Documento na CPI da Covid aponta troca de vacinas por ouro em terras indígenas; relatório acusa distribuição de cloroquina

·5 minuto de leitura
MARICA, BRAZIL - JANUARY 20: A Guarani indigenous man poses for a photo after he received a CoronaVac vaccination shot during a Covid-19 vaccination campaign at the Aldeia Mata Verde Bonita (Tekoa Ka'Aguy Ovy Porã) on January 20, 2021 in Marica, Brazil. The state of Rio de Janeiro will immunize with the first vaccine shipment Health workers, institutionalized people aged 60 or over, Indigenous and quilombolas on their own land and institutionalized people with disabilities. The CoronaVac vaccine was developed by the Chinese laboratory Sinovac in partnership with the Butantan Institute. (Photo by Buda Mendes/Getty Images)
A coordenadora do grupo, deputada Joenia Wapichana (Rede-RR), encaminhou ao menos 21 ofícios a autoridades dos ministérios da Saúde, da Justiça e Segurança Pública e também ao Judiciário (Foto: Buda Mendes/Getty Images)
  • Documento na CPI da Covid aponta troca de vacinas por ouro em terras indígenas; ao menos sete denúncias diferentes foram citadas

  • Entre elas, relatório denuncia que indígenas receberam cloroquina e tiveram dificuldades para acessar leitos de UTI

  • Um dos pontos mais criticados nas denúncias enviadas à CPI foi a discrepância dos dados oficiais divulgados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) sobre infecção e morte de indígenas

Um documento enviado à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid reúne denúncias que apontam que vacinas contra o coronavírus destinadas a povos indígenas teriam sido desviadas para garimpeiros em troca de ouro. 

De acordo com o jornal Folha de S. Paulo, o relatório, enviado pela Frente Parlamentar Mista em Defesa dos Povos Indígenas, também acusa que indígenas receberam cloroquina e tiveram dificuldades para acessar leitos de Unidade Terapia Intensiva (UTI). Ao menos sete denúncias diferentes foram citadas no documento. 

Leia também

No mês passado, o ex-ministro da Saúde Nelson Teich afirmou em depoimento à CPI da Covid, que era contra a distribuição de cloroquina nas aldeias indígenas.

Criada em abril de 2019, a Frente Parlamentar na Câmara tem o objetivo de defender os direitos indígenas. Desde março do ano passado, a frente vem tratando sobre o impacto da pandemia e as medidas de enfrentamento entre os indígenas.

A coordenadora do grupo, deputada Joenia Wapichana (Rede-RR), encaminhou ao menos 21 ofícios a autoridades dos ministérios da Saúde, da Justiça e Segurança Pública e também ao Judiciário.

Em um ofício encaminhado aos ministros da Saúde, Marcelo Queiroga, e o da Justiça, Anderson Torres, a frente dizia que vacinas destinadas aos indígenas estavam sendo compradas por garimpeiros em troca de ouro. 

"É comum a queixa por parte dos yanomami de que os materiais e medicamentos destinados à saúde indígena estão sendo desviados para atendimento aos garimpeiros, em prejuízo dos indígenas", disse Dário Vitório Kopenawa Yanomami, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami.

Um ofício encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR) revelou a influência negativa que missionários estavam exercendo sobre comunidades indígenas, infundindo temor por meio da propagação de fake news sobre a vacinação contra a Covid-19.

"A campanha de desinformação seria difundida via áudios e vídeos pelo celular, pelo sistema de radiofonia entre as aldeias e por cultos presenciais. No estado do Maranhão a maior influência seria da igreja Assembleia de Deus."

MARICA, BRAZIL - JANUARY 20: Guarani indigenous chief Jurema Nunes (R), 39, leads a celebration ceremony during a Covid-19 vaccination campaign at the Aldeia Mata Verde Bonita (Tekoa Ka'Aguy Ovy Porã) on January 20, 2021 in Marica, Brazil. The state of Rio de Janeiro will immunize with the first vaccine shipment Health workers, institutionalized people aged 60 or over, Indigenous and quilombolas on their own land and institutionalized people with disabilities. The CoronaVac vaccine was developed by the Chinese laboratory Sinovac in partnership with the Butantan Institute. (Photo by Buda Mendes/Getty Images)
Outro ofício revela que houve falta de acesso à medicação adequada, como bloqueadores musculares. Isso teria levado à morte de índios Cinta Larga, que não aguentaram o processo de intubação (Foto: Buda Mendes/Getty Images)

Distribuição de cloroquina a povos indígenas

Outro documento encaminhado pelo Ministério da Saúde para a coordenadora da frente, no dia 15 de setembro, mostra que a pasta distribuiu pelo menos 265 mil comprimidos de medicamentos sem eficácia contra a Covid-19 aos indígenas em cinco estados, com o propósito de tratar infecções pelo coronavírus. São eles:

  • cloroquina

  • azitromicina

  • ivermectina 

Segundo a Folha, a pasta relatava que o Distrito Sanitário Especial Indígena de Vilhena, em Rondônia, tinha realizado a contratação de profissionais para ajudar na identificação precoce dos sintomas e que haviam sido montados kit's Covid (azitromicina e ivermectina) para suprir a necessidade da demanda de casos sintomáticos nas aldeias.

Outro ofício revela que houve falta de acesso à medicação adequada, como bloqueadores musculares. Isso teria levado à morte de índios Cinta Larga, que não aguentaram o processo de intubação.

No documento, a coordenadora pediu "urgência para a gravidade que o caso dos Cinta Larga e demais povos de Rondônia e Mato Grosso requer e que sejam tomadas as demais medidas ensejadas, pois vidas indígenas importam". De acordo com o relatório, 10 índios Cinta Larga haviam morrido também por falta de leitos de UTI.

Defesa distribuiu quase 3 milhões de comprimidos de cloroquina

No mês passado, o Ministério da Defesa informou à CPI da Covid que efetuou a distribuição de 2,9 milhões de comprimidos de cloroquina para estados e municípios e hospitais militares sob orientação do Ministério da Saúde. Os envios foram efetuados de abril a agosto de 2020, segundo a pasta.

Essa operação ocorreu "conforme pautas definidas pelo Ministério da Saúde", afirmou a Defesa. A produção do medicamento, cuja ineficácia contra o coronavírus é comprovada, é um dos temas investigados pela comissão, que ouve, pela segunda vez nesta terça-feira (8), o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga.

CPI da Covid no Senado
CPI da Covid no Senado

Discrepância dos dados oficiais sobre a Covid

Um dos pontos mais criticados nas denúncias enviadas à CPI foi a discrepância dos dados oficiais divulgados pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) sobre infecção e morte de indígenas em relação aos dados contabilizados pelo Comitê Nacional da Vida e Memória Indígena. O primeiro relata 673 óbitos, enquanto o segundo, 1.072 mortes.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que 81% da população indígena recebeu a primeira dose de vacina Covid-19 e 70% a segunda dose. Disse que as ações de vacinação continuam em todos os distritos e que, desde o início da pandemia, trabalha em estratégias de proteção, prevenção, diagnóstico e tratamento da Covid-19. 

"A pasta criou Equipes de Resposta Rápida, compostas por médico, enfermeiro e técnico de enfermagem, que permanecem de prontidão nos municípios que sediam os 34 Distritos Sanitários Espaciais Indígenas, para atender de imediato as aldeias que apresentarem surto da doença."

A presidente da frente parlamentar afirmou ao jornal que espera que as denúncias sejam apuradas pela CPI.

"São documentos que a Frente Parlamentar Indígena recebeu e apresentados nas reuniões, enviados com o objetivo de contribuir com o andamento da CPI, para que investigue algumas questões que foram apontadas durante as reuniões", disse.