"Dolor y gloria", o filme mais introspectivo de Almodóvar

Por Laurence BOUTREUX
Diretor de cinema espanhol Pedro Almodóvar na apresentação de seu filme "Dor e Glória" em Madri, em 12 de março de 2019

"Dolor y gloria", que estreiou na última sexta-feira nos cinemas espanhóis, tem sido considerado o filme mais intimista de Pedro Almodóvar em seus quarenta anos de carreira.

A história é centrada em um diretor melancólico interpretado por Antonio Banderas.

Embora tenha prometido que jamais publicaria sua autobiografia, Almódovar admitiu estar "emocionalmente nu" neste filme, seu vigésimo primeiro, em que aborda de uma forma sóbria, quase pudica, o amor, a dor e a reconciliação.

"Eu precisava fazer um olhar muito introspectivo a mim mesmo, inclusive à parte mais obscura de mim mesmo, e misturar isso com as lembranças mais luminosas da minha infância", explicou à televisão pública espanhola.

Uma criança que se descobre homossexual no meio rural e católico, dois homens maduros que se beijam ternamente... Seu mundo íntimo se encontra condensado no longa-metragem, que escaneia as emoções e os lamentos de uma vida, mas sem os excessos de um melodrama.

"Eu sou dono de minhas histórias e imponho meu universo com todo o orgulho e toda a prepotência que isso outorga", disse Almodóvar ao site espanhol eldiario.es.

"E em meu universo há dois senhores mais velhos que beijam com paixão e, logo depois, um deles volta para a sua vida com sua mulher e seus filhos", acrescentou.

- Banderas, "meu Mastroianni" -

Aos 69 anos, Almodóvar novamente se dá ao prazer de filmar os olhares de sua atriz fetiche, Penélope Cruz, a quem confia um papel prominente, a de jovem mãe que se depara com os problemas, mas que se ilumina cantando na lavanderia.

A atriz espanhola Julieta Serrano, que aparece no filme "Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão" (1980), representa a mãe já idosa. A que faz repetir as instruções para seu enterro. A que insiste, em vão, "não quero que coloque nada de mim em seus filmes".

Como alter ego, Almódovar escolheu o andaluz Antonio Banderas, 11 anos mais novo, que assumiu os cabelos brancos, para representá-lo sutilmente sem cair na imitação.

"Levei tempo para compreender que Antonio era meu legítimo Mastroianni", confessou Almodóvar ao El Mundo, em referência ao papel de cineasta depressivo que Federico Fellini confiou a "seu" ator italiano em "Fellini, oito e meio" (1963).

Banderas, um ator elevado à glória, mas que sofreu a dor pessoal, com várias operações de coração nos últimos anos, consegue expressar a vulnerabilidade de um criador enfurnado em seu apartamento-museu para quem sua vida "perde o sentido" sem rodar.

Um Banderas que conhece de cor e salteado o cinema de Almodóvar, que conheceu no começo dos anos 1980 e com quem gravou nessa época cinco filmes, entre elas "Ata-me!".

Em entrevistas recentes, Almodóvar se dedicou a esclarecer partes da ficção que não são fiéis à sua biografia: aos nove anos não se apaixonou por um pedreiro, embora isso pudesse ter acontecido.

E, não, a heroína descoberta por seu alter ego nas telas jamais foi a sua droga. Ele preferiu a cocaína.

Grande descobridor de atrizes, o diretor leva para o cinema a cantora espanhola Rosalía. Em 2018 ela revolucionou por seu flamenco fundido à música urbana.

Sua aparição é rápida, apenas o tempo de interpretar uma nostálgica "copla", cantora tradicional que nos leva de novo à infância.