Dois homens atingidos pela polícia perdem a visão em protesto contra Bolsonaro

·3 minuto de leitura
Daniel da Silva perdeu parte da visão após ser atingido no olho por bala de borracha atirada pela PM em protesto contra o presidente Jair Bolsonaro, no Recife
Daniel da Silva perdeu parte da visão após ser atingido no olho por bala de borracha atirada pela PM em protesto contra o presidente Jair Bolsonaro, no Recife
  • Dois homens atingidos pela PM durante ato contra Bolsonaro no Recife perderam parte da visão

  • Segundo parentes, as vítimas não participavam do protesto e estavam no local para trabalhar

  • Manifestantes foram reprimidos com balas de borracha pela polícia pernambucana

Dois homens atingidos nos olhos por balas de borracha atiradas pela Polícia Militar, durante o protesto contra o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) no Recife, no último sábado (29), perderam parte da visão. Segundo parentes, as duas vítimas não participavam do ato e estavam no local para trabalhar.

Um dos feridos foi o adesivador de táxis Daniel Campelo da Silva, de 51 anos, que perdeu o globo ocular e também foi atingido nas costas. Ele mora na zona oeste do Recife e foi ao centro da cidade buscar material de trabalho. Precisou descer do ônibus devido à interdição pelo protesto e foi surpreendido pela repressão da PM.

"Ele não estava nem no protesto. Tinha encomendado material para adesivar os táxis, porque, para ele, não tem feriado nem fim de semana. Ele trabalha todos os dias. Tem uma filha recém-nascida e um filho autista que dependem dele. Só tem essa renda, dos táxis, para tudo", afirmou ao portal G1 o filho de Daniel, o vigilante Júlio Campelo.

"O dano que o estado fez com meu pai é irreversível. Ele está sentindo muita dor", desabafou.

Daniel foi socorrido por um amigo taxista ao Hospital da Restauração, no Centro do Recife. No local, foi transferido para a Fundação Altino Ventura, unidade de saúde referência em tratamentos oftalmológicos. No entanto, devido ao inchaço do olho, os médicos não puderam fazer nenhum procedimento.

"Ele voltou para a Restauração. Não tem muito mais o que fazer, mas o médico disse que é preciso fazer uma limpeza, para não infeccionar. Ele disse que, na manifestação, não tinha nenhum tipo de truculência e, do nada, os PMs começaram a atirar", declarou o filho da vítima.

Além de Daniel, outras duas pessoas foram socorridas ao Hospital da Restauração devido à ação da PM. Uma foi Ednaldo Pereira de Lima, de 58 anos, atingido por bala de borracha na perna esquerda. A outra foi o arrumador Jonas Correia de França, de 29 anos. ferido no olho esquerdo. Em entrevista ao portal G1, a mulher, a dona de casa Daniela Barreto de Oliveira, disse que a situação é irreversível.

"Há 99% de chances de que ele perca totalmente a visão. Ele saiu do trabalho, passou no Mercado de São José, comprou a carne que eu pedi e estava voltando para casa, de bicicleta. Ele me ligou para dizer que ia demorar, porque estava esperando o protesto passar. Quando desligou o telefone, os policiais fizeram isso com ele. Não deram assistência nem socorreram e queriam impedir que eu e meu cunhado passássemos de carro para levar ele ao hospital", afirmou Daniela.

"Um policial, ontem, foi até o hospital pedir desculpas. Ele disse 'não tem desculpa para o que vocês fizeram comigo, eu sou um pai de família'. Agora, Pedro Eurico [Secretário de Justiça e Direitos Humanos] disse que vai me buscar amanhã [segunda-feira, 31 de maio] para conversar comigo, em nome do governador", prosseguiu a dona de casa.

"O estado fez isso com meu marido e, no hospital, nem remédio tinha para dar para ele. Meu sogro teve que comprar. Meu filho de 9 anos está arrasado. Nós dependemos dele para tudo, porque só ele trabalha e traz o ganha-pão", desabafou.

Por meio de nota ao portal G1, o governo de Pernambuco se manifestou sobre as duas vítimas atingidas no olho. No texto, disse que o governador Paulo Câmara (PSB) determinou que a Secretaria de Justiça e Direitos Humanos (SJDH) "acompanhe a assistência médica aos dois homens feridos no rosto" e acionou a Procuradoria Geral do Estado para "iniciar o processo de indenização aos atingidos".

"Assim como estamos acompanhando a investigação que está sendo realizada pela Corregedoria, também vamos seguir de perto a assistência às pessoas que resultaram feridas", disse o governador.

A nota disse, também, que a Corregedoria-Geral da Secretaria de Defesa Social começou a ouvir depoimentos sobre a ação truculenta da polícia.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos