Crime confesso de Donald Trump atualiza a figura do "Garganta Profunda"

Matheus Pichonelli
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Republican presidential candidate Donald Trump gestures and declares "You're fired!" at a rally in Manchester, New Hampshire, June 17, 2015.  REUTERS/Dominick Reuter      TPX IMAGES OF THE DAY      FOR BEST QUALITY IMAGE ALSO SEE: GF10000188014
O presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Dominick Reuter/Reuters

Quando boa parte dos jornalistas hoje em atividade engatinhava ou era apenas um projeto dos pais, Bob Woodward já era uma lenda da crônica política.

Deve parte da fama, é verdade, à atuação de Robert Redford em “Todos os homens do presidente”, de 1976. Inspirado no livro homônimo, o filme é uma aula básica de qualquer curso de introdução ao jornalismo.

Mostra como Woodward, ao lado de Carl Bernstein (interpretado, no filme, por Dustin Hoffman), batalhou, como formiga no verão, para ligar os pontos e deixar de pé uma série de reportagens publicada no Washington Post que não só colocou o jornalismo investigativo em outro patamar como alterou o curso da história americana.

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Coube a uma fonte anônima, que entrou para a história como Garganta Profunda, municiar os repórteres sobre o caso Watergate, escândalo que levou à renúncia do presidente Richard Nixon em 1974.

Watergate é uma referência ao conjunto de prédios do Partido Democrata que, conforme mostrou a apuração, foi invadido e grampeado por arapongas ligados ao então presidente. Um escândalo para a época digno de filme de Hollywood.

Cinco décadas depois, Woodward, aos 77 anos, pode voltar a mudar o curso da história.

A dois meses da eleição presidencial nos EUA, seu livro recém-lançado, “Rage” (“Raiva”, em tradução livre) traz uma declaração com potencial explosivo para a campanha à reeleição de Donald Trump.

A ironia é que, desta vez, ninguém precisou omitir a identidade para relevar a gravidade dos fatos. É o próprio presidente norte-americano quem abre a boca para atualizar a figura da Garganta Profunda versão 2020.

Em entrevista concedida a Woodward, Trump admitiu que mentiu ao minimizar a ameaça do coronavírus no começo da pandemia. Fez isso sob a justificativa de que não queria causar pânico, mesmo munido de informações suficientes sobre a letalidade do vírus.

Em seus quase quatro anos de mandato, Trump mentiu, dissimulou, omitiu e manipulou os fatos como quis.

Na pandemia não foi diferente, mas a afirmação em voz alta soa agora como crime confesso.

Trump, que até outro dia evitava usar máscara em público, já afirmou que a doença era “assim como uma gripe”, apoiou protestos contra o isolamento social, divulgou o potencial milagroso de um medicamento sem eficácia comprovada e em fevereiro jurava que a taxa de contaminação ficaria em breve próxima de zero.

A estratégia custou quase 200 mil vidas só nos EUA. E fez escola.

Em seus tuítes produzidos numa realidade paralela, a ação e reação diante das palavras do presidente norte-americano nunca foram tão diretas quanto agora. Essa postura virou cartilha e produto tipo exportação para governos alinhados e subordinados ao modo Trump. Jair Bolsonaro, que rastejou e imitou o ídolo até onde pôde, que o diga.

A favor de Trump e companhia é que, em 2020, os escândalos produzidos em escala industrial já não escandalizam como antes. Se nos anos 1970 ninguém teria coragem de sair às ruas em defesa de um presidente envolvido em um caso ilegal de grampo contra adversários, hoje há quem pegue em armas para defender o líder populista-demagógico que fala fundo à alma de um certo eleitorado sedento de um passado de glórias e pautado pelo ódio ao “outro” -- do estrangeiro às minorias.

Mas não deixa de ser irônico o rebaixamento da sofisticação exigida ao jornalismo profissional diante de líderes como ele. Trump não precisa de fonte anônima para se revelar. Precisa apenas de um microfone e um holofote. Uma eventual recondução ao cargo será a vitória da estupidez.