Dono da Marfrig compra 24,23% da BRF e diz que não vai mandar na empresa

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RIO - Em um movimento que surpreendeu o mercado, o controlador do frigorífico Marfrig, Marcos Molina, comprou o equivalente a 24,23% do capital da BRF e se tornou o maior acionista da companhia, como antecipou o colunista do GLOBO Lauro Jardim. A BRF é o que se chama no jargão do mercado de uma corporation, uma empresa sem controlador definido. Em comunicado, a Marfrig informa que o objetivo da aquisição é diversificar os investimentos da empresa em um segmento que tem complementariedades com seu setor e indica que terá atuação passiva.

O frigorífico afirma que não pretende eleger membros para o conselho de administração, exercer influência sobre atividades da companhia ou promover alterações no controle ou na estrutura administrativa da BRF. Os principais acionistas da empresa são Petros, Previ e o fundo Kapitalo, mas com fatia inferior à do novo acionista.

O movimento de compra dos papéis deve ser alvo de debate no mercado nos próximos dias, mas a primeira leitura é de que pode representar um passo no sentido de nova tentativa de fusão entre as empresas. Isso foi ensaiado em 2019, mas não houve avanço.

Para se ter uma ideia do peso do acionista após a operação, a Marfrig é avaliada no mercado em R$ 13,169 bilhões. Com base no valor de fechamento dos papéis da BRF ontem, a participação de Molina na empresa vale R$ 5,3 bilhões.

Durante o dia, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regula o mercado de capitais, abriu processo administrativo (preliminar), afirmando apenas se tratar de um processo de supervisão referente a “notícias, fatos relevantes e comunicados” da Marfrig.

Segundo operadores, Molina vinha adquirindo papéis desde terça-feira, mas não havia sido identificado no mercado quem era o comprador das ações. Desde quarta, os papéis da BRF vinham em trajetória de alta.

As ações da BRF dispararam ontem 15,72%.

Previ reduz participação

No fim do dia, como revelou a coluna Capital, por meio do JP Morgan, Molina abocanhou cerca de R$ 950 milhões em um leilão de ações da BRF. Apenas neste leilão trocaram de mãos mais de 4% do capital da companhia.

Segundo fontes, o maior vendedor foi a Previ, que teria se desfeito de pouco mais de R$ 650 milhões em papéis da BRF a Molina. O restante das vendas foi pulverizado.

Em 2018, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil liderou, ao lado da Petros e de outras gestoras, uma revolução na governança na BRF. O movimento retirou da presidência do conselho da BRF Abilio Diniz, a quem os fundos atribuíam a sequência de prejuízos que a maior exportadora de frangos do mundo vinha registrando.

Caso os valores de venda no leilão de ontem se confirmem, a Previ teria reduzido sua fatia na BRF de 9,1% para cerca de 6,2%.

Analista de Agro, Alimentos & Bebidas da XP, Leonardo Alencar afirma que a compra das ações é um sinal de que pode haver interesse da Marfrig em uma possível fusão, como a que foi ensaiada em 2019. Naquela ocasião, um dos pontos de atrito entre as duas empresas foi a estrutura acionária. Na época, o que circulou no mercado é que Molina tinha interesse em ser a autoridade máxima na fabricante de carne de frango.

— Agora, segundo o fato relevante, a impressão é que o Molina corrigiu isso antes de sentar na mesa para discutir a fusão novamente — disse.

Em relatório, a XP afirma que vê de forma positiva a possibilidade de fusão devido à diversificação entre proteínas animais.

Para Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos, a BRF está mais bem posicionada no mercado halal (países muçulmanos), com proteínas como frango e porco, e a Marfrig tem exposição grande no mercado americano e doméstico, com carne bovina.

— Há complementariedade em termos regionais e proteicos — afirmou.

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