Documentarista diagnosticado com Covid-19 na França ainda relata sintomas na terceira semana após contágio: 'Cansaço e dores'

Johanns Eller
O documentarista Éric Baudelaire brinca com filho de dois anos durante quarentena domiciliar no seu apartamento em Paris, França

RIO — Tudo começou com uma febre acompanhada de dores profundas no corpo. Na manhã do segundo dia de quarentena nacional na França, em vigor desde o último dia 17, o artista plástico e documentarista franco-americano Éric Baudelaire, de 47 anos, ligou para seu clínico geral temendo que tivesse contraído o novo coronavírus. O país já se encontrava em situação de transmissão comunitária, quando não é mais possível rastrear a origem dos contágios.

O médico o consultou no dia seguinte e o alertou para a indisponibilidade de testes no país. Com os sintomas compatíveis com a Covid-19, Baudelaire foi orientado a ficar em quarentena dentro de casa com a esposa e o filho de dois anos, que também manifestaram sintomas.

Orientado pelo clínico, não procurou um hospital porque seus sintomas não eram agudos. A indicação oficial do governo francês é evitar as salas de emergência lotadas caso os sintomas sejam leves – assim como no Brasil. Sem testes suficientes para a população do país de 65 milhões de pessoas, a saída indicada é o isolamento domiciliar. Mesmo sem um diagnóstico, Baudelaire encontrou nas redes sociais, que têm sido canais para a disseminação de boatos e informações falsas sobre a pandemia, uma grata fonte de informações.

Conectado com amigos de vários países no Facebook e no Instagram, Baudelaire trocou experiências com conhecidos que também contraíram a Covid-19 ou manifestaram sintomas. Entre os pontos em comum estava a perda do olfato, um reflexo que passou a ser encarado como um possível sintoma do coronavírus apenas recentemente, após estudos de especialistas em otorrinolaringolagia.

— Eu deduzi que estava com o coronavírus. Acordei com febre e com dores no corpo, principalmente nas juntas. As dores eram muito profundas. Eu também perdi completamente o olfato – relata. - O interessante é que, até duas semanas atrás, esse não era um sintoma tipicamente relacionado à Covid-19. Meu médico achou que isso estava relacionado a alguma outra coisa. Dias depois, relatei tudo nas minhas redes sociais e isso foi muito útil para compreender a doença.

Doença ainda desconhecida

Para o artista e documentarista, a apreensão e a busca por respostas são reflexos de uma pandemia na qual pouco se conhece a respeito da doença. Pesquisadores de todo o mundo trabalham dia e noite para estudarem os padrões de comportamento do Sars-CoV-2, bem como suas sequelas. No princípio, a Covid-19 foi um desafio até mesmo na atenção básica.

— Eu acredito que a maior parte dos clínicos gerais que não estão na sala de emergência não sabem o suficiente sobre o vírus quando os pacientes começaram a aparecer. Quando comecei a trocar experiências com diferentes pessoas nas redes, dezenas de amigos e colegas de amigos começaram a descrever como estavam sentindo. Comecei a perceber que todos faziam parte da mesma situação, e, embora as reações individuais possam variar, há quatro ou cinco sintomas que se repetem.

Na sua avaliação, a própria cobertura midiática da doença na França deixou de lado aspectos básicos de prevenção e diagnóstico, priorizando o contexto global da pandemia em um momento na qual a Covid-19 já era uma realidade no território francês. Por isso, os relatos nas redes foram muito importantes, ainda que acompanhados da supervisão médica.

Sua esposa apresentou os mesmos sintomas, mas de maneira mais branda. O filho, de dois anos, também apresentou febre, mas, como não há testes, não é possível atestar se a criança contraiu a doença. Para tratar os sintomas, eles foram orientados a tomar paracetamol para combater os sintomas gripais e a só buscar os serviços de emergência caso manifestassem síndrome aguda respiratória grave.

Próximo de completar 21 dias com sintomas, a experiência tem sido similar à de uma gripe forte, mas relatos de piora no estágio final da doença têm mantido Baudelaire alerta.

— Tenho amigos nos Estados Unidos com coronavírus e que alertam para uma deterioração do quadro de saúde mesmo no fim da terceira semana. Você não sabe quando estará completamente curado — relata.

Volta à vida normal

Apesar da experiência do confinamento e da seriedade da doença, Baudelaire conta, em tom de alívio, que o filho de dois anos tem lidado bem com as circunstâncias da pandemia:

— Ele está basicamente muito empolgado com o confinamento. Ele convive diariamente com os pais e está sem aulas, então, para ele, tem sido um ótimo momento.

A recuperação não ocorre da mesma maneira para todos, na percepção do documentarista enquanto paciente. A esposa já se recuperou dos sintomas e voltou a trabalhar parcialmente, mas ele ainda sente cansaço e dores, mesmo próximo do fim da terceira semana.

Segundo a Universidade Johns Hopkins (EUA), a França registrou até esta sexta-feira quase 60 mil casos e mais de 5.300 mortes. O país está paralisado desde o dia 17, quando o presidente Emmanuel Macron declarou guerra ao coronavírus. Os dados, no entanto, estão potencialmente defasados. Além do déficit de testes, o país só registra óbitos ocorridos em hospitais e, até recentemente, não contabilizada mortes em asilos, que tem sido devastados pela epidemia.

Baudelaire defende que, além de prover mais estrutura para a testagem em massa da população — estratégia adotada por Coreia do Sul, China e Japão, entre outros países —, o governo francês deveria investir em testes antígenos, capazes de identificar quem está imune ao Covid-19 e, portanto, já contraiu a doença, ainda que de maneira assintomatica.

Para o documentarista, essa poderia ser uma das saídas para começar a construir um cenário pós-quarentena, algo que já é discutido em diferentes países, ainda que muitos cenários sejam incertos. Na Itália, por exemplo, o confinamento foi estendido até maio.

—Acredito que ainda mais importante do que ampliar as estruturas para testagem seria identificar quem está imune. Assim, poderíamos distribuir certificados de imunização para quem estiver curado. É uma saída para trazer o país de volta aos trilhos — opina Baudelaire. — Virtualmente não há qualquer atividade econômica na França há duas semanas. A complicação agora é pensar como sairemos do confinamento. Acho que liberar aqueles imunizados seria uma saída inteligente, mas nã creio que haja estoque destes testes no país. A Alemanha já trabalha com essa hipótese.