Dom Phillips é um talentoso jornalista britânico apaixonado pelo Brasil, dizem amigos

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Quando partiu em direção à Amazônia, nas últimas semanas, o jornalista britânico Dom Phillips, 57, enviou uma foto para a sua família no Reino Unido. Do avião, acima das nuvens, um arco-íris atravessava o céu sobre a floresta. Esta foi a última vez em que ele fez contato com a sua irmã, Sian Phillips, e seu cunhado, Paul Sherwood.

O repórter viajou na companhia do indigenista Bruno Pereira, membro da ONG Univaja e servidor em licença da Funai (Fundação Nacional do Índio), que já foi alvo de uma série de ameaças.

Os dois foram vistos pela última vez na manhã do domingo (5), na comunidade de São Rafael, no Vale do Javari --Forças Armadas e polícia do Amazonas seguem nas buscas pelos desaparecidos.

Experiente correspondente, há 15 anos no Brasil, Phillips está pesquisando e escrevendo um livro -"Como Salvar a Amazônia". Para viabilizar este trabalho, ele foi selecionado para uma bolsa da Alicia Patterson Foundation.

A Terra Indígena Vale do Javari, destino do jornalista, tem sido frequentemente invadida por garimpeiros, madeireiros, caçadores e pescadores.

Em mensagem à Folha de S.Paulo, seu cunhado afirmou que Phillips está dedicado a completar a pesquisa para o livro que escreve.

"Gostaríamos de enfatizar o quanto ele ama o Brasil e a importância da pesquisa que está fazendo sobre a Amazônia e como preservá-la, tanto como uma região selvagem quanto uma esperança para os povos indígenas", escreveu Sherwood.

Phillips cresceu em Bebington, cidade 8 km ao sul de Liverpool, na Inglaterra. Quando jovem, tocava nas ruas em busca de dinheiro. Começou sua carreira jornalística cobrindo o cenário da música eletrônica e foi editor da revista Mixmag.

O britânico escreveu um livro sobre o nascimento da cultura dos DJs e, em 2007, viajou ao Brasil atraído por colegas da área musical. Segundo carta escrita por amigos jornalistas, Phillips planejava ficar alguns meses em São Paulo, mas se sentiu tão em casa no país que decidiu se mudar de vez.

Ele também morou no Rio de Janeiro, onde gostava de andar de bicicleta e de fazer stand-up paddle, e, nos últimos meses, se mudou para Salvador, na Bahia, estado de sua mulher, Alessandra Sampaio.

Ela escreveu uma carta e gravou um vídeo no qual fez um apelo para que o governo intensifique as buscas pelos desaparecidos.

"A gente ainda tem um pouquinho de esperança de encontrá-los. Mesmo que eu não encontre o amor da minha vida vivo, eles têm que ser encontrados, por favor", disse, emocionada.

Na mensagem direcionada às autoridades, Alessandra também pediu urgência nas buscas. "Quero dizer a vocês que Dom Phillips, meu marido, ama o Brasil e ama a Amazônia. Ele poderia viver em qualquer lugar do mundo, mas escolheu viver aqui."

No Brasil, Phillips passou muitos anos trabalhando como freelancer para o jornal britânico The Guardian. Também escreveu para Washington Post, New York Times, Financial Times e The Intercept.

Ele conhece bem a Amazônia e se dedicou a essa cobertura praticamente desde o momento em que chegou ao Brasil.

O jornalista Andrew Fishman, que contribui com o Intercept, diz à reportagem que Phillips fez diversas viagens perigosas e que tem uma grande experiência de trabalho junto aos povos indígenas.

"Ele se tornou muito apaixonado pela luta para defender a Amazônia, mas sempre mantém uma visão muito sutil da situação complicada em questão --nunca é preto no branco para ele."

"Ele decidiu escrever este livro justamente para se aprofundar e ir mais longe na cobertura que mais lhe interessa", escreveu em mensagem encaminhada à reportagem.

Fishman diz que o amigo é "extremamente talentoso", respeitado por muitos jornalistas e ambientalistas brasileiros e internacionais. Afirma, ainda, que Phillips "recusou repetidamente empregos muito prestigiosos e lucrativos para fazer o que ama".

"Dom é um dos jornalistas mais éticos e corajosos que conheço. Sempre foi extremamente rigoroso em seu trabalho e incisivo em suas análises."

Em 2019, Phillips se tornou alvo de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro após questioná-lo em um evento a respeito da escalada do desmatamento na Amazônia. O vídeo foi replicado nas redes bolsonaristas e ganhou milhares de visualizações.

"Primeiro, vocês têm que entender que a Amazônia é do Brasil, não é de vocês. A primeira resposta é essa daí", respondeu Bolsonaro.

"Dom ficou muito abalado com esse vídeo. Ele sentiu que isso colocava um alvo em suas costas e dificultava seu trabalho. Ele foi reconhecido em toda a Amazônia e em seu cotidiano por todos os tipos de pessoas como 'o jornalista que levou um esporro do Bolsonaro'", afirma Fishman.

Ele diz que o amigo manifestou preocupação com os rumos da política no Brasil, no Reino Unido e nos Estados Unidos, e que ama falar sobre o tema.

Fishman afirma também que Phillips é muito generoso -"tem fontes incríveis e não é mesquinho em compartilhá-las".

"Ele ajudou muitos jornalistas a entender o Brasil, se ofereceu como voluntário para ensinar inglês em favelas do Rio e quando se mudou para Salvador rapidamente encontrou uma ONG [Jovens Inovadores] onde também dava aulas, apesar dos riscos da Covid-19", diz.

A jornalista Cecília Oliveira, fundadora da plataforma Fogo Cruzado, visitou Phillips em fevereiro. Ela o descreve como "um amigo cuidadoso, gentil e muito solícito".

"Fomos à praia, jantamos e passeamos pela Salvador que ele já conhecia como conhecia o Rio: o melhor acarajé, a cerveja mais gelada", diz.

Cecília afirma que o britânico é uma pessoa preocupada com o sofrimento humano e que o seu trabalho tem um propósito social. "Ele gosta de ver o impacto de seu trabalho na vida das pessoas. Gosta de fazer jornalismo que mude algo, que denuncie desmandos, que ajude a proteger quem precisa de proteção."

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