Dois meses após ser preso por engano, violoncelista da Orquestra de Cordas da Grota se apresenta em recital: 'Ainda me sinto preso'

Cíntia Cruz
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Entre solos de "Ave Maria" e "Aleluia", o violoncelista Luiz Carlos da Costa Justino, de 23 anos, usa sua música para confortar familiares que visitam o Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, Zona Oeste do Rio, na manhã desta segunda-feira (2), Dia de Finados. Com o tio e violinista, Leandro Justino, o ele apresenta o "Recital Música no Parque". Mas, por trás de cada melodia, o músico ainda tenta superar o trauma de ter ficado cinco dias preso por engano:

— Agora não sou mais o Luiz divertido, que brincava. Agora sou o Justino, mais sério. Eu ainda me sinto preso, não consigo ser aquela pessoa divertida, livre. Só me sinto seguro em casa, ainda tenho pesadelos. Não consigo mais dormir com tudo apagado porque lembro das quatro paredes e eu lá dentro daquele lugar escuro. Até para tocar tem sido ruim, porque exige concentração.

Há dois meses, o violoncelista, que integra a Orquestra de Cordas da Grota, em Niterói, foi preso, após ser parado numa blitz quando saía de uma apresentação musical nas barcas, naquela cidade. Na 76ª DP (Niterói), soube pelos agentes que havia um mandado de prisão expedido contra ele por um assalto à mão armada em novembro de 2017. Um contrato provou que, no momento do suposto crime, o rapaz estava se apresentando em um estabelecimento comercial.

Após os cincos dias que ele classifica como dias de terror, Luiz quis apagar do corpo as memórias que ainda permeiam sua mente. Tirou o dread do cabelo e jogou a fora a roupa que usou na prisão.

— Dormi muitas vezes no chão, era muita sujeira, estava me sentindo pesado com aquele cabelo. Parecia que ainda estava com algo lá da prisão — explica o músico.

Mesmo com o cabelo curto, Luiz foi reconhecido, na manhã desta segunda-feira, na Sulacap. Sorrisos, palavras de carinho e frequentes "Parabéns" eram como combustíveis para que o jovens continuasse com o que faz de melhor. Desde que foi solto, Justino recebeu três convites para tocar em eventos. Fora os trabalhos, ele conta que tem evitado sair de casa:

— Fico meio neurótico de sair. Estou com medo de tudo. Isso me marcou. Não sou o mesmo de dois meses atrás. Foi um filme de terror e fico com medo de viver de novo. Tenho medo de sair na rua, de me pegarem e me levarem de novo, do nada. Mesmo comprovando que estou certo, ainda estou respondendo. E também tem pessoas que ainda duvidam da minha inocência. Ainda é constrangedor falar sobre isso.

Recentemente, o músico foi convidado para integrar mais uma orquestra. Com uma filha de três anos, o convite veio em boa hora.

— Está um pouco apertado porque quase não estou mais indo para a rua. É bom você estar em várias orquestras porque (o salário) chega a quase um salário mínimo e mais um bocadinho — comemora Luiz, que pretende cursar bacharelado em música.

Para o músico, tudo o que ocorreu teve uma única causa: o racismo, sistema que ele conhece bem. Mas Luiz quer Justiça por tudo que aconteceu com ele:

— Já me vi no ônibus sentado, com um lugar vago ao meu lado e as pessoas de pé. Racismo já vivo no dia a dia, mas nunca dessa forma, chegando a ser preso. Depois que comprovar minha inocência, vou abrir processo contra o estado e contra a pessoa que me acusou pela foto. Isso não se faz com ninguém.

Apesar de todas as consequências por ter ficado quase uma semana preso por engano, o músico garante que não tem rancor:

— Tenho mágoa porque, querendo ou não, a pessoa me condenou pela foto e foi para casa dormir tranquila. Não pensou que iria acontecer isso tudo comigo. Eu era só mais um preto, favelado, que não tinha como se defender.