Documentarista citada por Cassia Kis em live diz que proposta para levar série ao teatro não foi à frente

Durante a live entre a atriz Cassia Kis e a jornalista Leda Nagle, em que a atriz de 64 anos deu declarações homofóbicas e defendeu teses de extrema-direita, como a de que crianças estariam se beijando em "beijódromos" nas escolas, chamou atenção uma citação à série documental "O povo brasileiro" (2000), com depoimentos do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) e de outras personalidades, como Chico Buarque, Gilberto Gil e Tom Zé.

A série documental é dirigida pela socióloga, cineasta e produtora cultural Isa Grinspum Ferraz, que é sobrinha do ex-deputado comunista Carlos Marighella, assassinado pela ditadura militar, e que chegou a trabalhar com Darcy Ribeiro. Atualmente uma das curadoras do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, Isa tem entre suas obras documentais o longa "Marighella" (2012), disponível no streaming da Netflix e do Telecine.

Quem conhece a carreira de Isa e acompanha a guinada à direita de Cassia Kis ficou sem entender a citação. Na live, a atriz diz ter conhecido o conteúdo da produtora Brasil Paralelo durante a pandemia, através do padre Paulo Ricardo, de Cuiabá, e que então "estava descobrindo a direita (...) descobrindo que era eu conservadora e a verdade." Na citação ao documentário, Cassia diz que a cineasta é "de esquerda", mas comenta que é um "projeto belíssimo" e que planejou transformá-lo numa peça teatral.

— Tem um documentário que eu adoro, chamado "O povo brasileiro", feito em cima do livro do Darcy Ribeiro, que era um visionário (...). Vi aquele trabalho deslumbrante e fui atrás da diretora (Isa), um belo dia estava na casa dela falando que queria transformar o filme em uma peça de teatro, com direção de Ulysses Cruz. Queria levar para o palco para resgatar o amor pelo Brasil, que este governo (Bolsonaro) está trazendo de volta, pelo hino, pela bandeira — contou Cassia na live.

Surpresa pela citação, Isa Ferraz confirmou que Cassia a procurou com este projeto, mas antes da pandemia (período a que a atriz relaciona sua aproximação com a direita). A cineasta diz que o projeto não foi à frente.

— Fiquei surpresa com essa lembrança agora, porque isso foi há muito tempo. Ela conseguiu meu e-mail e foi à minha casa, dizendo que gostava da série e tinha a ideia de montar uma peça. Depois fui ver uma peça dela sobre o Manoel de Barros (“Meu quintal é maior do que o mundo", em 2019), mas esse projeto nunca andou de verdade. Depois veio a pandemia e não nos falamos mais — conta Isa.

A cineasta e produtora cultural vai inaugurar um novo projeto relacionado a Darcy Ribeiro (cujo centenário foi celebrado no último dia 26), com uma exposição no Sesc 24 de Maio, em São Paulo, chamada "Utopia brasileira".

— Trabalhei anos com o Darcy e pude fazer um mergulho nos arquivos dele para a exposição. É importante trazer esse pensamento vivo e potente, sobretudo neste momento, em que ele é atacado pela direita e questionado dentro da academia, às vezes por uma revisão mais apressada de sua obra. Muita coisa pode ser revista hoje, mas não podemos jogar um monte de outros intérpretes do Brasil no lixo.

TV Globo se posicionou contra declarações

Na live, Cassia, que está no ar como Cidália da novela das 21h, "Travessia", disse que alguns tipos de relações estão “destruindo a família”.

— Não existe mais o homem e a mulher, mas mulher com mulher e homem com homem. Essa ideologia de gênero que já está nas escolas. Eu recebo as imagens inacreditáveis de crianças de 6, 7 anos se beijando, onde há inclusive um espaço chamado 'beijódromo' ou algo assim.

Ela não apresentou provas de seu relato e continuou criticando relacionamentos homoafetivos:

— O que está por trás disso? Destruir a família, sem dúvida nenhuma. E não só. Destruir a vida humana, na verdade, porque que eu saiba homem com homem não dá filho, mulher com mulher também não dá filho. Como a gente vai fazer?

Cassia é católica e já havia declarado apoio à reeleição de Jair Bolsonaro. Após sua fala, o nome "Cassia Kis" chegou a ser o 11º assunto mais comentado do Twitter no país na manhã desta quinta-feira (27).

Na mesma conversa, a atriz afirmou que a pandemia a ajudou a se descobrir conservadora e de direita:

— Eu estou com a vida cheia de Deus muito recente. Essa pandemia foi maravilhosa pra mim, ela me trouxe a verdade. Primeiro, através de um sacerdote incrível, e eu conheci o Brasil Paralelo. Eu fiquei assustada porque eram de direita. Não que eu fosse de esquerda, porque eu já tinha me divorciado da esquerda lá atrás, em 2014. Mas ouvi falar do Olavo de Carvalho e saí fora do negócio. Mas uma coisa vai levando a outra, evidente. Eu comecei a ouvir o padre Paulo Ricardo, que é esse sacerdote que fica em Cuiabá (… ) Quando eu vi estava descobrindo a direita, eu estava descobrindo que era eu conservadora e a verdade.