Dodge denuncia fraude em investigação sobre Marielle

FÁBIO FABRINI
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 12.08.2019: A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, em sessão no Senado. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Em seu último dia no cargo, a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, denunciou ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) suspeitos de fraudar as investigações sobre o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista dela, Anderson Gomes.

Entre os implicados está o conselheiro afastado do TCE-RJ (Tribunal de Contas do Rio de Janeiro) Domingos Brazão, ex-deputado estadual pelo MDB.

Dodge pediu ainda a abertura de inquérito para apurar se o conselheiro foi o mandante do assassinato, cujos executores já foram apontados pela Polícia Civil do Rio.

Outro pedido foi o de que as investigações sobre a encomenda do duplo homicídio sejam federalizadas.

Para a procuradora-geral, que encerra seu mandato à meia-noite desta terça (17), ainda há uma imensa dificuldade em investigar e elucidar quem são os mandantes.

Além de Brazão, segundo Dodge, estão entre os acusados um funcionário do gabinete dele, uma advogada e um delegado da Polícia Federal aposentado.

Eles teriam atuado para que a linha inicial da investigação fosse desvirtuada, levando a Polícia Civil a suspeitos que não eram os verdadeiros autores do crime.

"Eles todos participaram de uma encenação", afirmou Dodge. "Domingos, valendo-se do cargo, e da estrutura do TCE do Rio, acionou um de seus servidores, um agente da PF aposentado, para engendrar uma simulação que consistia em prestar informalmente depoimentos ao delegado e, a partir daí, levar uma versão dos fatos à Polícia Civil do Rio, o que acabou paralisando a investigação", disse a procuradora.

Os detalhes da denúncia não foram apresentados por ela, que falou por mais de uma hora em entrevista à imprensa.

O caso correrá perante o STJ porque Brazão é conselheiro afastado do TCE e a estrutura do tribunal foi usada para o suposto crime.

Marielle Franco, eleita vereadora no Rio em 2016, foi assassinada na noite do dia 14 de março de 2018 quando voltava de um debate com mulheres negras na Lapa, no centro do Rio. Seu veículo foi atacado a tiros no Estácio, a 4 km dali.

Sentada no banco de trás, ela foi atingida por quatro disparos na cabeça; e Anderson Gomes, seu motorista, também morreu com três tiros nas costas. A assessora Fernanda Chaves também estava no carro e sobreviveu.

O PM reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio Vieira de Queiroz foram presos em março sob acusação de terem executado o atentado. Ambos negam a acusação.

Em julho, a Justiça do Rio aceitou denúncia formulada pelo MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) contra o policial militar Rodrigo Jorge Ferreira e a advogada Camila Lima Nogueira por supostamente integrarem uma organização criminosa cujo objetivo era o de atrapalhar as investigações da Polícia Civil sobre o atentado."‹

O PM, conhecido como Ferreirinha, afirmou em depoimento à Polícia Federal que levava dinheiro de suborno a policiais da Delegacia de Homicídios da Capital, no Rio, que investiga a morte de Marielle e Anderson, a mando do miliciano Orlando Oliveira de Araújo, o Orlando Curicica.

À PF, Ferreirinha confessou também que havia prestado falso testemunho ao incriminar Curicica e o vereador Marcelo Sicilliano (PHS-RJ) como mandantes do atentado. Ferreirinha disse que mentiu para se livrar de Curicica, pois tinha medo de ser assassinado a mando do miliciano.

Logo após Ferreirinha mentir que Curicica era um mandantes da morte de Marielle, o miliciano, que estava preso no Rio, foi transferido para o presídio federal de Mossoró (RN).

Lá, prestou depoimento ao MPF (Ministério Público Federal) no qual afirmou que o então delegado Giniton Lages tentou convencê-lo a assumir a morte de Marielle e revelou ainda um suposto esquema de corrupção na Delegacia de Homicídios que barraria investigações sobre assassinatos ligados ao jogo do bicho e às milícias. Lages negou a acusação.

O depoimento de Curicica foi a peça-chave para que Dodge determinasse a entrada da Polícia Federal no caso.

Ferreirinha, a advogada Camila Lima Nogueira e pelo menos outras cinco pessoas foram investigadas --entre elas Brazão, adversário eleitoral de Sicilliano. Ele nega qualquer envolvimento no caso.