Dois morrem em protestos um dia após Añez se declarar presidente da Bolívia

SYLVIA COLOMBO

LA PAZ, BOLÍVIA (FOLHAPRESS) - Um dia após se declarar presidente interina da Bolívia, a senadora Jeanine Añez recebeu no Palácio Quemado, sede do governo, o alto comando militar e da polícia do país. Ela formalizou a troca do comandante do Exército e discutiu com os militares medidas para combater os protestos que incendeiam o país --as propostas, no entanto, não foram divulgadas.

Nas ruas, um homem de 20 anos morreu em Montero, no departamento de Santa Cruz, num confronto entre apoiadores do ex-presidente Evo Morales e membros do Comitê Cívico antigovernamental da cidade.

Outro jovem, também de 20 anos, morreu em Yapacaní, a cerca de 75 km de Montero. Ele foi baleado na cabeça quando manifestantes pró-Evo entraram em conflito com policiais. Desde o início dos atos, já foram registradas nove mortes.

Em uma cerimônia ainda pela manhã, Añez empossou o novo comandante do Exército, Carlos Orellana Centellas. Ele substitui o general Williams Kaliman, nomeado por Evo e que tinha feito pronunciamento na televisão sugerindo a renúncia do ex-presidente.

Ela afirmou que a ocasião era "oportuna para chamar a calma de toda a população boliviana". "Peço que abandonem as atitudes intransigentes."

Centellas também pediu calma. "Somos irmãos. Informe à Bolívia que as Forças Armadas estarão sempre ao lado do povo."

Uma fotografia divulgada pelo senador Oscar Ortiz Antelo em uma rede social mostra um militar ajeitando a faixa presidencial utilizada pela senadora de oposição.

Em uma entrevista para jornalistas logo em seguida, Añez disse que quer fortalecer as polícias, "que nos demonstraram nestes dias, com o Exército, que trabalhando de maneira conjunta nos dão bons resultados". Ela acrescentou que "a única coisa que os bolivianos querem é viver em paz".

Enquanto a presidente interina se reunia com os militares, grupos de apoiadores de Evo se preparavam na cidade de El Alto para descer à capital e pedir sua renúncia. Eles consideram ilegítimo o modo como ela chegou ao posto, sem ter atingido quórum para votações do parlamento.

Após a sessão que em se autoproclamou no poder, ela caminhou até a sede do Executivo, em La Paz, e disse que "a Bíblia voltou ao palácio [presidencial]". Evo renunciou à Presidência no domingo (10), depois de 13 anos no cargo, pressionado pela oposição e pelas Forças Armadas.

Na entrevista coletiva, Añez disse que haverá "um processo eleitoral limpo e todos os cidadãos que cumpram os requisitos poderão participar". Também afirmou que se esforçará para trazer do exterior "irmãos bolivianos que estão no exílio por conta do governo anterior".

Depois de se declarar presidente interina, Añez excluiu uma mensagem racista publicada em sua conta no Twitter. No texto, ela criticava o Ano-Novo aymara, etnia que classificou como "satânica", porque "a Deus ninguém o substitui".

Em uma mensagem mais recente, ela lamenta a soltura do ex-presidente Lula. "Uma pena que eles gostem de ladrões!!!", escreveu no sábado (9), um dia após a saída do brasileiro da prisão em Curitiba.

Nesta quarta, La Paz foi palco de confrontos violentos entre as forças de segurança e apoiadores de Evo.

Polícia e membros do Exército lançaram bombas de gás lacrimogêneo enquanto um blindado percorria o perímetro da praça de San Francisco, sem efetuar disparos.

Muitos dos manifestantes vieram de El Alto, carregando bandeiras dos vários grupos indígenas presentes no país. 

A praça Murillo, onde fica a sede do governo foi cercada por policiais e soldados do Exército. Os manifestantes gritavam "renuncie" para a nova mandatária.

Numa rede social, Evo Morales escreveu que legisladores foram "brutalmente reprimidos e impedidos" de entrar na Assembleia Nacional. "O golpe racista e facista se afunda na ilegalidade."

Entre eles estava Adriana Salvatierra, que foi líder do Senado até renunciar publicamente no sábado, junto com outros membros de seu partido. Ela afirmou a repórteres que sua carta de renúncia não havia sido apresentada à Casa, e que, por isso, continuava no cargo. "Ainda sou senadora."

Em outras partes do país, outros grupos começaram a se mobilizar, incluindo o dos produtores de coca do Chapare, de onde veio Evo. 

O líder local, Andrónico Rodríguez, publicou um vídeo nas redes sociais afirmando que seu grupo se declara "em mobilização nacional contra o golpe de Estado. Rejeitamos a autoproclamação da senhora Añez, que foi inconstitucional".

Em sua primeira entrevista coletiva desde que chegou ao México, onde recebeu asilo político, o ex-presidente disse que está disposto a voltar à Bolívia para pacificar seu país, "se meu povo pedir". "Vamos voltar cedo ou tarde. Quanto antes melhor para pacificar a Bolívia."

Ao jornal El País, disse que estaria disposto a abrir mão de se candidatar para por fim à onda de violência. 

Em reação ao movimento de Añez, a chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Federica Mogherini, defendeu a posse da senadora para "evitar o vazio de poder" e "convocar novas eleições" após a renúncia de Evo.

"A União Europeia apoia uma solução institucional que permita que um governo interino prepare novas eleições", disse durante uma sessão do Parlamento Europeu. 

A maioria dos parlamentares deu seu aval ao pedido de novas eleições e ao envio de uma missão eleitoral da UE, mas não houve consenso quanto aos responsáveis pela crise boliviana. 

A chancelaria do Reino Unido reconheceu o que chamou de "governo interino" de Añez. "Eleições livres e justas reconstruirão a confiança do povo boliviano na democracia", afirmou o órgão em um comunicado.

O Brasil e os EUA reconheceram Añez como presidente interina. Já a Argentina, segundo informação de um alto oficial do governo ao jornal Clarín, não a reconhece no cargo por enquanto.