Molecagem de Trump na eleição dos EUA é roteiro do que pode acontecer por aqui

Matheus Pichonelli
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WASHINGTON, D.C., Nov. 5, 2020 -- Photo taken in Arlington, Virginia, the United States, on Nov. 5, 2020 shows the live stream of U.S. President and Republican presidential nominee Donald Trump attending a press conference at the White House in Washington, D.C., the United States.   U.S. President and Republican presidential nominee Donald Trump said on Thursday he expects "a lot of litigation" over the 2020 election. (Photo by Liu Jie/Xinhua via Getty) (Xinhua/Liu Jie via Getty Images)
Foto: Liu Jie/Xinhua (via Getty)

O dia 5 de novembro de 2020 vai entrar para a história como o dia em que um presidente dos EUA foi à TV acusar de fraude, sem evidências, o sistema eleitoral de um país que já o elegeu.

Donald Trump parece ter usado as escadas da democracia americana para chegar onde chegou e agora tenta serrar os seus degraus. Nem se tivesse construído um fosso no jardim da Casa Branca e enchido de crocodilos, como nas histórias medievais, a postura seria tão vergonhosa.

Trump deu vida a um novo léxico na autoproclamada maior democracia do planeta.

Em suas manifestações como presidente, senso comum virou “a verdade”. Ofensas viraram “liberdade de expressão”. Críticas e contraposições viraram “fake news”. Populismo barato virou “patriotismo”. Jornalismo profissional virou “inimigo”.

Como candidato à reeleição, ele transformou o voto para o adversário em “voto ilegal”. Os dele, sim, são os “votos legais”.

Diante de espectadores do mundo inteiro, Trump colocou a presidência de seu país à beira de um golpe de Estado, expressão emprestada do francês porque supostamente longe da realidade americana, sob o argumento de que quer proteger a democracia. Antes, pediu que parassem a apuração enquanto liderava a disputa. É como pedir o fim do jogo quando ele está 1 a 0 para seu time.

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Trump, como suas réplicas mundo afora, se aproveitara das regras democráticas, imperfeitas e corrigíveis, como quem toma atalhos para chegar ao poder. Seria um acidente histórico e geográfico não fosse a disposição em permanecer onde está, queiram os democratas (no sentido global, e não partidário, da palavra) ou não. Uma vez lá instalado, as regras deixam de valer.

Democracia nos olhos de Trump e congêneres é pimenta. A não ser quando eles ganham.

Na dúvida, a estratégia é lançar dúvidas e confundir os eleitores com teorias da conspiração, planos mirabolantes sobre inimigos obscuros orientados pelo fantasma amorfo e útil para qualquer ocasião chamado “o sistema”.

Jair Bolsonaro olha e observa os passos do mestre. Ensaia conversas do tipo por aqui, onde o sistema de votação eletrônico é modelo para o mundo. Candidato, dizia não aceitar qualquer resultado que não provasse a vontade do povo que dizia sentir nas ruas. Eleito, jurou ter provas, jamais apresentadas, de que levou as eleições no primeiro turno em 2018. Ninguém deu pelota, mas a bola seguiu andando e seguirá até 2022.

Trump passou a campanha com uma vacina na mão. Não a que evitaria o morticínio do coronavírus em seu país, mas a vacina retórica segundo a qual só a vitória dele seria legítima. Ele desestimulou os eleitores republicanos a voltarem por correio. Colocou em dúvida a integridade de um recurso e as instituições que o gerenciam. Voto por correio já foi usado em inúmeras disputas nos EUA, inclusive a que o elegeu presidente.

O republicano sabia que o voto à distância favoreceria Joe Biden. E que boa parte do eleitorado americano não aderiu ao papo-furado do presidente que escondeu e minimizou os riscos da covid-19 e não se censurou a estimular aglomerações.

A confusão é o campo favorito da turma, que se autoproclama a única, sagrada e indiscutível manifestação da vontade do povo. O resto é inimigo e qualquer resultado que os conteste é fraude ou cooptação: do mal, dos corruptos, dos inimigos da pátria. Já vemos essa história por aqui.

Trump e congêneres não suportam dois segundos de jornalismo profissional — que ao menos nos EUA teve a decência de interromper a fala do bufão e colocar em xeque a veracidade do que diz.

Quatro anos de profunda reflexão não foram suficientes para explicar como o despreparo e o destempero em pessoa chegaram ao comando da maior potência econômica e militar do planeta. Chegaram e fizeram escola.

Quatro anos podem ser pouco também para impedir que lá ele permaneça.

Trump conseguiu transformar as eleições americanas em uma apuração de votos para o Carnaval. Está mais para o folião que fugiu com as fichas dos jurados e rasgou diante das câmeras do que para estadista.

É o que acontece quando milionários excêntricos crescem pensando que o mundo é seu quintal e alguém dá a eles um discurso político como se fosse brinquedo. Ele não vai deixar o playground enquanto não cansar.

O que em outros tempos estarreceria hoje é inspiração, inclusive por aqui. Assim como o léxico, o roteiro, bem copiado e mal colado, está dado para o que se desenha em outras terras em 2022.