Doméstica, Cláudia abriu mão da segurança e enfrenta a Covid e a solidão todos os dias

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por André Bogart e João Conrado Kneipp

Diariamente, Cláudia de Oliveira de Lopes acorda cedo, toma café da manhã, se arruma, põe uma máscara no rosto e sai pelas ruas do bairro Residencial Vale dos Sonhos, bairro da periferia de Goiânia, em Goiás. A pé, anda 20 minutos para ir e voltar do emprego como auxiliar de serviços gerais em um condomínio residencial de alto padrão na capital.

Desde o início da pandemia da Covid-19, a trabalhadora de 49 anos optou por trocar o trajeto de ônibus superlotado pela caminhada ao ar livre para evitar ao máximo a contaminação pelo novo coronavírus. Cláudia percorre, sozinha, entre matagais e uma movimentada rodovia para chegar ao trabalho.

“Essa mudança brusca me atrapalhou demais porque eu corro perigo andando só. [O perigo] do coronavírus e de encontrar um ser humano solto por aí”, afirma.

Até o começo de 2020, Cláudia combinava um ponto de encontro por mensagem no WhatsApp para ir ao trabalho com amigas. Há quase um ano e meio, porém, é cada uma por si.

Os números da Covid-19 em Goiás:

  • 657.301 casos positivos

  • 8.554 mortes 

  • 2,83% a taxa de letalidade 

Somente nas últimas 24 horas, os municípios goianos registraram 2.251 novos casos de Covid-19 e 84 óbitos decorrentes das ações do vírus, de acordo com dados do boletim epidemiológico divulgado nesta segunda-feira (21).

De máscara e a pé, ela enfrenta todos os dias o vírus e os perigos de andar sozinha pelas ruas desertas e matagais até o trabalho. (Foto: Marcello Dantas)
De máscara e a pé, ela enfrenta todos os dias o vírus e os perigos de andar sozinha pelas ruas desertas e matagais até o trabalho. (Foto: Marcello Dantas)

O momento mais perigoso do novo trajeto é quando ela pula o guardrail e para no acostamento da rodovia. Sem sinalização para pedestres, olha o lado esquerdo, vê o vaivém de automóveis e se arrisca a correr para o outro lado quando vê os veículos distantes no horizonte.

“Depois que passa isso aqui já é uma felicidade. É uma adrenalina, é medo mesmo”, confessa, ofegante ao Yahoo.

Desconfiança e risco de Covid-19 impactaram transporte coletivo

A decisão de Cláudia em abandonar o transporte coletivo e se arriscar a pé para o serviço não foi isolada. O transporte público no Brasil foi um dos setores mais afetados pela pandemia e tem sido palco de dezenas de falências e recuperações judiciais. 

Em menos de 12 meses, 18 empresas e três consórcios de ônibus encerraram suas atividades, e outros sete grupos estão em recuperação judicial, segundo estudo do FGV Ceri (Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura).

No período entre abril de 2020 e fevereiro deste ano, as empresas de ônibus que resistiram aos impactos assumiram um prejuízo que se aproxima de R$ 11,57 bilhões, segundo a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos. 

Entre metrôs e trens, a perda de receita tarifária foi de R$ 8 bilhões somente em 2020, aponta a Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos (ANPTrilhos).

Somado a isso, o setor já enfrentou ao menos 38 greves, paralisações ou protestos, 13 ocorrências contratuais, como rompimentos ou contratações emergenciais e 5 intervenções nas empresas de transporte, segundo levantamento do Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), no período entre dezembro de 2020 e maio deste ano.

Momento crucial do novo trajeto de Cláudia é quando atravessa a pé as duas pistas da rodovia que separa a periferia onde mora, em Goiânia, do condomínio de alto padrão onde trabalha. (Foto: Marcello Dantas)
Momento crucial do novo trajeto de Cláudia é quando atravessa a pé as duas pistas da rodovia que separa a periferia onde mora, em Goiânia, do condomínio de alto padrão onde trabalha. (Foto: Marcello Dantas)

Especificamente na região da Grande Goiânia, o número de passageiros caiu 53,1% na Rede Metropolitana de Transporte Coletivo (RMTC) e RedeMob Consórcio — que engloba quatro concessionárias e uma estatal do serviço de ônibus urbanos e intermunicipais — na comparação com o período pré-pandemia. 

Na semana passada, o pico de passageiros transportados chegou a 244,6 mil, atingido na última quinta-feira (17). Muito distante dos cerca da média de 500 mil usuários do transporte coletivo que utilizavam as mais de 300 linhas de ônibus da RMTC e da RedeMob Consórcio até março de 2020.

  • 224,6 mil passageiros por dia em 17 de junho de 2021

  • 521 mil passageiros por dia em 9 de março de 2020

  • Redução de 53,1% no fluxo de usuários do transporte coletivo da RMG

Ao todo, 639 funcionários diretos ou indiretos do consórcio tiveram casos confirmados de Covid-19, sendo que um motorista morreu em decorrência da doença, segundo dados do Boletim Transporte Coletivo, publicado no dia 18 de junho. O grupo conta com 3,9 mil funcionários diretos e indiretos. 

Goiás ignorou domésticas como serviço essencial e negligenciou transporte

Para o segmento de Cláudia, o lema “fique em casa” foi um vívido percalço, uma vez que seu sustento consiste em, justamente, atender e executar as tarefas e serviços em outras residências que não a sua. Não bastasse o obstáculo do vírus e o medo de ser infectada, as tentativas de usar o transporte coletivo ainda foram dificultadas quando ela viu sua categoria ser ignorada do hall de atividades essenciais.

People inside a bus in Rio de Janeiro, Brazil, on March 13, 2021 amid the Covid-19 pandemic (Photo by Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images)
Na região da Grande Goiânia, o número de passageiros caiu 53,1% na comparação com o período pré-pandemia. (Foto: Fabio Teixeira/NurPhoto via Getty Images)

Em março, o governo estadual, comandado por Ronaldo Caiado (DEM), determinou que somente trabalhadores dos serviços considerados essenciais poderiam embarcar no transporte coletivo durante os horários de pico no início da manhã e no fim da tarde.

Por 1h30, duas vezes ao dia, quem não fosse servidor dos segmentos elencados por decretos estaduais e municipais como prioritários (como Saúde, Alimentação, Farmacêutico e Industrial, entre outros) teria o embarque ou a integração bloqueada temporariamente.

A decisão, tomada em conjunto com a RedeMob Consórcio, a Companhia Metropolitana de Transportes Coletivos (CMTC), Ministério Público e os prefeitos dos municípios da Região Metropolitana de Goiânia, excluiu a maioria dos usuários do transporte coletivo.

Um levantamento feito pela RedeMob mostra que aproximadamente 60% dos trabalhadores que utilizam o transporte no horário de pico não fazem parte do grupo de serviços essenciais.

Na pandemia no Brasil, quarentena é raridade para Cláudia ou qualquer outra doméstica

Cláudia conta que foi infectada pelo vírus no início da pandemia, mas não teve nenhum sintoma grave. Porém, precisou "quebrar" a regra básica da quarentena e cuidar dos patrões que haviam positivado para a Covid-19.

O caso dela — felizmente com um desfecho diferente — é semelhante ao da doméstica Cleonice Gonçalves, o primeiro óbito confirmado por Covid-19 no estado do Rio de Janeiro e a 5ª morte registrada no Brasil, ainda em março de 2020.

A patroa de Cleonice tinha voltado da Itália e não contou que havia contraído Covid-19. Aos 63 anos, diabética e hipertensa, portanto do grupo de risco, Cleonice não resistiu. 

Auxiliar de serviços gerais, Cláudia precisou se expor ao vírus para manter o trabalho e o sustento durante a pandemia. (Foto: Marcello Dantas)
Auxiliar de serviços gerais, Cláudia precisou se expor ao vírus para manter o trabalho e o sustento durante a pandemia. (Foto: Marcello Dantas)

Também doméstica, Mirtes Renata de Souza não teve ofertada a possibilidade de ficar em casa durante a pandemia por sua patroa, a primeira-dama de Tamandaré (PE), Sari Corte-Real. Sem alternativa, ela levava seu filho, Miguel, ao trabalho, um luxuoso apartamento em um edifício de alto padrão.

Durante um passeio com o cachorro da patroa, em mais um dia de serviço, Mirtes deixou Miguel aos cuidados da patroa. As filmagens das câmeras de segurança do prédio mostram Sari abandonando a criança sozinha no elevador. Quem encontrou o corpo do menino Miguel, de 5 anos já sem vida, após cair do nono andar do condomínio, foi Mirtes.

Mesmo diante do perigo, a Cláudia diz ter tido o “prazer” de ajudar pessoas de seu convívio. De acordo com ela, o governo falhou em desassistir as profissionais que trabalham na casa dos outros.

“Eles acharam que nós não iríamos adoecer de Covid. E tem tantas que frequentam ônibus interestaduais dentro da cidade. A gente não teve essa pausa, trabalhou sempre. Foi desgastante saber que estava saindo numa hora em que estavam todos dentro de casa, e a gente com a cara no mundo.”

A categoria das trabalhadoras domésticas é particularmente vulnerável na crise do coronavírus. No Brasil, segundo a última pesquisa do Ipea (2018), mais de 6 milhões de pessoas se dedicam a esses serviços. O país é hoje o segundo com maior número de empregadas domésticas, atrás apenas da China, que possui 22 milhões. 

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Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), foram demitidas 26,6% do total de mais de 6 milhões de trabalhadoras domésticas brasileiras desde o início da pandemia no Brasil. (Foto: Getty Images)

Desse total do Brasil, 92% são mulheres – 63% delas são negras, de baixa escolaridade e oriundas de famílias de baixa renda. E apenas 28,3% possuem carteira assinada.

Essas dificuldades se agravaram no contexto da pandemia do Covid-19. Segundo dados do IBGE (2020), 1,5 milhão de pessoas ocupadas em trabalho doméstico durante o ano de 2019 perderam o trabalho em 2020. 

Domésticas foram demitidas em massa no Brasil na pandemia

Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), entre o final de 2019 e o segundo trimestre de 2020, momento da chegada da pandemia ao Brasil, foram demitidas 26,6% desse total de trabalhadoras domésticas brasileiras. Piora a situação o fato de que muitas delas trabalham de forma informal, sem proteções trabalhistas.

Ainda de acordo com a OIT, o número de horas trabalhadas por essas profissionais caiu 43% nesse mesmo período, e a perda salarial foi em média de 34%.

Soma-se a isso a situação de vulnerabilidade imposta às trabalhadoras domésticas informais devido à insuficiência das políticas do governo federal visando proteção social à população atingida pela perda de renda e trabalho durante pandemia: 

  • o baixo auxílio emergencial de R$ 600

  • a interrupção do pagamento por 3 meses entre dezembro de março, e 

  • a retomada em valores muito inferiores aos de antes

Vacina para a população é saída, e Goiás segue a 'marcha lenta' brasileira

A saída, na visão de Cláudia, será somente pela vacinação em massa. Goiás, entretanto, segue a média do ritmo desacelerado que se vê em diversos estados do Brasil, mesmo tendo sido o 2º estado a iniciar a vacinação no país, em janeiro.

Até agora, foram 2,68 milhões de doses de vacinas contra Covid-19 — entre 1ª e 2ª aplicação —, o que coloca o estado na 10ª colocação das unidades federativas que mais vacinaram sua população em números gerais, segundo dados do Ministério da Saúde.

Na cobertura vacinal, no entanto, a posição de Goiás cai para 16º, conseguindo até agora imunizar aproximadamente 37,6% dos habitantes com a primeira dose, e somente 12,8% com a 2ª dose. 

A saída da pandemia da Covid-19, na visão de Cláudia, passa pela vacinação em massa da população. (Foto: Marcello Dantas)
A saída da pandemia da Covid-19, na visão de Cláudia, passa pela vacinação em massa da população. (Foto: Marcello Dantas)

No domingo, Goiás recebeu mais 235 mil doses da vacina AstraZeneca. Com o novo carregamento, o estado já recebeu 3,6 milhões doses de imunizantes, sendo: 

  • 1,4 milhões da CoronaVac; 

  • 1.956.470 da AstraZeneca; e

  • 273.780 da Pfizer

“Esse vírus chegou e fez mudanças radicais na nossa vida. E já está demorando demais para passar”, afirma.

Entre tantas idas e vindas ao trabalho, Cláudia tem um pensamento na cabeça: a vacinação contra a Covid-19. Na sua leitura, a imunização está em um ritmo tão demorado quanto a espera pelo transporte coletivo

Cláudia compartilha outro incômodo: a politização da vacina entre as lideranças, que, para ela, atrasa a retomada da vida. Somente a aceleração da vacina irá fazer com que Cláudia volte a viver como antes da pandemia, seja apertada como lata de sardinha no ônibus ou numa arriscada caminhada a pé.

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