"Dois estranhos": curta da Netflix é um grito contra o ciclo do racismo estrutural

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Cena do filme Dois Estranhos, indicado ao Oscar de melhor curta
Cena do filme Dois Estranhos, indicado ao Oscar de melhor curta

Quando George Floyd foi estrangulado até a morte por um policial branco que ajoelhou em seu pescoço, em maio de 2020, em Minneapolis, meio mundo correu com lupas sobre o episódio para saber o que aquele homem negro fez para merecer o destino. Eram as lupas da culpabilização da vítima.

Floyd era um homem perigoso e fora de si, disseram alguns. Tinha passagem pela polícia. Queria assaltar. Usava nota falsa. Estava em surto. Ele não deveria ter reagido como reagiu. Se tivesse sido educado, teria desarmado a propensão homicida do agente de segurança.

Os comentários, nem todos anônimos e dispersos pelas redes sociais, mas referendados por formadores de opinião, davam a entender que o destino do homem que morreu sem poder respirar teria sido evitado se ele tivesse agido de outra forma. Como se fosse simples negociar alguma saída quando a outra pessoa está armada e tem um joelho em nosso pescoço.

É sobre essa cumplicidade do público o filme “Dois Estranhos”, filme recém-disponibilizado na Netflix e que concorre ao Oscar de melhor curta-metragem deste ano. Em cerca de 30 minutos, a produção dirigida por Travon Free coloca em outra perspectiva a noção, de parte dos espectadores, de destino.

No filme, o jovem ilustrador Carter James, personagem de Joey Badass, acorda no apartamento de uma mulher que conheceu na noite anterior e corre para casa. Está preocupado com o seu cachorro, que passou a noite sozinho.

Na porta do prédio, ele acende um cigarro e esbarra em um rapaz em direção ao trabalho, derrubando café em sua camiseta. O bate-boca chama a atenção de um policial, que vê no homem negro com um bolo de dinheiro uma atitude suspeita. Ele se nega a abrir a mochila para o guarda. A confusão tem início. Como George Floyd, Carter morre sem que o alerta de que não pode respirar seja ouvido.

“Por que não abriu a mochila logo, oras!”, pensamos nós, do outro lado da tela, como se desconfiássemos da inteligência do personagem. Era simples evitar aquele destino, não?

Pois na cena seguinte Carter acorda na mesma casa, do mesmo apartamento, com a mesma preocupação com o cachorro que passou a noite sozinho. Era só um pesadelo. Só que as cenas se repetem até a entrada do prédio, mas dessa vez ele está atento para evitar qualquer esbarrão. Em vez disso, é o cigarro agora que chama a atenção do policial. Sim, todos, inclusive o personagem, já viram esse filme. Não é spoiler para ninguém. Carter vai morrer novamente.

Como se estivesse preso àquele pesadelo, Carter acorda outras tantas vezes (cem, na última conta) fazendo tudo o que poderia para evitar o mesmo destino. Ele morre quando tenta passar correndo sem falar com ninguém (atitude suspeita). Morre quando tenta ser amistoso com o policial (atitude suspeita). Morre quando apela à empatia e à consciência histórica do algoz (militância suspeita). E morre quando percebe que estará seguro se permanecer naquele apartamento (elemento suspeito em local suspeito).

Não importa o que faça ou deixe de fazer. O destino do personagem não está relacionado à forma como se comporta. Está relacionado à cor da pele.

“Te vejo amanhã”, diz o policial a certa altura, como se debochasse do aprisionamento àquele ciclo.

Carter só queria ver seu cachorro, como queriam voltar para casa vivos os inúmeros personagens reais, homenageados no curta, quando tiveram os destinos interrompidos por "atitude suspeita". Floyd era um deles. Ele só queria ir ao mercado.

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