, como a tão celebrada medalha de prata nas Olimpíadas de Atlanta, em 1996. Por isso, o ditado é a premissa do documentário “Mulheres à cesta”, dirigido pela carioca Hellen Suque e a mineira Silvia Spolidoro, que será lançado no primeiro semestre de 2020.

Inspiradas pelo livro homônimo de Claudia Guedes, as diretoras gravaram depoimentos de jogadoras e treinadores para destrinchar marcos como os dois amistosos entre Brasil e Checoslováquia, em 1965, responsáveis pela entrada do basquete feminino nas Olimpíadas. “Até então, médicos diziam que as mulheres não podiam participar de jogos competitivos, porque corriam o risco de ficar ‘histéricas’. Elas poderiam brigar, morder, segundo eles”, conta Hellen. “As jogadoras enfrentaram preconceitos, numa época em que mulher tinha que ser mãe. Eram chamadas de mulher macho, paraíba... E a subversão foi continuar jogando ”, completa Silvia.

Foi assim que elas conquistaram feitos inéditos, como o bronze no Mundial de 1971, primeira atuação do time a ser televisionada, alcançando o reconhecimento do público. Também entra nessa conta a vitória contra Cuba em plena Havana, que garantiu o ouro nos Jogos Pan-Americanos de 1991, sob as barbas de Fidel Castro.

No filme, tudo isso é costurado pelas memórias de atletas de diferentes tempos, como Norminha (estrela de 1971) e Hortência (líder das Olimpíadas de 1996), e o elo entre elas. “Embora sejam de gerações diferentes, as duas treinaram juntas. A Hortência tinha tanto respeito por Norminha, que chegava mais cedo para pegar a melhor bola e, depois, passá-la à colega”, diz Hellen.

O doc traz, ainda, relatos de personalidades como a cantora Simone. Ela só não foi para o Mundial de 1971 porque se lesionou. “Foi com elas que começou a cantar. Eram uma grande família”, comenta Hellen, ao ilustrar a união que ia do perrengue ao sucesso. “Certa vez, o time ficou num hotel em Portugal onde o banho era pago separadamente. Como o dinheiro era pouco, cinco jogadoras precisaram dividi-lo, usando uma única toalha”, conta Silvia, dando pistas de que o filme promete surpreender até mesmo o público menos familiarizado com esporte.