Dona da Estácio sobre fusão com rivais: ‘Todo dia a gente olha, e gostaríamos de fazer’, diz CEO

Cinco anos após o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) vetar sua fusão com a Kroton, a dona da Estácio entende que já há espaço para nova tentativa de combinação de negócios entre grupos educacionais listados em Bolsa.

Quem diz é Eduardo Parente, presidente da YDUQS, que também é dona do Ibmec desde 2019. Segundo o executivo, o grupo “gostaria” de fazer uma fusão com concorrentes e tem conversas sobre o assunto “toda semana”.

— Todos os dias a gente olha, e gostaríamos de fazer. Achamos que tem muito valor no mercado, tanto para a gente como para nossos concorrentes. Tem que achar a situação correta. Fazer por fazer não tem sentido… — disse o executivo, que também é professor e aluno dos cursos oferecidos pelo grupo.

Parente falou com a coluna por uma hora e meia na sede da YDUQS, no Rio, abordando assuntos como a temática ESG e a aposta no ensino à distância e nos cursos de medicina.

Leia abaixo alguns trechos da conversa, em versão condensada e editada:

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Como a pandemia transformou seu negócio?

Antes, é preciso dizer que tivemos cinco crises acumulativas. Houve o fim do Fies, uma crise econômica que não acaba, a Covid, a alta de juros e a inflação. Tivemos que fazer um esforço alucinado para continuar cabendo no bolso do aluno. Muita coisa deu errado, como financiamento próprio, cursos de ensino médio na Estácio, abertura de muitas unidades etc.

O que funcionou pra gente foi ensino à distância (EaD) e medicina.

Hoje, 94% das pessoas preferem estudar presencialmente, mas foi o EaD que trouxe gente pra faculdade.

Qual é o tamanho do EaD hoje?

Ele veio como substituto do Fies, teve uma migração forte para ele, com seu tíquete médio de R$ 200. O Fies representava R$ 1,3 bilhão em receitas em 2017; o EaD foi R$ 1,4 bilhão no ano passado.

Ele foi beneficiado pela pandemia?

Pelo contrário. Se não houvesse pandemia, o crescimento seria maior, porque a restrição hoje é o bolso das pessoas. A taxa de expansão está mais baixa que antes da pandemia.

E quanto ao presencial?

Teve concorrente que chegou a decretar o fim do presencial, mas a gente dobrou a aposta. Na pandemia, vimos como ele é indispensável, o que reforçou nossa visão dele como negócio.

Mas hoje ele cresce pouco nos números de vocês. Vai haver uma aceleração?

Haverá uma retomada muito forte quando a economia permitir. Mas não é automático, a pessoa tem que ter horizonte para estudar por quatro anos.

É enorme a quantidade de famílias que não conseguem pagar ensino presencial com tíquete médio de R$ 670.

Vocês têm repassado alta de custo aos preços?

Tentamos, mas nem sempre conseguimos. Sofremos muito na pandemia, mas em 2022, a coisa voltou. Ainda não voltou o que era antes, mas nossa captação presencial subiu quase 50% este ano. Atraímos 70 mil alunos em 2021 e 101 mil agora. Em 2020, entraram 135 mil, nosso pico. Voltaremos a esse patamar, mas já tivemos um alívio.

Quando haverá esse retorno?

Tem que ter segurança de que a economia voltou mesmo. O efeito no EaD é mais rápido. Mas a inflação é uma batalha. Nosso tíquete médio do presencial, que é de R$ 670, é a metade do que era há cinco anos. Por isso que quem depende do presencial passa por uma crise. E por isso que tem muita gente fechando a porta ou vindo atrás da gente para conversar.

Então há espaço para aquisições?

A alta dos juros deu uma freada muito grande, é muito difícil se alavancar para comprar alguém. E a Bolsa está lá embaixo. Mas, no caso de fusão, você pega dois caras com ação deprimida e é mais fácil de fazer. As empresas abertas estão valendo muito menos do que as fechadas acham que valem.

Mas há espaço regulatório para fusão?

Sim, o setor é muito pouco concentrado. Só 30% do presencial estão na mão dos quatro grupos na Bolsa.

Em 2017, o Cade vetou a fusão entre Estácio e Kroton. Algo mudou?

A situação hoje é muito diferente, existem muitas empresas de educação que cresceram, e a competição é muito maior.

Há planos?

Todo dia a gente olha, e gostaríamos de fazer. Tem muito valor no mercado, tanto para a gente como para nossos concorrentes. Mas tem que achar a situação correta. Fazer por fazer não tem sentido…

Mas há conversas avançadas?

Avançada não, mas há conversas toda semana. Mas esse tipo de conversa é rápida. Todo mundo se conhece, tem os mesmos auditores, já me matriculei em todas elas (risos).

Qual é a estratégia de crescimento em medicina? Passa por aquisições?

As aquisições de medicina já eram caras antes dos juros atuais, com gente cobrando R$ 2 milhões por vaga, o que a gente nunca pagou. Nosso crescimento vem da própria maturação das vagas que a gente já tem. E, se a gente fizer fusão, a gente pode crescer ainda mais.

Qual é o plano para o Ibmec, comprado pouco antes da pandemia?

A gente foi atrás do Ibmec por causa do conteúdo deles, para turbinar nosso EaD. Mas o Ibmec tinha realidades diferentes. Em São Paulo, estava bombando, competição “olho no olho” com Insper e FGV. Em Belo Horizonte, é a referência. Mas, no Rio, a gente tinha uma marca meio sofrida… Acho que o pessoal fez algumas economias quando pensava em vender que foram ruins. Estamos fazendo um grande turnaround. Estamos crescendo em matrículas, em base.

A marca vai ter no Rio um prestígio ainda maior do que já teve. Vamos competir “olho no olho” com a PUC-Rio.

Vocês tem falado mais sobre ESG. Por quê?

O lado social sempre esteve no nosso DNA. A gente resolveu organizar a questão do ESG. As pessoas estão indo muito em metas, mas nosso ponto de partida é muito alto. Temos 45% de funcionários negros, 31% de líderes negros, 7% da comunidade LGBTQIA+ etc. E isso é reflexo do nosso objeto de trabalho. Mais de 80% dos nossos alunos vieram de escola pública. Viramos um reflexo nisso. E a gente está sendo redescoberto (nesse assunto).

Isso tem impacto no negócio?

Falando especificamente de Estácio, está mudando a forma como a gente é visto e como a gente se posiciona.

É muito mais fácil encontrar alguém diverso aqui do que na maioria das outras instituições. É nossa realidade. Temos vantagem competitiva nessa corrida porque a gente nasceu assim.

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