Domínio do Bayern é mais um lembrete sobre o drama da desigualdade no futebol atual

Carlos Eduardo Mansur
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Por vezes, não é o placar de um jogo do Mundial de Clubes a melhor medida da desigualdade instalada no futebol Mundial. São as sensações criadas, os comportamentos. Sejam quais forem os oponentes, quando entram em campo os europeus, aos olhos da audiência global as atrações do jogo estão de um lado só. Em geral, o rival adota uma política de redução de danos, predomina o receio. Em dado momento da partida, a pergunta não é mais quem vai vencer, mas de quanto. Em momento algum se admitiu como factível a hipótese da surpresa.

São sensações que, em tese, não combinam com uma semifinal de Mundial protagonizada por dois campeões continentais. Pode-se argumentar que os clubes africanos estão, mesmo no universo dos "não europeus", um degrau abaixo. Mas tais sensações se repetem ano após ano contra asiáticos, sul-americanos ou mexicanos: protagonistas dominando o jogo contra sparrings sonhando com um milagre.

Passou o Bayern de Munique pelos egípcios do Al Ahly por 2 a 0, em tese um placar modesto, mas de um jogo que foi praticamente um monólogo futebolístico. Há outros números mais ilustrativos não do que foi a semifinal, mas do que é a maioria dos encontros deste torneio: 24 finalizações contra cinco, 69% de posse de bola contra 31%, o dobro de passes trocados pelos alemães. Em esporte algum, é saudável que uma semifinal de Mundial seja convertida em algo tão protocolar. É preciso dar mais atenção ao abismo criado no futebol de clubes.

Só para que se tenha uma ideia, jogando as competições de seu país e de seu continente, o Al Ahly acumulava 32 jogos de invencibilidade. Bastou encontrar um time da elite europeia para sequer conseguir se expressar.

Mas ao menos a semifinal permitiu, diante da imposição do Bayern de Munique, observar por que é tão agradável ver o campeão europeu jogar. É uma estratégia de submissão, de compressão do rival contra a sua própria área. Começa com zagueiros excelentes na construção, que ganham cada centímetro que o adversário permitir e avançam. Tudo isso somado à ótima pressão ofensiva, fazia o jogo ocorrer em metade do campo.

Destacou-se Kimmich, um dos melhores organizadores de jogo do mundo. Nesta segunda-feira, na ausência de Goretzka, foi mais um a frequentar a área do Al Ahly. Por vezes, com os pontas Coman e Gnabry buscando o centro do ataque junto a Lewandowski e laterais muito ofensivos, os alemães chegavam a ter seis jogadores na linha de frente. Aliás, Coman e Gnabry são cada vez mais eficientes ao alternarem o jogo pela ponta e pelo meio.

Com seu repertório, o Bayern se exercitava. Criava por fora e por dentro, abrindo o jogo para cruzar ou com combinações pelo meio. Aos 17 minutos, quando Boateng iniciou a jogada e achou o lateral Pavard, havia cinco homens na área do Al Ahly: Lewandowski abriu o placar.

A segunda etapa teve um Al Ahly mais diposto a explorar a mais evidente fragilidade do Bayern: o espaço às costas da defesa, em especial dos laterais. Houve algumas insinuações de contragolpes perigosos, mas poucas finalizações que causassem real suspense. O Bayern, por outro lado, criava menos. Choupo Moting substituiu Thomas Müller e Sané entrou na vaga de Gnabry. O placar magro persistiu até os 40 minutos do segundo tempo, mas sem que o jogo parecesse fora de controle. Foi quando Moting e Sané combinaram e o cruzamento encontrou Lewandowski.

O Tigres deve exigir que o Bayern tenha mais cuidados, deve resistir mais. Precisarão ser mais velozes com a bola do que têm sido neste Mundial para tentar encontrar os espaços. O futebol permite tudo, mas outra vez o lado europeu chega com claro favoritismo à decisão.