Dois feminicídios chocam a Argentina e governo cria conselho para combater violência de gênero no país

O Globo
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Poucos dias separaram os crimes que vem mobilizando a Argentina. No dia 8 de fevereiro, a jovem Úrsula Bahillo, de 19 anos, foi morta a facadas por um ex-namorado na cidade de Rojas, na província de Buenos Aires. No dia 12, Vanessa Carreña, 28 anos, foi apunhalada pelo ex-marido na frente dos filhos do ex-casal, também na região metropolitana da capital argentina.

Úrsula suportou sete meses em silêncio a violência que sofria do seu companheiro, o policial Matías Ezequiel Martinez. Até que decidiu contar para familiares, amigos, e enfim denunciá-lo 18 vezes à polícia por temer que ele a matasse, já que vinha sofrendo ameaças. O feminicídio gerou revolta e reacendeu a mobilização do movimento de mulheres argentinas, que cobra uma resposta estatal mais eficaz no combate à violência de gênero. Poucos dias depois, Vanessa Carreña foi morta por seu ex-marido, Carlos Soruco Fernández, que a assediava há meses com a intenção de retomar o relacionamento. Ela foi morta na frente dos filhos do ex-casal.

Os crimes se somam às estatísticas. Nos primeiros 45 dias do ano, a Argentina registrou 35 feminicídios, o que equivale a uma mulher assassinada a cada 29 horas ao longo de 2021, informou a organização feminista MuMalá, responsável pelo levantamento. Segundo o relatório, 12% dos feminicídios que ocorreram até 31 de janeiro deste ano foram cometidos por membros das forças de segurança, ativos ou aposentados. Além disso, 20% das vítimas, assim como Úrsula, já haviam feito denúncias anteriores.

Após a repercussão nacional dos casos de Úrsula e Vanessa, o presidente argentino Alberto Fernandez anunciou no último sábado (13) que irá criar um conselho federal de combate ao feminicídio, travesticídio e transfeminicídio. O objetivo do órgão federal é coordenar uma ação inte-institucional para prevenir, investigar, sancionar, e fornecer reparação e assistência para esse tipo de delito. A ideia é criar um sistema integrado de casos de violência de gênero no país.

"O caso de Úrsula é a regra, não a exceção", disse a ministra das Mulheres, Gênero e Diversidade, Elizabeth Gómez Alcorta, no dia seguinte à morte da jovem na cidade de Rojas. Segundo Alcorta, o Judiciário argentino não tem uma perspectiva de gênero, uma vez que se constatou que a vítima havia denunciado repetidamente seu agressor, e ainda assim não foi protegida. Especialistas afirmam que o crime poderia ter sido evitado se as autoridades tivessem respeitado os protocolos já existentes para esse tipo de caso.

“Neste caso, a enorme falha que tem a intervenção judicial é vista com indiscutível clareza. Estamos perante um caso em que uma jovem faz 18 denúncias contra uma pessoa que tem histórico de agressões em relações passadas. E a pessoa estava absolutamente sem qualquer medida de restrição à sua liberdade”, afirmou a ministra, em entrevista ao canal de notícias argentino TN.

A ministra será uma das integrantes e coordenadoras do conselho anunciado por Fernandez. Também farão parte da equipe os ministérios da Segurança, Justiça e Direitos Humanos, do Ministério Público Fiscal da Nação, do Poder Judiciário e Legislativo.

O movimento "Ni una Menos", que atua no país desde 2015, convocou manifestações para esta quarta-feira (17) e promete ocupar as ruas em memória de Ursula Bahillo. No comunicado publicado nas redes sociais, o movimento afirma que a convocatória é "por Úrsula e por todas" e pede um "basta na justiça patriarcal".

A organização MuMalá se junta ao coro e convoca para os protestos de hoje. "Úrsula havia feito queixas anteriores ao seu agressor e foi ameaçada de morte. Porém, a negligência policial e judicial mais uma vez fez com que o feminicida pudesse se mover confortavelmente, a violasse e depois matasse uma mulher com total impunidade”, denunciou a entidade, em nota. O grupo feminista solicita que o governo tome "medidas concretas" para que as argentinas possam viver uma vida "livre de violências".

Com informações de 'El País' e 'La Nacion'