Dois meses após morte trágica no deserto dos EUA, família de Lenilda ainda não sabe quando conseguirá enterrá-la no Brasil

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RIO — A família de Lenilda Oliveira dos Santos, de 49 anos, ainda não conseguiu dar um desfecho para a trágica morte da técnica de enfermagem e mãe de duas filhas, caso que gerou luto e comoção em setembro. Isso porque, passados dois meses desde que ela foi abandonada à própria sorte no deserto pelo grupo que a acompanhava na travessia ilegal aos EUA, e acabou morrendo, acredita-se, por conta do calor e da sede, o corpo segue em solo americano, aguardando uma liberação para voltar ao Brasil, ainda sem nenhum prazo definido. Parte do traslado, cerca de US$ 11 mil arrecadados na internet, já foi pago. Mas uma série de empecilhos tem atrasado esse tão esperado adeus em Vale do Paraíso, Rondônia.

A expectativa da família era de que o reencontro para a despedida tivesse acontecido no último dia 20 de outubro — justamente a data em que ela completaria 50 anos se estivesse viva —, o que acabou não se concretizando até hoje, 16 dias depois. O primeiro grande imprevisto aconteceu justamente na semana em que, acreditavam os parantes, o corpo seria colocado num avião rumo ao Brasil. O agente funerário responsável pelo corpo de Lenilda teve um grave problema de saúde e acabou precisando ser internado às pressas, o que, por si só, já atrasaria o processo. Uma nova profissional, então, foi designada pela empresa para acompanhar a repatriação.

O problema é que, em seguida, chegou a informação de que, pelo fato de a Polícia do Novo México não ter concluído o inquérito, e portanto não ter assinalado a causa da morte no atestado de óbito da brasileira, uma questão burocrática impediria que o consulado brasileiro autorizasse a transferência do corpo para o Brasil. No documento emitido pelo estado americano, os agentes registraram o motivo da morte como "causa pendente".

— É muita angústia, tudo isso está sendo muito difícil — desabafou o irmão de Lenilda, Leci Pereira.

Kleber Vilanova Jr., dono da empresa que assessora a família de Lenilda nos Estados Unidos desde que a tragédia aconteceu, conta que tem entrado em contato constantemente com a funerária e com a polícia americana para tentar dar celeridade ao processo, por conta do sofrimento da família, que já se alastra, mas sem sucesso. Os argumentos dados a ele são de que os investigadores não podem apressar a apuração sobre a causa da morte de Lenilda e, portanto, não podem assinalar no documento. O consulado ele também diz estar de mãos atadas, mas ressalta que tem tentado junto às autoridades conseguir a documentação necessária. Ele diz que, para a família, é como se estivessem esse tempo todo velando um caixão vazio.

— O consulado está entrando em contato com o órgão, que no Brasil seria correspondente ao Instituto Médico-Legal (IML) de Novo México para ver se há algo que possam fazer para conseguir assinar a causa da morte o mais rápido. Mas, pelo que me parece, devido à crise migratória eles estão com muitos casos acumulados lá, e a própria investigadora responsável pelo caso da Lenilda explicou que não assinou a causa ainda porque há partes da investigação que estão pendentes — contou Vilanova. — Para se ter uma ideia, o corpo, quando foi liberado a pedido meu, foi enviado a Ohio, onde foi feito um mini-velório com os parentes dela que vivem aqui, mas a polícia não liberou os documentos nem os pertences que estavam com ela numa pochete. Estão guardados como evidência. Não temos sequer documento original e passaporte dela, e é algo que dificulta também.

Questionado sobre o assunto pela reportagem, o Itamaraty, por meio do Consulado-Geral em Houston, informou que acompanha com atenção o caso e que está à disposição para prestar toda a assistência cabível, respeitando-se os tratados internacionais vigentes e a legislação local.

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Estágio de mumificação

Os áudios enviados por Lenilda via celular à família em seus últimos momentos antes de morrer, entre os dias 5 e 7 de setembro, dão conta de que ela foi deixada para trás pelo coiote e pelo grupo que a acompanhava — amigos de infância, conterrâneos da pequena cidade de Vale do Paraíso, em Rondônia —, que seguiram em frente quando ela passou mal, logo no início da travessia, prometeram voltar para buscá-la e nunca o fizeram, deixando-a à própria sorte. Ela seria encontrada apenas dias depois, com o corpo já em estágio de mumificação, com as mãos ao rosto, numa cena que o chefe de polícia do condado de Luna, que a encontrou, definiu como "uma das mais tristes que já viu em vida".

Por isso, e também pela grande repercussão que teve o caso, acredita-se que os investigadores locais estejam cautelosos quanto à conclusão do que aconteceu naquele dia 7 de setembro: se Lenilda chegou a ser atacada de alguma forma, envenenada ou se de fato sucumbiu à sede e ao calor do deserto. O caso, em aberto, corre em sigilo.

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